Um Voo Para o Infinito

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A música suave fazia parte do cenário íngrasa-deltaeme do Parque da Cidade, começava a primavera e as flores já se destacavam nas matas, ipês amarelos, quaresmas e outras árvores convidavam os pássaros para compor a beleza daquele local. Raios do sol reluziam nas folhas, pareciam luzes da ribalta dourando as pedras, o motor do carro até era suave diante aquele cenário natural, obra de Deus.

Sheila e Francisco sorriam felizes para mais um final de tarde de vôo livre. O céu azul com nuvens em blocos parecia que Deus passara por ali, os pássaros em revoada bailavam como se uma orquestra invisível tocava a mais linda canção dos anjos. Sheila ficou pensativa, olhava para a natureza viva ao seu redor, e pensou nas palavras de sua mãe que a alertava do perigo de voar de asas delta. Francisco percebeu o silencio dela, e levemente segurou sua mão numa linguagem carinhosa que só ela conhecia, e o conforto daquela segurança, a fez voltar para a alegria de poder voar livre como os pássaros.

Chegaram ao local tão esperado, parecia que era a primeira vez, sorriam e cumprimentavam os outros pilotos de asas delta. Saltaram do carro para montar os equipamentos, Francisco assoviava uma canção melancólica. Do outro lado alguém acompanhou a canção soprando uma gaita. Sheila parou para ouvir mais de perto aquela melodia, olhou para Francisco, sorriu e balançou a cabeça aprovando a trilha musical. Nas asas delta de Sheila e Francisco tinha a figura da metade de um coração, símbolo do amor que os uniam na terra e no céu, promessa de uma união eterna. Diziam que se um dia um deles morresse voando, uniriam os dois corações num só adeus, morreriam juntos.

Estava pronta para mais um salto, caminhou lentamente até a rampa de madeira, parou, e o mar a sua frente se unia ao horizonte, o céu azul e o verde das árvores aos seus pés silenciaram aquela parada de admiração, Sheila sentia sempre a mesma emoção, era como se toda aquela paisagem abria os braços para ela, seus passos agora bateram firme na rampa, a madeira respondeu com um som de aplauso, de BOA VIAGEM…Ouviu o grito de alegria que Francisco dava, assim ele fazia sempre, era seu jeito de sentir a emoção de voar ao mesmo horizonte, voar como os pássaros que bailavam a sua volta, depois ele silenciava, parecia inebriado com a brisa que vinha acariciar seu corpo, mensageira da mulher amada que acima o olhava e sorria.

A tarde era de primavera, mas o sol brilhava como nas tardes de verão. A brisa era própria para manter aqueles pássaros apaixonados no ar. Mas as nuvens anunciaram um vento forte, aviso com atraso. As copas das árvores pareciam se abrir para amparar os viajantes do ar, os olhos de Sheila se encheram de medo, o grito não saiu da garganta, pensou em tantas vezes que ela e Francisco voaram juntos para o céu, quem sabe tentando unir ainda mais seus corações. Agarrou as cordas, olhava as areias da praia das Charitas sendo espalhada pelo vento, se misturando as ondas, olhou o mar aberto aos seus pés e seguiu o horizonte, quem sabe assim aquele pesadelo terminaria. Que vento era aquele que nunca a fez tão frágil, os pássaros em revoada pareciam pedir para ela voltar para a praia. Uma multidão se aglomerava, sinal de tragédia e dor. Sheila sabia que tinha que pousar, as cordas não obedecia, porque seus olhos estavam inundados de lágrimas e pavor.

Desceu triunfante, dominara o vento forte, passou pelas pessoas sem conseguir gritar, numa tentativa de chegar ainda mais perto de Francisco quea esperava num sono profundo à beira das ondas que vinham até seu corpo adormecido, quem sabe sonhando. Sheila se arrastou e deitou ao seu lado, deixou as ondas cobrirem seu corpo, se aconchegou perto e murmurou seu nome, mas a voz não saiu. Francisco estava ali, mas seus olhos fechados. Pegou sua mão fria, e olhando para o céu, viu que as nuvens formaram anjos, aguçou os ouvidos e ouviu uma canção  triste. Ouviu também a gaita tocando uma melodia e outra vez chamou Francisco. Adormeceu também. Acordou no leito do hospital, na única cadeira, estava sua mãe a olhando, não queria que ela falasse nada, e ela não falou, ficaram silenciosas, até que um abraço de amor as uniu, e ouviu sua voz em seu ouvido que estaria sempre ao seu lado. Sabia que ela tinha algo muito doloroso a dizer, mas pediu que não falasse naquele momento, que deixasse para depois ou para nunca.

Sua mãe acariciou seu rosto, aconchegou-a ainda mais em seu colo, e Sheila se lembrou de quantas vezes ela fez assim, e sentia seu corpo frágil mas seguro em seus braços, e muitas vezes dizia que nunca sairia de casa, que não saberia viver sem seu abraço.

Foi numa sexta feira quando saia da faculdade de medicina, cansada, mas alegre junto com outras amigas era final do ano, e foi para um local brindar o final do ano letivo. Seus olhos encontraram os de Francisco que pareciam inebriados, um sorriso selou aquela emoção tão desconhecida aos dois até aquele momento. Sheila sorriu, pois se assustara com as batidas de seu coração que acelerou ainda mais, quando viu Francisco se levantar da cadeira e chegar mais perto e dizer que estava assustado com tanta emoção. Sorriram como se conhecessem há muito tempo, quem sabe nos mais esquecidos dos sonhos noturnos, haviam de ter se encontrado. Quem sabe, no momento em que as  estrelas que se despediam da noite, a aurora, tantas vezes os separou no instante mágico em que a manhã silenciosa chegava com os primeiros raios de sol, quem sabe, se separavam  e se esqueciam de ter se encontrado entre a madrugada e o amanhecer.

E num domingo de verão, Francisco disse que faria um passeio inesquecível com ela. E chegou a hora da surpresa. Ele a levou para o Parque da Cidade, e Sheila perguntava o que ia acontecer, pois não conhecia aquele lugar.

Ele tinha ido antes e levou todo o equipamento de vôo. Sheila aceitou o convite de voar com Francisco, e diante o céu, o mar e a terra, voaram junto com as gaivotas, rompendo o silencio, Francisco declarou seu amor a Sheila que segurava seu corpo sentindo medo e amor. Foi assim que ela aprendeu a gostar de voar e aprendeu a voar com ele.

Nesse momento, um médico entrou no quarto, Sheila não pode evitar as lágrimas, e um choro silencioso à fez mais menina. Sabia que algo acontecera, mas não queria saber. A voz de seu colega parecia triste, tentou confortá-la, mas Sheila se encolheu na cama e pediu que acabasse com aquela dor.

Francisco ficara paraplégico. Os dias foram difíceis, entre o final de estudo, trabalho e cuidados com ele, Sheila se dedicava com carinho e atenção. Ele permanecia na cama em silencio, e quando se olhavam, um abraço longo unia aqueles corações, e as lágrimas se misturavam em seus rostos, os soluços, Sheila deixava para soltar quando corria para fora e via o céu se abrir sobre o jardim

O dia amanheceu e Sheila foi molhar as plantas, olhou para o lado e a asa delta estava na garagem, a do Francisco se perdera na praia, e a sua estava lá, só a parte de um coração vermelho. Sheila se aproximou e passou a mão levemente pelo símbolo do amor eterno, as recordações dos vôos, dos beijos jogados no alto, das músicas que ele cantava para ela. Nesse momento ouviu Francisco chamar seu nome. Saiu das lembranças e foi atender. Ele pediu que o levasse para um vôo livre. Sheila ficou parada sem entender, sem saber como faria um vôo duplo, se nunca fizera antes, mas ele insistiu.

Ela preparou o equipamento, ajudou Francisco a entrar no carro, e seguiram para o Parque da Cidade, aonde tudo começara. A viajem foi silenciosa, algumas vezes ouvia um suspiro e um sorriso abrir em seu rosto. De repente ele começou a cantar a melodia que sempre ela acompanhava, sorriram como antigamente. O sol parecia compartilhar daquela emoção. No caminho borboletas voavam de flor em folhas, pássaros saudavam o outono, renovação da vida.

Sheila parou o carro no local, as pessoas que estavam lá a reconheceram, e de longe ficaram se perguntando o que acontecera.

Sheila desceu, ajudou Francisco na cadeira de rodas e começou a preparar o equipamento. Agora estavam silenciosos. Um piloto veio ajudar a colocar Francisco no colete. Alguém tocou uma melodia na gaita, os pássaros revoavam a espera de um grande espetáculo entre o céu e a terra. Sheila parou para olhar o horizonte. A praia das Charitas compunha o cenário de beleza, as areias branquinhas, pareciam um lençol aberto a espera de murmúrios de amor. Barcos a vela deslizavam nas águas como pássaros do mar, um avião passou cortando o céu e algumas nuvens que contrastavam no azul daquela manhã, formou figuras de anjos. Era a magia da vida entre as lembranças e a saudade. Sentiu lágrimas escorrerem em seu rosto, ouviu Francisco sorrir como antes, e por um momento esqueceu a dor e permitiu que a alegria retornasse, e sorriu até dar uma gargalhada.

E deslizou na rampa lentamente por causa do peso que levava. Saltou para o vazio do espaço, guiada pela brisa quente daquele outono com jeito de verão.

As copas das árvores pareciam mais verdes, e o céu mais azul, e ouviu Francisco dar o grito de guerra, como das vezes em que ele saltava. E voaram para o silencio do espaço. Sentia seu corpo inerte, agora mais leve.

Ele apontou para o horizonte, as nuvens formaram um caminho entre o azul e o dourado do sol. Sheila desejou abraçar Francisco e seguir aquele caminho. De repente Francisco pegou a faca de emergência. Sheila esperou o fim. Não tentou mudar o rumo do destino, um dia jurou que uniriam os dois corações num só adeus. A praia das Charitas oferecia uma beleza inesquecível. As pessoas se banhavam naquelas ondas serena de fundo de baia.

Muitos verões aquelas areias receberam os pilotos de asas delta, e por muitos verões, o coração partido de uma asa delta ficaria na memória das pessoas. Sheila lembrou de sua mãe e sorriu como uma filha se despede na estação para uma longa viagem. Em suas lembranças os vôos alegres que a fizeram feliz, o canto de um sabiá a fez retornar a realidade e percebeu que o peso aumentara, e que estava ali, viva,descendo o último vôo.

Francisco cravou a faca em seu coração em pleno ar, voou para o infinito, silenciou para sempre a melodia que ela gostava tanto de ouvir. Foi assim a despedida de um grande amor, a paisagem da praia das Charitas testemunhou a felicidade daqueles amantes do vôo livre. Os corações partidos se uniram no infinito de momentos que ela jamais esqueceria. Dizem que a mancha do sangue formou um coração no colete dela. E que quando tiraram o corpo de Francisco, na areia ficou a marca de um pássaro.

Sheila voltou para sua cidade. Dedicando sua vida a ajudar pessoas carentes e a medicina. Mas quando quer sorrir, vai à praia e decola para o vôo infinito das recordações.

2 thoughts to “Um Voo Para o Infinito”

  1. Cara escritora. A moderna ortografia portuguesa aboliu o circunflexo (^) nas palavras com dupla vogal, no caso voo. Consulte o dicionário Caldas Aulete disponível na página principal deste site. No seu texto houve uma mistura de acertos e erros, provavelmente por falta de uma revisão criteriosa no texto ,
    Apesar de bom enredo, a repetição continuada dos nomes dos personagens prejudica a beleza do conteúdo(Sheila, Sheila, Sheila… Francisco, Francisco, Francisco…)
    Falta pouco para se considerar o conto de qualidade literária! Procure melhorar se tem intenção de ser boa escritora!

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