Tonito

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

 

O ar farrusco da manhã fez Rufino enrugar a testa. Saiu, perscrutou o horizonte, espraiando o olhar pelo cume da serra. A indecisão transformou-lhe o rosto numa careta, e com uma sonora fungadela retrocedeu nos passos calcorreados, entrando na adega onde se muniu da velha samarra de gola com pêlo de raposa. Agora sim, estava pronto para enfrentar a má disposição do mês de Fevereiro.

A geada estalava a cada passo. As mãos enregeladas eram enfiadas à vez nos bolsos, enquanto a de fora suportava o frio segurando o saco das ferramentas, que transportava ao ombro, a outra aquecia. Mais à frente, um monte de estrume fumegava, quase tanto como o vapor da respiração que lhe saía das entranhas. Estava quase lá, e aí, aqueceria.

O enorme tronco de pinheiro fê-lo cavar em volta, deixando ver laivos avermelhados de cerne. Alongou mais a área de trabalho, expondo enormes raízes com que a secular árvore se agarrara à terra. O primeiro golpe fez vibrar o machado, antevendo a árdua tarefa em o desmanchar. Novo golpe e o som de madeira abrir convidou o guilho a entrar na contenda.

O suor rompia-lhe na fronte, a samarra há muito que deixara de o aquecer, fora pendurada num galho por ser estorvo nesta luta. O monte de tocos aumentava cada vez que desferia um golpe preciso. A satisfação inundava-lhe o rosto pela quantidade de lenha extraída. Arfava quando parou para uma pequena pausa. Sim, com tal quantidade de lenha tinha o calor da lareira garantido.

O barulho de um chocalho, e o eixe, eixe do seu mais velho, fê-lo meter os dedos à boca, soltando um assobio para melhor orientar o garoto. Era o seu menino, o seu orgulho, à frente da “mimosa”, a conduzir a carroça para carregar a lenha.

Um bocado de broa e um pouco de chouriço alicerçaram o estomago para a garrafita de vinho que a Alzira mandara. Tonito, tasquinhava uma rodela do enchido, dando mostras de não ter apetite. Perante o olhar inquisidor do pai respondeu que já comera e agora só fazia companhia, por saber que o pai quando comia gostava que os demais comessem. A garrafa ficou meia da primeira vez que foi à boca de Rufino. De seguida, foi oferecida ao filho que respondeu com um esgar de repúdio. Rufino sorriu. Era este o seu menino, muito vivo, mas nada dado a bebidas alcoólicas, talvez por isso, considerado o melhor da classe.

Era tempo de carregar a lenha. Sem que o pai pedisse, o pequeno fez aproximar a carroça de traseira, facilitando o carregamento. Meia hora depois, a lenha acotulada ultrapassava as taipas. Dava à vontade para um mês, segundos os cálculos de Rufino.

Rodavam agora em estrada boa, o pequeno à frente, segurando a soga da vaca, e Rufino um pouco atrás. O desvio que o seu Tonito fez fê-lo sorrir. Todavia, olhou para o pai com ar de interrogação. O sim veio em forma de piscadela de olho e um sorriso mais alargado.

A ti Gertrudes, desceu os quatro degraus com dificuldade. Os seus quase noventa anos faziam mossa nos joelhos, mas não se coagia de descer para dar dois repenicados beijos nas bochechas do Tonito, ofertar umas maçãs que trazia no regaço e, agradecer àqueles anjos a lenha que com ela repartiam. Rufino ralhou docemente com a velhinha por ter gasto tão pouca lenha, dizendo-lhe não queria que passasse frio. Um ralho que humedeceu os olhos da ti Gertrudes.

Na homilia desse domingo, o padre Afonso falou no pecado de trabalhar ao domingo, o dia do Senhor. Falou nas avezinhas que não precisavam de trabalhar, pois o Senhor cuidava do seu sustento. Era a ganância, de que o inferno estava cheio, o querer mais e mais.

Rufino chegou a casa com o semblante pesado, era à sua maneira, um fiel cumpridor, mau grado ter que aproveitar algumas horas das manhãs dos domingos para que nada faltasse aos seus.

A sua Alzira notou-o demasiado reflectivo durante o almoço. Questionado, Rufino contou como os dizeres do padre o incomodara. Como pôde, a esposa foi-lhe dizendo à laia de gracejo que a culpa devia de ser do branquito que o padre bebia na santa missa. Todavia, foi o Tonito que sossegou o pai, quando disse:

– Pois é, o senhor vigário fala bem. Como tem a tulha cheia, não faz ideia do que é trabalhar a semana inteira numa fábrica e aproveitar o sábado e um pouco de domingo para cuidar das suas coisas…Que seria da ti Gertrudes se não fosse o pai? Morreria enregelada com certeza. Pode até ser pecado trabalhar umas horas ao domingo, mas pecado maior é não olhar por quem precisa… Que fácil é recusar mais um pouco quando se tem a barriga cheia. Com que facilidade se critica quem se esforça para ajudar, não reparando na privação do seu descanso, mas Deus que isso presencia, agradece-lhe essa sua oferta, no Seu dia.

Boquiaberto, Rufino sorriu. Este era o seu menino, o seu Tonito.

 

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