Viaduto da Morte

 

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Houve um tempo, lá na Capital do Estado de São Paulo, que era moda o suicídio das pessoas pulando do Viaduto do Chá. Não só ele, mas também o seu vizinho, o Viaduto Santa Efigênia, desfrutava desse “status”, porém em grau de menor intensidade.

Raramente um dia se passava sem que o camburão de transportar cadáveres da polícia não era acionado para recolher um desesperado que se atirara do viaduto e estatelara lá em baixo, no asfalto da avenida. Milhares de curiosos se aglomeravam em volta do defunto, admirando como pode braços e pernas quebrados trocarem de lugar, ossos embranquecidos serem expostos e sangue jorrar da cabeça do infeliz, enquanto seu coração, o verdadeiro motivador do desesperado gesto, simplesmente parar e se acomodar sob o peito do desafortunado, como não fosse aquele órgão que preenche uma das funções necessárias à vida, o causador do fato.

Lá de cima, debruçados sobre o parapeito do Viaduto do Chá, outros curiosos freneticamente quase jogavam para baixo os que estavam às suas frentes, numa cena de hipocrisia coletiva, ao exclamarem “coitado, que desgraça” ou coisas semelhantes, enquanto permaneciam apreciando o espetáculo gratuito inserido na paisagem urbana da grande cidade, por todo o tempo que ali ficasse o cadáver exposto.

Corpo removido, algumas vezes o chão lavado pelas águas jorradas do caminhão “pipa” do serviço municipal, outras vezes simplesmente limpo pelos pneus dos veículos que transitavam por aquele chão e a vida voltava ao normal, até que novo corpo cruzasse o espaço e se rachasse no asfalto.

Impressionante, mas alguns dias mais de um suicida aproveitava a passagem pelo viaduto e terminava com a vida, chegando assim ao momento de fama que desfrutavam todos os que escolhiam aquele meio para chegar ao fim. Lembro-me até da notícia de um dia que dois pularam, simultaneamente, de cada um dos viadutos, e houve um caos no trânsito da área central da capital.

Apostas surgiam entre os frequentadores da região, jogando no número de pessoas que se matariam a si próprios em um dia, ou em uma semana e até em um mês.

Nepomuceno ou “Flanelinha” como era conhecido, começou a bancar esse jogo, fazendo ponto no começo do Viaduto do Chá, bem na porta principal do prédio da antiga “Light”, e já acumulara bastante dinheiro com essas apostas, quando aceitou, um dia, uma aposta alta de um desconhecido que previa para aquela semana um número elevado de casos. Como achou que o estranho estava delirando, não tinha conhecimento de causa e experiência como ele, “topou” o jogo e os dias que se seguiram foram de expectativa, de anotações fieis e com testemunhas assinando o registro dos casos ocorridos.

Não é que aquela semana houve, realmente, mais casos do que o costumeiro e o apostador chegara ao número exato de suicídios que arriscara e o dia final marcado estava prestes a terminar. O banqueiro do jogo estava muito nervoso, pois todas suas economias não eram suficientes para pagar a aposta, quando um corre-corre já conhecido se formava lá no meio do viaduto e a notícia chegava dizendo que mais um havia se jogado, para alívio do Nepomuceno. Suando ainda, apesar do frio que fazia naquele dia, Nepomuceno se preparava para ir embora, considerando-se vencedor do jogo, mas foi seguro pelo seu adversário, que o fitava com olhares misteriosos, de alguém que previa as coisas, de pessoa de outro mundo, ao mesmo tempo em que um moleque vinha correndo e contava a história que aquele último “pulador” não morrera, pois caiu exatamente sobre um caminhão de entregas, carregado de colchões, saindo ileso do salto e correndo para não ser apanhado pelo motorista do caminhão, que aos gritos prometia matá-lo se o alcançasse, em razão dos prejuízos que tivera com o estrago das mercadorias.

A noite chegou e com ela o fim do período daquela aposta. Nepomuceno, perdedor, pagou quase tudo o que devia, e prometendo ao homem no dia seguinte completar o valor da dívida, saiu desesperado, sem saber como cumprir a promessa, totalmente falido, pois nem sequer tinha o dinheiro para a passagem do ônibus para casa, onde sua família o esperava para cozinhar o feijão que levaria com a farinha, o único alimento naquele dia. A passos lentos em direção ao outro lado do viaduto arrependeu-se amargamente em deixar de ganhar a vida lavando e cuidando dos carros estacionados dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ali próximo, para se transformar em banqueiro do jogo da morte, quando de repente parou no meio do caminho e com olhar firme para o céu estrelado, subiu no beiral e rapidamente pulou no espaço, indo se arrebentar no asfalto do Vale do Anhangabaú.

Não houve, para ele, um veículo salvador transitando lá embaixo, muito pelo contrário, logo atrás corria um caminhão que passou com a rodagem dupla sobre sua cabeça.

Apesar de irreconhecível um dos costumeiros apostadores inocentemente gritou alto:

-Olhem! É o Nepomuceno!

Um comentário em “Viaduto da Morte

  1. Parabéns pelo conto. Prende atenção. E nos remete a uma reflexão sobre como nossa sociedade trata com um certo desdém horrendo a desgraça alheia. Infelizmente os flashes são mais importantes para algumas pessoas. Parabéns ao autor pelo texto.

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