Tourada

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Era rapazote quando viu pela primeira vez uma tourada televisionada no Campo Pequeno. Os garbosos cavaleiros vestidos com deslumbrantes casacas simbolizavam a nobreza de outros tempos. Figuras primeiras no cartaz, brilhavam com os seus magníficos cavalos, quer enfrentando o touro, quer na apresentação troteando ao compasso da música.

Durante a lida do touro como a “sorte” corria a contento, as últimas bandarilhas eram acompanhadas pelos acordes da filarmónica. Seguia-se o toque do cornetim anunciando a pega. Pra arena saltou um grupo de forcados para pegarem o bicho à unha. Em fila indiana os jovens seguiam as deslocações do homem que encabeçava o grupo. De barrete verde, enfiado até às orelhas, mãos na cintura, o forcado desafiava o touro a investir.

A poucos metros, o animal com quase quinhentos quilos, arrancou de cabeça baixa para pouco depois se sentir abraçado pelo forcado. Um garrote violento atirou o forcado ao ar, o primeiro-ajuda, sofreu o mesmo tratamento. Nova tentativa e novamente o forcado da cara com a mesma valentia, encurtando distância. Depois de um choque violentíssimo, o forcado encaixou bem originando a pega mais bonita da noite.

Aníbal sonhou nessa noite, não com os ricos cavaleiros, mas com o grupo de rapazes que tinham coragem para enfrentar um bicho daqueles. Via-se a ser aplaudido e dar a volta de honra depois de uma rija pega. Desde esse dia passou a ser um aficionado.

Corria às largadas de touros, vibrando com a adrenalina que lhe provocavam as correrias, as fintas, o bafo quente do animal bem perto e por que não dizer, os sustos. Embora já tarimbeiro, um dia descuidou-se ao fazer um “ziguezague” que só ficou pelo “zigue”, escorregou, levando uma cornada que lhe valeram duas costelas partidas.

Nada que o seu sangue toureiro não esquecesse depressa, e embora ainda enfaixado correu à largada de toiros na Moita do Ribatejo. Ainda fez menção de dar uma corrida à frente do bicho, mas as dores aquietaram-no, ficando a ver o pessoal a divertir-se. Viu também, aqui e além quedas originadas pela correria desenfreada quando o toiro mudava de direcção, como foi o caso de um “maluco” ainda de muletas, a gritar aflito por ajuda. Levou tal marrada que saltou para lá do taipal de protecção. Atordoado, agradeceu a ajuda, mas que não era preciso empurrarem com tanta força.

Tinha um sonho, para isso ia poupando. Era ir a uma tourada à corda, à Ilha Terceira. Esse dia chegou. Já no avião, lia com avidez o folheto que anunciava 4 touros adultos da raça brava da ilha Terceira. Ali o animal é “controlado” por uma corda atada ao pescoço que seis homens vão tentando que não se desvie do percurso traçado. Tarefa difícil por vezes, dando a sensação que apenas corriam atrás do animal.

Deu o dinheiro por bem empregue, ao ver o entusiasmo daquele povo pela tourada. Nunca vira tanta marrada em tão pouco tempo. O facto de os touros não virem em pontas, encorajava, os “toureiros” a enfrentar o animal com o material que tinham à mão. Desde guardas chuvas a uma camisa, tudo servia para fintar o touro. Por vezes o animal chegava a saltar as improvisadas protecções semeando o pânico entre a assistência. Interrogando-se Aníbal para que servia a corda.

Perante tal entusiasmo Aníbal saltou pra “pista” que é como quem diz para o meio da rua, onde se fugia, corria, fazendo investidas e recuos, conseguindo driblar o touro, para logo tropeçar na corda que aqueles seis seguravam. Mas o espectáculo mais hilariante era quando os “pastores” tinham que largar a corda e fugir a bom fugir. Era o salve-se quem puder, quando a fera descontrolada saía fora do percurso e entrava por campos amanhados, quintais e capoeiras. Chegando a saltar o pequeno muro que separa a estrada da água da praia.

O nosso Aníbal sentia-se como peixe na água. O seu traquejo na arte tauromática, fazia-o notado, pensando muitos que seria algum capinha contratado para abrilhantar a festa. Todavia, era puro gozo, difícil de entender para muitos que achavam que era coisa de gente maluca.

É aberta a porta ao último touro do dia, rua acima acorrem os “toureiros”. O animal era enorme. O cansaço ou tamanho amedrontou alguns dos “artistas”. Um esticão violentíssimo fez cair três dos “pastores”, corajosamente, não largaram a corda, mas a fricção no alcatrão depressa os encorajou a solta-la. Os outros três incapazes de o segurarem vinham a reboque, qualquer que fosse a direcção do animal.

Aníbal viu aquele tornado, varrendo tudo pela frente. Um calafrio percorreu-lhe a espinha de alto a baixo, e sem pensar duas vezes atirou-se para umas sebes que deram acesso a um campo sem árvores. Correu quanto pôde sempre perseguido pelo touro, subitamente sentiu que se atolava. Estava perdido, enterrado até à cintura via aquela criatura que o ia matar. Cinco, três, dois e fechou o olhos esperando a marrada, mas nada. Abriu os olhos, o touro a metro e meio dele estava também atolado.

– Que ironia, nem eu fujo nem tu me marras!

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