TÁXI

Pinio Cesar Giannasi

(Um conto em bandeira 2, devido ao avançado da hora)

  Madrugada.

  Choveu quase a noite toda, e agora que trens e ônibus não circulam, resta-nos recolher os incautos que, sob os mais ridículos argumentos, acenam e se safam de pernoitar no trabalho.

  Cuidado com desajustados sociais, noctívagos que vagueiam por aí neste horário, olho clínico para não ser surpreendido. Mas, hoje é quarta-feira, espero que meus habituais clientes já estejam prontos.

  Sempre estão.

  Sem trânsito e num horário neutro, posso seguir com calma até a casa deles. Bairro chique, só alguns minutos e lá vem o casal. Ele… Fraque, cartola e bengala compondo o traje, seria ridicularizado por aí durante o dia vestido assim. Ela… Longo à Pompadour, chapéu à Mary Stuart e bolsa Chateleine, não passaria despercebida nem em baile carnavalesco.

  Mas é um belo casal, atravessaram décadas, séculos assim.

  Bodas de quê?

  O cumprimento habitual, pois já nos conhecemos desde quando meu pai me passou esta incumbência, junto com o  alvará e  o  táxi. Para entrar no banco de trás, a Baronesa encontra dificuldade devido ao volume do vestido. Já o Barão, basta tirar a cartola. No caminho, os mesmos comentários de sempre, horrorizados com aqueles corpos femininos seminus nas calçadas, e mais uma vez explico que não são mulheres, e mais uma vez o casal não compreende. Homens travestidos em tão poucas roupas.

  Eis o Teatro Municipal. Qual será a ária de hoje? Na volta eles me contam, sempre, e eu demonstro que estou entendendo.  Aqui fora, encontro colegas de ofício, com o mesmo encargo. Carros modernos conduzindo nobres de passado longínquo. Daqui é possível ouvir a orquestra desenvolvendo carinho aos ouvidos refinados dos convidados.  Para nós, simples mortais, uma mistura de sons harmoniosos.

  Passam-se as horas numa madrugada fria (detesto frio), como se fosse normal o que está acontecendo.  Estamos trabalhando e não nos interessa o que fazem nossos clientes.

  Na avenida aqui em frente, os seres noturnos de sempre, viaturas patrulhando (e estranhamente não nos abordam), um ou outro bêbado, “mulheres” vestidas de modo a ruborizar a Baronesa, é a madrugada da metrópole.  Nossas conversas passeiam entre o cotidiano dos homens comuns, jamais tocamos no assunto que nos conduziu até aqui.

  Sabemos que eles precisam de nós, e nós deles. Alguns trovões prenunciam a chuva que ameaça recomeçar. Lá dentro do teatro, os aplausos de um final brilhante, quase cinco minutos de salva. Os colegas se recompõem, abotoam camisas, guardam os drinques, e quanto ao cheiro de cigarro, deixam estar. Estes nobres do passado se agradam com o cheiro, o politicamente incorreto de hoje encaixa-se nos costumes daquela época.

  Aos casais, vestimentas conhecidas apenas de filmes ou romances, todos saem e se despedem com certa brevidade. A chuva que nos acenava está aqui, começa tímida e pretende se intensificar. Até a próxima quarta.

  Barão, Baronesa. Dificuldade com o vestido dela, ele de cartola na mão, retornamos ao palacete da Alameda Prado Gonçalves. No caminho, quase deserto, os comentários são sobre o espetáculo, é sempre assim. Serenata lúdica do século XVIII, o compositor, o maestro, todos lhe são conhecidos.

A chuva se torna torrencial conforme nos aproximamos do casarão, que não tem garagem, pois foi construído numa época em que não existia automóvel para ser guardado. Penso em um modo de levá-los, secos e em segurança, até dentro de casa. Algumas manobras de vasta experiência, aliada à sorte de ter amenizado a chuva, entro danificando o belo gramado do jardim até a porta da frente, protegida por um avarandado estratégico. Desço para abrir a porta do lado direito, assim não vão se molhar.

  O casal se despede de mim. Bandeira dois, quase quatro horas à disposição. Basta que entrem para que o temporal retorne, mas estou liberado, tudo tranquilo. Daqui até a Zona Leste em meia hora, sem trânsito. Chego em casa antes de amanhecer, minha mãe nem nota.

  Às vezes ela nota…

É claro que meu pai dizia o que fazia todas as madrugadas de quarta-feira. Mamãe sabe. Tanto sabe que, alguns dias antes de morrer, papai insistia no assunto do casal Barão/Baronesa, mamãe apenas balançava positivamente a cabeça. Eu só observava, sem entender. Já em estado terminal, ele me deixou o endereço do casal, dia e horário para o atendimento, bastava estar lá. Eles já estariam prontos. Sempre estão.

  Agora, um banho reconfortante, e cama. Meu próximo cliente será apenas às duas da tarde, do Aeroporto Internacional até um bairro próximo de onde deixei o casal na madrugada. Um desvio mínimo e poderei ver se a Prefeitura ousou cortar aquela árvore centenária defronte o casario.

  Tombadas pelo patrimônio histórico, muitos tentam remover aquelas construções, cortar o mato absurdamente grande, mas encontram entraves jurídicos para modificar qualquer coisa naqueles palacetes. Um verdadeiro museu ao ar livre. Chamam de ruínas históricas.

  Que a Baronesa não ouça…

 (Conto vencedor do Mapa Cultural Paulista em 2014)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *