Tia Nina

 

 

 

 

(Maringá-PR)

Tia Nina morreu no ano em que você nasceu. Talvez sua mãe tenha lhe dito isso com alívio, porque Nina brigava muito com sua mãe desde que ela era criança e sua mãe ficava nervosa imaginando que Nina iria implicar com você depois que você nascesse; que diria que você era um bebê feio. Quando Nina morreu – e ela ia fazer sessenta anos naquele ano –, sua mãe pôde parir sem dor. Ela dizia “Vou parir sem dor, mamãe, porque Isabela vai nascer e tia Nina está morta”. Sua mãe sempre dizia que Nina deve ter morrido de desgosto ou por nunca ter amado alguém durante a vida toda; que teria morrido antes dos sessenta anos porque era amarga. Hoje estou com meus noventa e seis anos, sem sair mais da cama, minha hora chegando, e vou me encontrar com Nina onde ela estiver, disso eu sei. Por isso, querida neta, devo contar sobre minha irmã, porque o que fica das pessoas que partem é como nos lembramos dela. Tenho pensado muito em Nina, em como crescemos juntas. Acho que, apesar de tudo, sinto saudades dela.

E do meu pai também. Papai se foi um ano antes da Nina, mas não morreu de repente. Ele já estava debilitado havia alguns anos, e sua mãe gostava muito do avô. Sua mãe e Nina brigaram naquele dia, porque Nina disse para sua mãe que só iria ao velório para ter certeza de que Jerônimo tinha morrido, e isso a faria mais viva. Sua mãe brigou comigo também, porque eu não defendia meu pai na frente de Nina, por que eu a deixava falar essas coisas. Sua mãe dizia para sua tia Nina: “Você é infeliz porque nunca casou. É infeliz porque já é velha e não tem filhos. Por isso tem inveja de nós”.

Sua tia Nina tinha um gênio forte. A vida não havia sido fácil para ela. Quando meu pai começou a ficar inválido Nina dizia que era o preço que ele pagava por ter sido ruim. Papai dizia, já com a voz bem rouca: “Não, Nina, eu desejei você. Eu quis você. Nunca quis que você morresse”. Eu não dizia nada. Eu tinha pena de Nina.

Quando sua mãe nasceu, Nina não veio me visitar. Só foi conhece-la quando ela tinha dois anos, e ela disse: “O que vai fazer com essa pequena aí? Cuidado com o papai, que se você descuidar ele leva esse bebê embora”. Mas eu não dizia nada. Acho que começamos a ficar mais distantes quando eu me casei. Acho que Nina começou a perceber que passaria o resto da vida sem casar, sem ser mãe. “Tenho medo de ser mãe; medo de deixar um filho órfão”, ela dizia. “O amor não é para todos. Deste mal estou livre”, e dava de ombros.

Lembro-me de Nina namorando na adolescência. Ela não era um anjo de beleza, mas tinha o corpo formoso, pele morena, cabelos compridos e negros como uma índia. Papai não deixava que namorássemos, mas não estávamos mais no século XIX, e isso não impedia Nina de namorar escondido. Quando papai descobria, batia nela. Ela era muito rebelde. Sempre respondeu ao papai. Uma vez papai gritou: “Eu devia ter deixado você morrer”, mas ele logo se arrependeu ao ver os olhos negros de Nina se afundarem naquele rosto suado. Foi a primeira vez que vi o meu pai chorando. E foi a última vez que vi Nina sorrindo.

Lembro-me de quando éramos mocinhas. Havia uma cerejeira na praça da igreja. Nina e eu fazíamos piqueniques debaixo da árvore, em agosto, enquanto as pétalas caíam e fingíamos que era Natal e que estava nevando. Acho que nunca vi Nina tão feliz como nas infâncias de agosto. Nessas horas eu até esquecia que ela havia rasgado minha boneca de pano preferida anos antes; achava que debaixo daquela neve da infância ela se esquecia de como havia chegado em nossas vidas.

Nina chegou em casa quando a guerra acabou. Papai havia ficado seis meses fora. Já era a quarta expedição. Está vendo aquele quadro ali? É seu bisavô Jerônimo com o uniforme de tenente. Foi assim que ele voltou de Canudos. Eu estava tão feliz que ele havia voltado para nós! E como se tivesse trazido uma prenda, trouxe uma menina. Nina era dois anos mais velha do que eu, mas era só um pouco mais alta. Lembro que, mesmo antes de mamãe abraçar papai, perguntou logo quem era aquela e papai apenas respondeu que só haviam sobrado as crianças; que ficaram sem ter para onde ir. Não sei se papai trouxe Nina porque teve pena dos órfãos ou porque foi obrigado, mas nunca nos disse mais nada a respeito daquela guerra sangrenta, e ele nunca mais foi o mesmo. Acho que Nina também nunca mais foi a mesma do que era antes da guerra. Ninguém é o mesmo depois de uma guerra. Ela só tinha seis aninhos e tinha nos olhos uma felicidade escondida do que se perdeu. Sua mãe nunca viu aqueles olhos como eu vi, por isso ela não sabe o que é perder o tempo. Nina não perdera o amor. Acho que foi o amor que a perdeu.

Algumas vezes eu sonho com sua tia Nina, como se a conhecesse antes da guerra, antes de ela ter conhecido papai. Ela está com a mãe dela no sertão, brincando de se esconder entre os juazeiros. Eu estou em uma encosta segurando minha boneca de pano. Eu chamo Nina para subir o morro e brincar comigo. Ela olha em volta, mas não vem; quer ficar com a mãe. Um trovão me assusta mas o céu está limpo, de um azul que arde meus olhos. Quando eu volto para o vale, Nina e a mãe não estão mais lá. Eu viro para trás e vejo uma fumaça subindo. Um segundo trovão me acorda do sonho, e eu fico um tempo olhando pela janela, esperando meu coração se acalmar, esperando papai voltar logo da guerra para contar que tudo está bem, que nada de mal aconteceu, e que Nina estaria agora contando estórias para os netos, sob o mesmo juazeiro onde brincava com sua mãe, o juazeiro ao lado da casa em que Nina nasceu.

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