Sonho Inquieto No Velho Oeste

 

 

 

 

 

(Salvador – BA)

I

Sei que estou sonhando…

Olhei novamente a pistola.

A fumaça saía do cano traçando um desenho no ar que parecia uma cobra. Traguei a fumaça que saía do cano e senti um prazer que era somente meu e somente meu em momentos como esse. Dei um sorriso de garotinho que prova o pudim pela primeira vez.

O outro estava do outro lado… um nêmeses abatido… de repente eu o notei e fiz uma careta de escárnio.

II

Andei devagar em sua direção e percebi que estava sendo observado. Medrosas cabeças espreitavam por brechas nas janelas das casas e lojas. Num cassino e bordel de dois andares, moças seminuas arriscavam seus pescoços ao saírem mostrando parte dos seus belos e surrados corpos. Não pude deixar de olhar e com um riso tímido fiz um aceno com o chapéu e continuei minha caminhada até o corpo morto. Comecei a me sentir poderoso. Havia um xerife na cidade? EU era o xerife da cidade? Ou era o indesejado? O que trazia más notícias? Saberia disso agora mesmo.

III

O corpo estava deitado de costas. Senti algo ruim no estomago. E me perguntei se o acertei como um covarde… pelas costas enquanto andava por aqui, cuidando de sua vida.

Continuei sentindo que a platéia das janelas aumentava, mas já não me sentia tão bem com isso. Também não podia demonstrar fraqueza.

Primeiro remexi o corpo com o pé, tentando virá-lo. Ele fez que ia, mas não virou e continuou de bruços. Olhei em volta e fiz o mesmo movimento tentando mostrar que não me interessava pelo corpo. Queria apenas confirmar sua morte pelas minhas mãos.

Depois de mexer mais algumas vezes com o pé acabei me agachando e o virei com as mãos. Era uma mulher. Em seu peito estava o símbolo de xerife.

Que raio de cidade é essa que põe uma madame para cumprir a tarefa do homem? E que tipo de homem sou eu que a matei?

IV

De repente surgiu ali vindo em minha direção, um garoto e uma mulher. O garoto era muito magro e usava um suspensório surrado. Eu diria que era ajudante em algum trabalho braçal, apesar de seu aspecto fraco. A mulher era loira e tinha uma cicatriz na face que era enorme, mas não tirava a sua beleza. Era obviamente uma meretriz com um vestido que com certeza já vivera por anos demais. Seu imenso decote me denunciava sua função.

Chegaram junto a mim e nada disseram. Estavam aterrorizados. A moça segurava um crucifixo e um lenço sujo que levava ao rosto para enxugar lágrimas. Parecia conhecer bem minha vitima. O menino segurava um saco e não conseguia parar de tremer. Ofereceu-me o saco como se estivesse oferecendo a própria vida. Eu não podia me lembrar do que tinha acontecido antes. Mas era certo que não era bem-vindo.

Abri o saco e dentro tinha dinheiro… muito dinheiro. Não podia me concentrar pois não conseguia parar de encarar a xerife morta. Era uma linda mulher. Devolvi o saco. O menino me olhou com olhos surpresos, e a moça até parou de chorar para me encarar também.

Dei as costas e saí andando em passos curtos. Sem nem mesmo saber se estava na direção certa. Apenas fui andando com esperança de que a qualquer momento o sonho acabasse. O menino, a moça e a xerife morta foram ficando distantes até que não pude mais vê-los. Assim como os olhos curiosos das janelas.

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