Sob Um Céu Azul

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Deitada na areia à beira-mar sob um céu azul turquesa, olhos protegidos dos raios solares, a bela jovem bronzeava o lindo corpo coberto apenas com um minúsculo biquíni.

O encontro daquele canto isolado entre o mar e a montanha custou uma caminhada cansativa. O clima agradável de um dia de verão ameno fez as horas passarem vagarosamente com a tarde que se aproximou. Governada pelo ambiente, a empatia e emoção levou-a aos devaneios, aos sonhos da juventude, não aos castelos e princesas como poderia se esperar, pois vinha de uma recém-saída desilusão amorosa, tragédia para qualquer jovem desde que o mundo existe.

Assim como presente na plateia de um palco iluminado, sua mente rememorava palavras ouvidas há tão pouco tempo, em voz máscula e apaixonante, prometendo com doçura e dedicação afagar, por todos os tempos, seus cabelos molhados pelas águas do mar e deixando marcas e raízes do amor em seu coração. Juras de ser amada em todos os lugares, seja no relvado, na areia da praia ou no aconchego de um canto qualquer, fazendo-a acreditar que era o primeiro e enaltecendo a beleza daquele olhar.

A letargia e sentimentos oníricos tomaram conta de seu corpo e imaginou que estava sendo deitada naquele solo de areia fina deixando a virgindade e sobrevindo à condição de mulher. O cansaço entorpeceu-lhe os membros e adormeceu com um traiçoeiro sorriso vindo ao semblante, alterando a linha de sua linda boca.

Passado não muito tempo seus pés sentiram a aproximação de algo, alguma coisa fria, ligeiramente viscosa que atingiu os dedos de um dos pés, levemente. Seu estado de torpor imediatamente permitiu que imaginasse algo tão ruim que poderia acontecer e em sua mente começou a formar uma cena onde a coisa pretendia, gradativamente, se apoderar de seu corpo todo, envolvendo-a em situação terrível, sinistra, talvez mortal.

Procurou conter-se e refrear a situação. Lembrava dos ensinamentos na sua infância de como conter o pânico e superar dificuldades. Porém, o desconhecido já procurava sorrateiramente atingir àquela e também a outra perna, numa escalada incontida tentando cobrir e dominar aquele corpo seminu.

Esforçando-se em manter o pensamento ativo apesar da dormência, a jovem tentava analisar a situação e acreditou que um ser estranho, um crustáceo buliçoso ou um molusco repugnante almejava alcançar, devorar e talvez apoderar-se de todo o seu corpo, acabando com sua vida. Exterminar o intruso seria a solução, mas a coragem lhe faltava e apesar dos mandamentos do cérebro os membros paralisados teimavam em se manter inertes.

Seus olhos se mantinham semicerrados, mesmo assim reconheceu, reviu mentalmente o personagem de seus desenganos, o culpado daquela tragédia possível. Situou o rosto e as mãos do ex-príncipe encantado numa visão do imaginário entre o passado recente e lembranças transfiguradas.

Sensações íntimas se afloraram e transpuseram o universo de suas ilusões, que foram consideradas intrusas diante daquele recanto paradisíaco. Sentiu, pelas investidas, pelas sacudidelas dissimuladas e cada vez mais constantes que a coisa estava zangada e tentou gritar, momentos em que sua ofegante voz morria subitamente como num rosnar inaudível.

Pensou em pedir perdão ao mundo, em retornar à situação vivida anteriormente de paz, aos belos dias e memoráveis noites onde só a ternura tinha autorização de participar. Condição impossível, pois exigiria um esforço além da hora, rápido e fulminante com a finalidade de atingir tal concebida situação.

Enquanto decidia pela difícil providencia a tomar, muito além de suas forças ativas, a coisa pastosa, produzindo uma sensação de frio, metodicamente avolumava suas investidas, agora pretendendo abafar, se apossar, cobrir todo aquele corpo, subindo pelas pernas e atingindo a cintura carregando, no caminho, gotas gélidas de suor brotadas por todos os poros daquela bela moça, agora apenas uma mortal indefesa.

Ela fazia um esforço desesperado para sugar o vento abundante e bastante oxigenado como aquele ao nível do mar, mas seus pulmões pareciam recusar ou haver esquecido o modo de laborar. Levou ambas as mãos ao pescoço e seus dedos procuravam agarrar a brisa, aquela bendita aragem que no desespero, em sua concepção cessara de existir. Só o terror, agora apossado de seus olhos vidrados mostrava o drama que estava sofrendo. Suas coxas e nádegas até recentemente acariciadas por gestos suaves estavam agora sendo violentadas grosseiramente pela coisa viscosa e fria. Envolver todo o seu corpo parecia ser, decisivamente, o objetivo do desconhecido.

Ouviu ou pareceu ouvir uma voz distante, quase um murmúrio perguntando de longe o que estava acontecendo. Nem resposta pode dar, pois o olhar lançado em direção ao som intruso limitava suas vistas embaçadas pela indignação da situação vivida, da sua aventura surreal.

Numa derradeira e última tentativa conseguiu superar a zonzeira dominante. De seu lindo rosto despontavam traços contorcidos e de seus lábios grossos coloração azulada. Não podia se comunicar e não queria morrer. Proveniente do fundo de suas entranhas obteve alguma força para se levantar e fugir, ajudada por querubins alvoroçados a sair daquele local agora horrível, daquela cena monstruosa.

Fugiu aos tropeços, capengando sofridamente e somente atinou logo adiante, voltando seu olhar para aquele lugar horrível, o ponto do acontecimento, compreendeu então que a maré prosseguia normalmente seu rito ordinário, com a subida natural a caminho da preamar – como naquela hora – e suas águas se dispunham a expulsar ou cobrir impetuosamente qualquer corpo estranho ou forasteiro que estivesse ao seu alcance nas areias da praia!

 

One thought to “Sob Um Céu Azul”

  1. Que susto! Mas será que molhou o tal minúsculo biquíni? Eheheh. Ainda pensei num polvo, mas não, a sua arte manteve a ansiedade até ao final. Um abraço.

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