Um Corpo Caído

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(Presidente Prudente – SP)

pistola 380– Um médico, por favor, rápido!

Aos gritos, populares pediam para socorrer um homem tombado no meio da rua, já imóvel e golfadas de sangue manchando a camisa.

Vítima de mal súbito, nada mais se podia fazer…

Na mesma forma que Chico Buarque em sua “Construção” narrou “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, aquele corpo estendido no chão jazia na avenida de tráfego intenso e curiosos se aglomeravam em torno dele, alguns vendo naquilo uma tragédia, outros definiam a ocorrência somente como grande empecilho, causando aborrecimento para o seu dia.

Vestido de maneira impecável, bons sapatos, gravata de grife, cabelos e barba aparados, bem cortados, unhas cuidadas, somente uma coisa passou a ser motivo de boatos entre os curiosos, desde que, com o desalinho de suas vestes, o morto deixou à mostra um coldre de couro contendo uma pistola 380, automática, cromada, reluzente e carregada que o cadáver trazia preso ao cinto.

A pessoa humana, um desconhecido no local, havia perdido sua identidade tornando-se um anônimo, causando deduções. Por isso, imediatamente opiniões se formaram, a sua volta, sobre a atividade do falecido portando uma arma de fogo.

– Gangster, bandido fino, de alta categoria. Anote o semblante sério – dizia alguém;

– Policial civil ou militar, sem dúvida. Olhem a altivez explicita do corpo, mesmo nessa situação inferior – anotava o idoso experiente;

-Delegado da Polícia e digo mais, da Polícia Federal pois observem suas vestimentas de grife, não são para qualquer policial estadual – explicava o homem vestido com impecável jaleco branco;

– Segurança pessoal de alguém influente. É só observar a arrogância do cadáver – assegurava uma jovem com óculos de lentes grossas e aspecto inteligente;

– Agente secreto – disse o ambulante;

– Oficial militar – atestou com convicção o jovem recém-saído do serviço militar obrigatório;

– Agente fiscal da Receita Federal, com certeza. É só verificar a soberba do moço – repetia um observador;

-Promotor de Justiça – sentenciou o estudante universitário;

– Agente da ABIN – alegou o rapaz vestido com boas roupas e calçado de tênis caros;

– Um selvagem, pois seres educados e civilizados, mesmo mortos, nunca atrapalhariam o trânsito – protestou a madame ricamente vestida, irritada por perder a hora marcada no cabelereiro.

Um som audível, abafado, produzido em local distante completava a cena, com o cantar do Chico: “E acabou no chão feito um pacote flácido… E acabou no chão feito um pacote tímido!

Sirenes anunciaram ambulâncias e viaturas da polícia aproximarem-se do local ostensivamente, com estardalhaços, barulhosas, sons próprios da atividade que exercem. Mais policiais correram para o local, pois um indivíduo armado estava morto na via pública. Repórteres ansiosos para divulgar o fato dispararam para o local em desabaladas carreiras, trazendo seus equipamentos fotográficos, televisivos, homens com câmeras de vídeos, luzes e toda parafernália própria dos divulgadores de notícias, falada, escrita ou televisiva.

Chegado ao local, evidenciando muita sabedoria e experiência o delegado de polícia de plantão examinou o cadáver, apreendeu a arma e determinou a remoção do defunto para o Instituto Médico Legal. O camburão da Polícia Técnica recolheu o corpo com destino à perícia necessária.

No dia seguinte, o Jornal da Cidade informava, sem muito destaque: Juiz de Direito em incumbência de trabalho nesta cidade morreu de ataque cardíaco em plena via pública! Dizia a notícia que o meritíssimo saíra de sua comarca no dia anterior com destino ao Tribunal de Justiça nesta Capital e segundo informes da família em prantos, ele “amou daquela vez como se fosse o último, beijou sua mulher como se fosse a única e cada filho seu como se fosse o pródigo”.

A velhinha beata, ao terminar a leitura da notícia, ajoelhou perante a imagem da sua santa de proteção e cantou: “e tropeçou no céu como se ouvisse música…”

cometario

One thought to “Um Corpo Caído”

  1. Mais um trabalho impecável de um dos meus autores favoritos. Não o considero este o seu melhor conto, mas para quem tem a coragem de comentar como o faz, só tenho a agradecer este e outros contos que venha a postar. Não é fácil, pelo menos para mim, comentar certos trabalhos, embora uma língua comum, há tanta coisa que nos separa, que receio muitas vezes ser interpretado de forma arrogante. Não, de maneira alguma é essa a minha maneira de ser. Gosto de comentar e ser comentado de forma construtiva, sem aquele rasgar de seda que poderá alimentar o ego, mas de maneira alguma contribuirá para colmatar vícios de que não nos apercebemos. Com respeito e honestidade é isso que farei até quando mo permitirem, o mesmo espero de todos de se derem ao trabalho de lerem o que exponho. Não se acanhem em me criticar se o acharem que devem fazer, Todas as criticas ainda que doam mas construtivas serão bem vindas. Peço desculpa por utilizar o espaço do Flavio Dias Semmim para este tipo de desabafo, esperando que não tenha tropeçado ATRAPALHANDO O TRÁFEGO.

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