Um Conto De Natal

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

As prendas tinham sido cuidadosamente embaladas, não fosse o “diabo tece-las”, e para que a neve que sempre caía naquela noite não pudesse deteriora-las. Lá nisso, o Pai Natal era muito cauteloso, desde o dia, ou melhor, desde a noite em que o S. Pedro que por vezes também dá mostras de sofrer da “caixa dos pirolitos”, por uma razão que só ele sabe, enviou cá para baixo uma tão grande quantidade de neve e chuva, que até as renas tiveram que ser levadas ao veterinário.

As embalagens humedeceram, rasgaram-se e metade das prendas perderam-se ao longo dos telhados, ficando as crianças desoladas e à espera duma outra oportunidade. Desta vez, tal não ia acontecer. Olhou para o trenó e sorriu feliz. Até as renas, conhecedoras dos seus deveres, davam sinais de impaciência. Em breve ia fechar a porta da cabana, não fosse algum malandro aproveitar a sua ausência para uma visita indesejada, e partia para mais uma missão.

Era ainda menino quando herdou a profissão do pai que foi um Pai Natal cheio de boa vontade, que morreu num acidente de trenó, pouco tempo depois de a ter recebido do avô, um outro Pai Natal deveras credenciado.

Todos passavam o tempo armazenando prendas, sabendo que a hora de as entregar chegava sempre no fim do ano.

Muniu-se do chicote, e subiu para o trenó. Ouviu-se um: AVANTE! E as renas começaram a deslizar pelo céu da imaginação de cada um. A noite estava fria, mas aquelas barbas que não podiam ser cortadas do seu rosto ainda jovem, protegiam-no daquele vento agreste.

Consultou a lista previamente preparada e abeirou-se das primeiras chaminés. Tinha que saber distinguir as prendas destinadas às crianças de cada sexo, mas as chaminés estavam numeradas, facilitando-lhe a tarefa. Não, não ia enganar-se.

Escolheu a primeira chaminé. Nesta casa havia dois meninos. Os sapatinhos eram demasiado pequenos para lá colocar as prendas, e por isso, colocou-as cuidadosamente num pequeno círculo à volta deles. Subiu, e mais uma vez consultou a lista. Na próxima chaminé vivia uma menina. Escolheu a prenda, e tudo se repetiu.

Como sempre, as chaminés foram limpas com ramos de alecrim e rosmaninho, para não enferrujar a fatiota ao descer por elas. Na lareira, além do sapatinho, descobriu um copo, uma garrafa de aguardente, e um bilhetinho que lhe era dirigido.

– Querido Pai Natal, como está um frio do caraças, imagino que deves estar gelado e exausto de descer e subir tanta chaminé. Portanto, quero que aceites esta pequena dádiva. Tens aqui uma garrafa de aguardente de 1920. Está velhota, mas ainda se bebe. Serve-te á vontade e até pró ano.

O Pai Natal sorriu e pegou no copo e na garrafa. Serviu-se de um, depois outro e ainda outro. Como lhe soube bem apeteceu-lhe beber ainda mais, mas lembrou-se das chaminés que tinha ainda à sua espera e ficou-se por ali. No silêncio da noite, outras iam sendo visitadas. O trenó depressa ia ficar vazio. Teria que voltar à gruta ainda nessa noite, para um outro carregamento. E foi aí que tudo aconteceu. Enganou-se na chaminé. Desceu á lareira, mas ali não habitava qualquer criança.

– Que chatice! Uma descida mais uma subida e tudo para nada – assim pensou.

Quando se preparava para subir ouviu um ligeiro ruído. Arregalou os olhos, sem poder acreditar no que estava vendo. Seriam os efeitos da aguardente que bebera há pouco? Não, a cena era bem real, não havia qualquer engano. Num pequeno leito ao lado da lareira, dormia uma loiraça, daquelas capazes de deixar qualquer Pai Natal sem respiração.

– Meu Deus, como é linda!

– E já sem pressas para sair dali, ficou olhando a moça, esquecendo a missão que tinha ainda pela frente. Sentiu-se hipnotizado perante a silhueta que se agitava sob os lençóis. Foi então que viu que ela abria os olhos. Uns olhos lindos, cor do céu, como nunca tinha visto. Pensou fugir, mas era demasiado tarde e para seu espanto, viu que a sua presença em nada a atemorizou. Era como se estivesse à sua espera. A moça sentou-se na cama e sorriu. Era um sorriso doce, como nunca tinha visto, nem na terra nem no céu.

– Boa noite Pai Natal! Bem-vindo à minha casa! Estou feliz que tenha descido até aqui.

Também a sua voz era doce, fazendo lembrar um cântico divino.

– Sabe minha querida menina, disse o Pai Natal tremendo como um menino apanhado em falta, enganei-me na chaminé. Peço que me perdoe!

Esteja à vontade, não precisa de pedir perdão. Sente-se um pouquinho, pois deve estar cansado,- disse apontando para um banco que estava ali à mão – e conversemos um pouco. Sabe, sempre desejei conversar com um Pai Natal.

O homem das barbas cometeu então um segundo erro. Sem se fazer rogado, sentou-se ao lado da moça, e a conversa prolongou-se noite adentro. Começou a suar e a culpa não era dos copitos de aguardente que bebera há pouco. Lá fora, as renas estranhando a demora davam já sinais de alguma impaciência, quando as badaladas que soaram na torre duma igreja próxima o despertaram para a realidade. Tinha que partir.

– Sabe minha querida menina, gostei imenso em conversar consigo, mas o meu dever obriga-me a partir!

– Mas não vai querer que fique sozinha?! – Respondeu a moça. – Como a noite está fria estou a pensar convida-lo para ficar aqui comigo. A cama não é muito larga mas dá bem para os dois!

Para sua surpresa, viu o Pai Natal levantar-se dum salto e tentar arrancar as barbas em gestos de desespero.

– Mas eu não disse nada de mal! Aceite o meu convite e fique comigo até que a noite passe!

– Sabe minha querida menina, o seu convite faz de mim o mais infeliz dos Pais Natal. Se aceito o seu convite deixo de ter entrada no céu. Se não aceito, já não terei espaço para subir pela chaminé!!!

 

 

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