Só Nos Resta Viver

onibus

Aristóteles da Silva

(Mogi das Cruzes – SP)

Olhava vagamente para a paisagem pela janela do ônibus. O trânsito estava carregado, mais do que de costume. Ia demorar uns trinta minutos para chegar no seu ponto. Tudo bem. Tinha que dar é graças a Deus por morar tão perto do serviço. O de amanhã levava duas horas, tanto para ir quanto para voltar. Mas trabalhava bem menos. Ao pensar nisso aproveitou que não tinha ninguém sentado ao lado dela e se espreguiçou. Não tinha parado um minuto hoje. Era sempre assim nesse serviço. Eram vários lugares para limpar e com uma encarregada chata, implicante. Bem, a verdade é que só reclamava enquanto trabalhava. No outro, quantas vezes ficava um tempão sem ter que fazer nada. E sempre tinha mais buchicho com as colegas. É, esse era bem melhor. Vinha, cansava o corpo e o tempo passava rapidinho. Mas como chegava cedo eram os dias que tinha aproveitar para fazer o serviço de casa. O apartamento era pequeno, sua filha ajudava, mas era bastante coisa que sobrava. É, este é para trabalhar, o outro para descansar. O importante era que os dois pagavam.

Mas também não tinha como reclamar. A Joanne era seu tesouro. Quinze anos, mas já responsável, cabeça! Quantas e quantas colegas dela já tinham engravidado, algumas no segundo ou terceiro filho. Ou eram umas pirainhas de mão cheia! Piriguetes é como chamam agora. Deu risada. Que moral tinha para falar. Ela dava mais que chuchu na cerca quando era moça. Podia apanhar o que fosse. Imagina agora que essa meninada não pode apanhar? Mas sua filha não, estudiosa, queria ser aeromoça. Pagava conta, fazia comida, limpava casa. Tímida, mas como era gostosa. E que rosto lindo! Escondia tudo isso debaixo daquelas roupas de crente e de uma Bíblia. Nem namoradinho na Igreja tinha. Antes tentava fazer com que saísse mais, mas agora parou. Quem nunca comeu melado…

Finalmente tinha se acertado com o pai dela. A pensão vinha sempre em dia e ele era presente. Ciúme maldito! Se conseguisse simplesmente conviver com as galinhagens dele, estariam juntos. Será que hoje… Não, homem meu é homem meu! E ele já têm outra, novinha, tudo durinho. Ainda bem que é esperto. Só têm dois filhos, um antes de mim e ela. Será que ele operou? É, fez burrice!

Viu pela janela um moço que lhe lembrou seu irmão. Às vezes tinha uma saudade dele! Aprontavam sempre juntos. Ele sempre “defendia a sua honra” na turma, mesmo sabendo que ela não valia nada. “Toma cuidado, mana. Vai acabar embuchada de traste. Aí acabou a festa”. Tinha razão. O Peterson nasceu quando ela ainda tinha 15 anos. E sua mãe não lhe dera moleza, se recusando quase que totalmente a ajudá-la a cuidar do menino. Saiu da escola e o pai sumiu. Estava tão perdida que nem viu direito a desgraça se aproximando. Nos dois anos depois do parto seu irmão mudou tanto, aparecia cada vez menos, cada vez mais magro, na maioria das vezes pedindo dinheiro. Quando ele ia embora, após brigas e cenas horríveis, sua mãe se trancava no quarto e colocava um CD da Angêla Ro Ro para tocar. Foi o que fez também durante meses depois que ele morreu tentando assaltar um carro. Lembrou do filho. Não tinha notícias dele há mais de dois meses. A última foi um desviado da igreja da filha que voltou e disse que o viu usando drogas no centro da cidade.

O celular tocou. Era Joanne avisando que não tinha comprado a mistura. A fechadura tinha sido forçada. Levaram o dinheiro do esconderijo dos trocados. Um vizinho disse que tinha visto o Peterson mais cedo. Não, não. Não tinha sumido mais nada. Suspirou fundo, pôs os fones de ouvido do celular e colocou uma música para tocar:

“Dói em mim saber que a solidão existe/ E insiste no teu coração/ Dói em mim sentir que a luz que guia/ O meu dia, não te guia não/ Quem me dera pudesse/ A dor que entristece/ Fazer compreender/ Os fracos de alma/ Sem paz e sem calma/Ajudasse a ver/Que a vida é bela/ Só nos resta viver”

Derramou duas lágrimas. Enxugou-as e deu sinal para o ônibus parar. Teria que passar no banco e no chaveiro…

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