Três Degraus

 

 

 

 

 

(Belo Horizonte – MG)

Três degraus. O suficiente para ir longe e fingir que eu e ele nunca ficarmos perto.

Desta cidade, dos seus rios ocultos e dos seus cantos dispostos a nos acolher e nos cobrir com sombras, dando aos nossos olhos a ilusão de ser invisível para os olhos dos outros, eu reconhecia as formas notas. Aquelas que, quando ele pegou a minha mão, se quebraram em muitas maneiras e ofereceram ao meu mundo a ideia que poderia ser mais bonito, se ele me quisesse mais do que eu estava disposta a admitir de querê-lo.

Três degraus. Três passos.

A luz, de repente forte, tirava a magia e comecei a sentir-me bem triste, recusando a me perguntar se a tristeza atingia ele também, com um tamanho igual ou superior.

Menor.

Como o tom da música que eu não queria ouvir, um acordo que discordava com o pensamento absurdo de que eu poderia considera-lo um desejo e nada mais.

Porque os meus desejos nunca são separados do amor.

Três passos e os gestos retornando triviais.

– Vou pagar por ambos- eu disse, mexendo a cabeça apenas porque ele roçasse o seu “obrigado” no meu rosto.

O ônibus estava quase vazio.

Entreguei o dinheiro para a trocadora, que provavelmente sorriu para mim, provavelmente não.

Estava-me concentrando na disfarça, para não mostrar como me machucaria considerar o momento um prazo, um fracasso, um fim.

Já não era mais dia, ainda não era noite. Era hora de voltar para o tempo.

Empurrei a catraca. Antes que ele fizesse a mesma coisa, enquanto eu estava num canto e ele ainda no outro, a percepção da facilidade com que pudéssemos nos separar prenunciava a dificuldade que eu teria em acreditar que, mesmo que apenas por um istante , apenas numa dimensao imaginária e distorcida, nós dois nos encontrarmos de verdade.

Fiquei imóvel, esperando que a mulher me entregasse o troco. Mas ela entregou o meu dinheiro para ele. Pensou que éramos um casal.

A naturalidade daquele mal-entendido abalava a minha intenção de não tentar, nem mesmo por engano, de sentir um sentimento de pertença mútuo e mudo. Preferia abandonar-me ao ruído do tráfego, deixando que a estrada fora da janela de vidro chamasse a minha atenção, me afastando do lugar que eu acabei de deixar e me empurrando para o lugar para onde eu estava voltando.

Que eu não quisesse voltar, o que importava?

Contei três filas e escolhi os nossos assentos.

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