Uma Manhã Diferente

assinatura_1

 

 

 

 

(Rio de Janeiro – RJ)

uma-manha-diferente

No princípio era apenas uma manhã de sol ameno com uma brisa refrescante de um finalzinho do outono. O céu ao amanhecer apresentava um azul extraordinário e sem   nuvens, dando àquele quadro a claridade e a harmonia que a natureza gentilmente oferecia. Mas existia um detalhe interessante em relação a esse belo despertar. Estranhamente não se ouvia nenhum som produzido pelos pássaros, que comumente provocavam intenso alarido ao voarem em bandos à cata de alimento ou para construírem os seus ninhos. 

Tudo silencioso demais. Mesmo as crianças, que costumeiramente faziam uma imensa algazarra em suas atividades lúdicas, estavam quietas e contemplativas em relação ao ambiente em que se encontravam, como que hipnotizadas pela placidez e a beleza daquele momento especial, que nesse dia destoava enormemente da mesmice a que todos estavam acostumados no cotidiano de suas vidas sempre previsíveis.

 O momento recomendava que as pessoas relaxassem ao máximo e aproveitassem cada minuto da magia envolvente que aquele momento especial proporcionava, permitindo que revigorassem suas energias e perseverassem em viver num mundo tão conturbado. Afinal, não era sempre que se defrontavam com uma situação como aquela. Parecia mesmo que o mundo houvesse diminuído o seu ritmo de forma que repensassem acerca da insensata correria que parecia não ter mais fim, e que nesse ritmo prometia previsíveis agruras decorrentes dessa loucura toda. Algo a ser desfrutado em plenitude antes que tudo voltasse a ser como antes e quebrasse, de vez, o momento mágico que desfrutavam em harmonia com a bela quietude matinal que o momento proporcionava.

Uma coisa chamava a atenção de todos. O ar parecia eletrizado, pois mesmo uma ocasional brisa provocava arrepios de frio, embora a temperatura estivesse mais alta que a esperada nesta época. Tinha ainda o detalhe do cheiro ambiente que fugia também à normalidade. Não era propriamente um odor de poluição ou coisa parecida. Algo diferente e indefinido por não se assemelhar a nada conhecido, o que dificultava a escolha de um parâmetro qualquer que servisse para compará-lo. Numa equivalência grosseira, tinha leve e quase imperceptível semelhança com o éter utilizado em hospitais. Se o ar fosse inspirado profundamente, produzia uma sensação moderada de desconforto ao sistema respiratório. Como se fosse uma leve queimação interior que provocava uma  sensação nauseante.

Tirando essas anomalias, por assim dizer, era apenas mais um amanhecer como outro qualquer, ensejando que transcorreria do modo habitual  e terminaria do mesmo jeito que os demais, apenas com algumas variações de estilho previsíveis, como a eventual ocorrência de chuvas ou ventos mais fortes. Aliás, a natureza, de um modo geral sempre seguia um padrão bem comportado, exceto quando se rebelava e mostrava a sua face destruidora para o terror de muitos. Se bem que ultimamente ela tivesse se excedido nesse particular com inquietante frequência, através de ciclones, vendáveis, tornados e tempestades atípicas, incluindo os abalos sísmicos que cada vez alcançavam escalas maiores na escala específica.

Mas por volta das duas horas da tarde esse quadro começou a mudar progressivamente. O céu subitamente ofereceu uma cor cobre-acizentada que mais se acentuava à medida que o dia avançava, e o odor presente na atmosfera também foi se tornando mais intenso e chegou a ficar nauseabundo, o que provocou em algumas pessoas um grande desconforto estomacal e ânsias de vômito frequentes. Enquanto isso um ruído de fundo proveniente de um lugar indefinido se somava a esse estranho fenômeno, como se produzido por um dínamo gigantesco que estivesse fora de ritmo. Os decibéis daí resultantes estavam uma frequência tal que incomodavam os ouvidos humanos, mas aparentemente não eram percebidos pelos gatos, cachorros e pássaros. O ar, por seu turno, sugeria estar parado, pois não se percebia sequer uma leve brisa que ensejasse a aproximação de uma tempestade ou coisa semelhante.

O que estava ocorrendo? Seria um fenômeno atmosférico raro e, portanto, desconhecido pela ciência? Ou a consequência de alguma experiência humana secreta conduzida pelos militares? Eles constantemente produziam novas armas que atendessem às suas ambições bélicas, na contínua tentativa de estarem sempre um passo à frente dos demais países. Poderia ser qualquer coisa o responsável direto pela anomalia atmosférica que assustava às pessoas, mormente devido à ausência de uma explicação que exemplificasse a razão de ser acerca do que estava ocorrendo. Nem mesmo os técnicos em meteorologia, quando consultados, sabiam explicar com exatidão o fenômeno, mesmo que tentassem sugerir algumas possibilidades, porém sem muita convicção. Era um evento atípico que sugeria muitas possibilidades, todas perfeitamente plausíveis diante do constante aumento no mundo de fenômenos análogos.

De repente, a cor do céu passou de cobre-acizentado para uma cor avermelhada num piscar de olhos, seguido instantaneamente de um leve abalo sísmico que durou apenas o lapso de tempo dessa drástica mudança de tonalidade, mas suficiente que desencadeasse  uma incipiente  sensação de pânico na população, que procurava inutilmente entender o que estaria de fato ocorrendo naquele dia estranho.

Mas, assim como havia começado, tudo terminou abruptamente quando o horizonte começou a clarear e, num repente, o azul intenso substituiu rapidamente a cor avermelhada e devolveu ao firmamento a sua cor original, ao tempo em que o odor desagradável era substituído por um cheiro parecido ao de rosas desabrochando, que instantaneamente invadiu todo o ambiente, seguido de uma brisa refrescante que deu movimento ao ar até então totalmente estático. O som de fundo também foi suprimido e substituído pela natural poluição sonora ambiental da cidade, sugerindo que, qualquer que fosse a causa determinante do estranho evento, agora tudo tinha voltado à normalidade.

Até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu, apenas que a natureza parece ter desejado oferecer uma pequena demonstração de sua pujança sobre tentativa do homem em querer destruir, conscientemente ou não, o habitat em que vive. Contudo, e se não fosse esse o verdadeiro motivo daquela aberração climática? Que estranhas forças teriam agido para formar aquele ambiente surreal? Só restava esperar que com o tempo respostas satisfatórias fossem dadas. Mas uma coisa havia ficado bem clara: Seja quem fosse o agente responsável por aquela anomalia, o aviso havia sido dado.

Um comentário em “Uma Manhã Diferente

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *