Terno e Gravata

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(São Paulo – SP)

terno-e-gravataDizem que as vítimas confundem o rosto do agressor, mas as testemunhas viram que ele era um homem magro de cabelos curtos, rosto comprido e encovado. O rosto parecia estar mal lavado, cheios de manchas, mas o bandido também poderia sofrer de algum tipo de melanoma. Não dava para afirmar, embora fosse nítido que os olhos do sujeito abriram vermelhos, como se ele acabasse de sair de um bar após embriagar-se e entrasse naquele coletivo quase vazio. Carregava uma mochila velha, sentou em um dos bancos laterais e certamente não gostou de Clayton, da sua aparência geral. Logo de Clayton, que seguia para uma entrevista de emprego vestindo terno e gravata.  Após dez minutos de viagem, o tal homem levantou-se, parou no corredor do ônibus e, sem dizer nada, tirou um revólver da bolsa e apontou contra a cabeça de Clayton.

Quem conheceu Clayton sabe que ele poderia ter dito muitas coisas para evitar qualquer atitude drástica do bandido:

– Eu acredito em Deus! E você, irmão?

– Por que você quer assaltar um ônibus com gente tão pobre indo para o trabalho?

– Eu estou desempregado, meu amigo! Vai roubar um desempregado?

– Hoje o dia está tão bonito. O sol ensina a ter paz no coração, amigo.

Talvez Clayton fosse mais meditativo e pensasse: “ Eu visitei a cidade de São Luís, mas não me lembro dos casarões coloniais.  Eu devo ter achado todos maravilhosos, mas do que adiantou tanta beleza? Todos os azulejos portugueses desaparecerão se este homem puxar o gatilho desta arma”.

E Clayton também poderia pensar que perdeu a oportunidade de ter sofrido menos no seu tempo de adolescente. Voltar para casa, depois de um dia escolar, sentindo algo que expressaria em seu diário como:

“ Nem sei explicar, mas hoje amei todo mundo. Acho que nunca saí tão feliz de uma aula como esta”.

E Clayton concluiria que se fosse tão feliz quando adolescente, talvez não levasse a vida de divorciado que tinha e se resumia a comprar por mês, como sua alimentação básica, doze caixas de litros de leite integral e dezenas de pacotes de biscoitos cream-cracker para serem digeridos durante a madrugada em frente à tevê.

Clayton ainda arregalou os olhos. E quem o conheceu  não se surpreenderia com a rapidez de raciocínio. Ele certamente notou antes de todos, não estar sendo vítima de um roubo, mas sim de uma execução sumária. Clayton elencaria os motivos: o agressor era algum marido traído; foi atraso em pagamento de dívida (as muitas dívidas de Clayton durante toda a sua vida) até parar no motivo único: simplesmente nenhum, ou melhor, sua ousadia de usar terno e gravata dentro de um ônibus onde os usuários são apenas gente pobre.

Quem conheceu Clayton sabe que ele poderia ter dito muitas coisas para evitar qualquer atitude drástica do bandido. Talvez  até  tenha cogitado: “Depois desta eu vou precisar de uma máscara de ressuscitação cardiopulmonar”.

Mas Clayton, nos instantes em que a ameaça sofrida durou,  disse ao bandido somente uma coisa:

– Você sabia que a bala do revolver atinge 700 quilômetros por hora?

Nesta hora, o homem riu. Olhou para sua arma de brinquedo e quis descer do ônibus.

2 thoughts to “Terno e Gravata”

  1. Caro escritor. O Clayton passou por momentos difíceis. São instantes em que o pensamento voa sem encontrar um pouso seguro e o final fica por conta do destino. Boa narrativa, breve e concisa como deve ser um conto, linguagem pátria bem colocada. Parabéns

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