Traquinices

assin-lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

traquinicesNas nossas memórias temos momentos em que a saudade nos deixa uma lágrima ao canto do olho. Outras, um sorriso meio maroto quando retrocedemos no tempo e vemos como são uns autênticos meninos do coro as crianças de agora quando comparadas connosco com a mesma idade.

Éramos criados um pouco ao Deus dará, sem luxos nem entraves, quanto ao que fazer nos tempos livres. Tal como aves, assim que saem do ninho, também nós, errávamos pelas ruas e campos numa completa liberdade, correndo riscos de fazer brancas a qualquer pai. A única condição era estar em casa ao escurecer e horas de refeições e claro, executar as tarefas que nos eram incumbidas.

A escola era um obstáculo ao que se pode chamar a liberdade total, mas mesmo aí, na saída ou no recreio como reclusos sorvíamos aqueles momentos como únicos. Corríamos, saltávamos, jogávamos à bola, uns descalços outros calçados, numa algazarra onde não faltavam as caneladas e as discussões se era ou não era golo.

Vivia-se numa época de grande carência (Década de 50) e brinquedos se os havia era só em meninos ricos. Que alegria quando um desses meninos trouxe uma bola de borracha, para substituir a nossa bola de trapo. Era precisamente o filho do professor, que ainda deu dois pontapés na bola jogando com os plebeus, para logo ser repreendido pelo pai que mandou recolher a bola. Coincidência ou não, o professor distribuiu mais reguadas do que o costume sempre que errávamos. Todavia, quem mais apanhou foi o filho, colmatando assim uma raiva surda que não nos passou despercebida.

Naquele dia, o professor não havia forma de chegar às aulas o que para a pequenada era uma festa bem difícil de controlar pela contínua.

Chegou muito tarde. Vinha meio transfigurado, e à pergunta da contínua disse que lhe tinha acontecido um desastre.

– O que lhe aconteceu senhor professor?

– Ora dona Etelvina, o pior, o pior! – Diz com voz meio velada o professor.

Era do conhecimento de toda aldeia a paixão que o nosso professor tinha pela passarada. Na sua quinta, tinha mandado fazer em rede, uma enorme cerca onde tinha aves de todas as espécies. Dado às suas dimensões e compartimentos em volta, muitas dessas coloridas aves reproduziam-se, o que era motivo de grande satisfação. Acompanhava todas as exposições pelo país onde aproveitava para comprar e trocar por outras espécies. Notava-se nele um grande orgulho sempre que alguns dos seus amigos o visitava e fazia questão de ver os pássaros.

– Mas diga o que foi que lhe aconteceu?

– O que me aconteceu foi hoje de manhã encontrar a porta do meu aviário aberta e a grande maioria das minhas aves desapareceu. – Disse muito pesaroso o nosso, professor.

– Como é que lhe aconteceu uma coisa dessas?

– E eu sei? Já para evitar descuidos não permito que ninguém os trate. Sou eu, antes e depois das aulas que limpo e cuido.

Na fila de carteiras ao lado da minha, ouve-se uma voz que me deixou estarrecido.

– Ó senhor professor, não seria malandragem?

– Não, não meu rapaz. Deve ter sido descuido meu, porque se fosse malandragem os cães tinham dado sinal.

Se alguém me pudesse ler os meus pensamentos, veria que eu estava num estado de espirito capaz de esganar o capitão. «Malandro!».

Desde o dia que recebemos aquela tareia por causa da bola do filho, que o “capitão” me aliciava para nos vingarmos do professor. Eu também sentia ganas de lhe fazer alguma coisa. No entanto foi o “capitão” que se lembrou de irmos de noite e abrir a porta do aviário para que alguns pássaros fugissem.

-Tens é que ir comigo para a Mirita e o Nero não ladrarem.

Era um facto que ele conhecia, e só ele, que eu fazia gato-sapato daqueles cães, não me perguntem porquê, no entanto quando me apercebiam ao longe corriam que nem foguete para lhes fazer uma festa. E foi assim que enquanto brincava com os cães, permitiram que o “capitão” abrisse a porta.

Agora aquela de ele ter a coragem de perguntar se “não seria malandragem”, deixou-me completamente arrepiado. O professor naquela mesma tarde perguntou se alguns dos meninos queriam ajudar a procurar os pássaros. O “capitão” pôs logo o braço no ar dizendo:

– Eu e aqui o Toino vamos!

«Ah desgraçado que mas pagas», pensei com os meus botões. «E se os cães vêm para o pé de mim à espera de festas e o professor desconfia?». Ia para dar uma desculpa e dizer que não podia ir, quando o “capitão” fazendo jus à sua alcunha rematou:

-Tem é que fechar os cães para nem ele nem eu sermos atacados.

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