Um Dia Para Esquecer

 

 

 

 

(Povoeiras  – Tocha – Coimbra – PT)

A disputa pela melhor fenda era feita no maior recato, e nada em cima fazia prever que quatro garotos se entregavam de alma e coração a uma aula de anatomia sem habilitações para tal, todavia, o interesse demonstrado compensava sobremaneira a dificultosa observação. Tão absorvidos estavam que nem o barulho da carroça do senhor Aníbal os alertou da sua chegada.

– Ena pá! – Sussurrou António.

– Deixa-me ver! – Quase grita o filho da Pitafa, já farto de ser empurrado duma fenda para a outra, pelos mais velhos.

Irritado com o barulho, o Zeca deu-lhe um empurrão fazendo com que o puto escorregasse do monte de palha, acabando por bater num cabaço encostado na parede. O barulho daquele monte de lata ao cair coincidiu com a entrada em cena do dono da casa.

O berreiro das mulheres fez com que o portão se fechasse, ao mesmo tempo que entravam na “arena” dispostas a ensinar os fedelhos que para tudo na vida há um tempo.

O redopio que se seguiu naquele pátio, fazia lembrar a tortura dos antigos cristãos a fugir até serem devorados pelas feras no Coliseu. Aqui, as feras eram três mulheres enfurecidas, que queriam desancar os pobres coitados que se atreveram a espiolhar o que só aos seus homens era permitido. À saída daquele “circo” o senhor Aníbal com uma nesga do portão aberto, controlava as fugas de maneira a ninguém ficar impune, depois de tal sacrilégio.

Os outros, mais ou menos lestos, também se viram encurralados, vendo o pobre do Zeca levar um pontapé com tal gana, que a força aplicada o fez levantar e projectar pra frente, caindo de fuças no meio do mato que atapetava o pátio. Mais sorte teve o filho da Pitafa, que talvez por ser mais novo, apenas levou um bofetão que o fez redopiar. Já o Júlio do Álvaro sapateiro, depois de várias fintas, escapou a uma biqueirada que atingiu o portão que ficou a baloiçar.

Aquela nesga aberta era salvação da garotada. Foi por lá que Júlio fugiu, quando escapou por um triz à tamancada que aquela malvada desferiu no portão. Foi para lá que António se dirigiu, depois de muitas correrias e trambolhões à mistura, escapando ao esbracejar dos braços femininos, dispostos a acertarem-lhe o passo.

Estava mesmo quase a passar quando sentiu uma dor aguda nas costas e parte do rabo. Só depois lhe foi franqueada a saída. A vergasta marcou-lhe as costas, deixando um ardor parecido a queimadura. Guinchando tipo alma penada, abandonou o local o mais rápido que podia. Rogando pragas ao pai do Zeca que se fazia muito amigo da rapaziada.

Conforme lhes foi possível, foram fugindo o mais que podiam para os lados da barroca do barro. O rego do tijolo foi o local onde pararam para lamberem as feridas e confortarem-se como podiam.

Pairava ainda a hipótese de à noite serem chamados ao tribunal caseiro, onde o juiz e algoz era a mãe de cada um. À educação materna, seguia-se o cúmplice silêncio do pai, alheando-se das tareias no sangue do seu sangue, mas concordando com esta a represália contra o conhecimento, ainda que no fundo sentisse um certo orgulho por lhe recordar o seu tempo de rapaz.

Tanto por tão pouco, era o desabafo sentido por estes malteses que em má hora se propuseram a brincar debaixo da varanda do senhor Aníbal, enquanto pessoal feminino circulava por cima permitindo-os espreitar por entre as falhas das tábuas as intimidades das mulheres.

– Ó Tónio, ainda te dói? – Pergunta o Júlio ao ver o vergão que o pobre tinha nas costas.

Um aceno com a cabeça como resposta indicava o quanto estava chateado.

– Ó Tónio e que tal uns pêssegos de São João?- Pergunta o Zeca como forma de o animar.

– O quê? O cagaço de hoje não te chegou? Deixa-me que por hoje já tenho a minha dose.

– O pessegueiro é aqui bem perto da azenha e é daquela trombalazana que te deu a vergastada.

– Ai é? Então de que estamos à espera?

O pessegueiro estava carregadinho, e com o filho da Pitafa a vigiar o caminho, comeram e carregaram os bolsos até não poder mais.

Felizes, os rapazes regressaram a casa de bandulho cheio, mas uns barulhos na barriga e a consequente descarga por mais de que uma vez, levou-os a suspeitar que aquela malvada tinha posto “produto” na fruta. Uns quantos impropérios e pragas, convenceu-os que aquele dia tinha sido um dia negro, não tão negro como o que viram pela fenda das tábuas, mas ainda assim para não ser repetido tão depressa.

2 thoughts to “Um Dia Para Esquecer”

  1. Caro Lorde.
    O seu conto me fez viajar no tempo e recordar as tantas vezes que tive de encarar o “ser chamado ao tribunal caseiro”! Foram tantas as peraltices que os ouvidos perderam a conta, adaptando: “- Ó Flavio, ainda te dói? –Pergunta o Júlio ao ver o vergão que o pobre (de mim) tinha nas costas”.
    São muitos os anos passados, mas é uma tremenda saudade!

    1. As saudades são de tal maneira que se antes sofria com os “mimos” musculados com que nos agraciavam, que não me importaria de os repetir. Ainda assim acho que fiquei a ganhar, se tivesse apanhado por todas aquelas que fiz; pobres pais, ficariam cansados de tanto bater. Eheheheheh. Agradecido pelo seu comentário Flavio.

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