Tardes Vadias

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Era março do ano de 1993. Mas, bem poderia ter sido em qualquer época. Era inicio de mais um novo ano letivo. Aquela cidade do interior da Bahia mantinha sua tranqüilidade e tudo acontecia normalmente. Dona Mariana mãe de Pedro, de doze anos, já tinha tomado todas as providências para o inicio das aulas. Da matrícula, da compra dos livros, do material escolar e até o fardamento. Era uma expectativa muito grande da família em relação à nova escola que Pedro e Maria iriam estudar. Maria era uma turma mais nova que seu irmão. Todos aguardavam muito aquela nova fase dos dois. A mudança de escola aconteceu devido a distância da casa da família Almeida para a antiga escola e também a nova escola era diferente, tinha um novo modelo de ensino. Ela não entendia bem a razão desta preferência, ela não entendia muito de escola, pois durante os trinta e quatro anos de sua existência, só tinha frequentado a escola por dois anos. Mas a intuição de mãe e suas vivências faziam com que ela acreditasse que a escola era o melhor lugar para as crianças.

– Maria! Amanhã iremos para a nossa nova escola! Como será a professora? – Perguntou Pedro quando estava na cama, antes de dormir.

– Não sei, deve ser boa, como Martinha, minha Pro do ano Passado. Agora, você viu o tamanho da quadra? Vai ser muito legal brincar ali – Respondeu Mariana em um clima de pensamentos e sono.

Logo o dia amanheceu. Tomaram o café preparado por Dona Mariana, que já tinha acordado uma hora antes. Arrumaram-se, pegaram suas mochilas cheias de material escolar e andaram dois quarteirões. Pronto, lá estavam para o primeiro dia de aula. A caminhada entre a casa e a escola foi tão rápida e cheia de tantas expectativas, que nem perceberam o olhar de admiração de Dona Mariana que tinha ficado parada no portão da casa, observando aquele deslocamento. Certamente, também nem ouviram as felicitações de seu Manoel da quitanda pelo primeiro dia de aula.

A primeira manhã foi muito rápida. Novos professores, as apresentações e o olhar entre os colegas que começavam a se conhecer. Tudo era novidade. Desde a altura desproporcional do colega que sentou ao seu lado e principalmente os cabelos longos da linda garota que se destacava na sala, pela beleza e também pela gentileza. O professor de matemática como sempre, depois de uma breve conversa, começou a apresentar o novo assunto, que era conjunto. Como a hora do almoço já estava se aproximando, a fome já começava a ser sentida e aula já estava terminando. Então, Pedro começou a arrumar sua mochila, já imaginava chegar em sua casa e contar todas as novidades daquela primeira manhã.

Assim que o sinal sonoro marcou o final da aula, todos se arrumaram para sair da sala. Mas aquele movimento não parecia que de fato eles iriam para casa. Pedro ficou confuso. Via que todos tinham arrumados suas coisas, mas deixavam suas mochilas nas cadeiras e saiam da sala.

– Vamos para onde agora? – perguntou Pedro ao seu colega do lado.

– Vamos todos para o refeitório almoçar. Temos uma hora e meia para o almoço e para descansar um pouco, depois retornaremos à sala de aula – Respondeu o colega com cordialidade, mas um pouco intrigado por Pedro desconhecer a rotina de uma escola em tempo integral.

A tarde já não passou tão rápida. Pedro já não tinha a mesma concentração e vontade que teve durante o período matutino. A aula de ciência foi desinteressante. Sonolenta. Ele se sentia preso e tinha muita vontade de chegar em casa. Por volta das dezesseis e trinta todos foram liberados. Pedro encontrava-se cansado e chateado. Aquela rotina se repetiu nos outros dias da semana. Pedro aos poucos foi perdendo a vontade de ir à escola. Alguma coisa acontecia com ele, nem ele mesmo conseguia entender. Dona Mariana explicava que agora seria assim, a maior parte do tempo dele seria na escola.

Algo estava acontecendo com Pedro. Do garoto esperto, disposto e brincalhão, agora passava maior parte do tempo calado e sozinho. Na noite de domingo da semana seguinte acordou gritando dizendo que sentia dor de cabeça e estava com tonturas. Inicialmente sua mãe lhe deu analgésico, mas minutos depois ele começou a vomitar. Dona Mariana não teve alternativa, levou Pedro ao Pronto Atendimento do Hospital Municipal. Horas depois foi liberado. Exames todos normais. Saía somente com a recomendação de observação e afastamento da escola por um dia.

Nos dias seguintes Pedro sempre apresentava alguma queixa. Ora de cefaleia, dor abdominal, tontura e até febre. Como menos de quinze dias de aulas Pedro já tinha sete faltas. Já tinha passado pela avaliação do neurologista, realizado tomografia computadorizada do crânio e mais exames. Tudo normal.

A mãe foi chamada na escola para conversar sobre Pedro. A coordenação pedagógica queria saber o que estava acontecendo. Dona Mariana não tinha resposta. Tinha somente as queixas constantes de Pedro, um monte de exames, pareceres de especialistas e nenhum diagnóstico. Toda aquela nova realidade era desesperadora para uma mãe que via o adoecimento do seu filho sem nenhuma explicação. A Professora Madalena, profissional experiente, que estava na coordenação de ensino pediu para mãe que trouxesse seu filho no dia seguinte para uma conversa.

Pedro ao entrar na sala da Professora Madalena estava visivelmente abatido, com uma expressão cansada e um pouco emagrecido. Ele não queria estar ali mais uma vez. Não sabia como falar sobre suas angústias. Aquela sensação de que sua vida estava sem rumo o deixava amedrontado.

– Olá, Pedro. Sente-se aqui – Disse a professora Madalena com um pressentimento que algo muito grave deveria estar acontecendo. Sentiu, também, um impulso muito forte de curiosidade e de desejo de ajudar. “Este garoto pede socorro” pensou ela.

– Pedro, fale-me um pouco sobre você? O que está acontecendo? Por que não está vindo às aulas? – Falou a professora Madalena em um tom maternal. Pedro sentiu confiança e compreendeu que o momento era oportuno para uma boa conversa.

– Sabe Pro, eu não gosto de ficar aqui. Me sinto preso. Antes eu tinha as tardes para brincar. De repente tudo mudou. – Disse Pedro como um desabafo e continuou – Eu ia brincar de skate na praça com meu irmão. Às vezes a gente brincava de bola, era muito bom. Tinha dias que ia até a praia ver os pescadores nos barcos. Mas o que mais gostava de fazer era jogar vídeo game. Não só jogava mais fazia algumas dicas e postava no YouTube. Agora não posso fazer mais nada disso. – Concluiu Pedro com lágrimas nos olhos.

– Olhe Pedro, eu entendo você. Sei o quanto você gostava de ficar com seus amigos. Realmente é muito prazeroso jogar bola, brincar no vídeo game e ir à praia. Mas agora é uma nova fase, como no jogo. Você terá que vencer novos desafios, aprender coisas novas e fazer novos amigos. – Disse a Profª. Madalena.

– Vou falar para você algumas coisas que temos aqui que acho que possa te interessar – Falou a Profª. Madalena mais uma vez. – Temos uma sala de informática onde você terá aula duas vezes na semana. Existe um clube de vídeo game onde vocês podem discutir, jogar e criar novos jogos. Temos também um torneio de futebol. As aulas só estão começando e aos poucos tudo isto vai acontecer – Finalizou a professora.

Depois da conversa que durou mais de uma hora com a professora Madalena, Pedro ganhou um pouco mais de ânimo e voltou a freqüentar as aulas. Realmente ao longo das semanas que vieram todas aquelas possibilidades começaram a existir. Pedro foi criando cada fez mais vontade de ir para a nova escola. Mas, às vezes ainda sentia falta da vida livre na rua e das tardes vadias que fica a observar os pescadores na praia.

 

5 comentários em “Tardes Vadias

  1. Muito bom, Parabéns pela sensibilidade de trazer para o conto as angustias vividas por adolescentes diante de seus novos desafios. Com isso trás a reflexão do quanto é necessário ter uma escuta acolhedora diante de reações conflituosa.
    Show!!!😊

  2. Pedro somos nós, em cada fase das nossas vidas.Esse dilema, obrigações e devoções.
    A nossa criança está impedida de viver as grandes necessidades da alma.
    As metas sociais não respeitam o nosso coração ❤️
    Gerando muitas vezes distúrbios físicos e psicológicos .
    O difícil é encontrar pessoas que estejam dispostas à terem esse olhar.
    Parabéns, Rosalvo!!!
    Esse conto serve de alerta 🚨

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