Segure Minhas Mãos

 

 

 

 

 

(Belo Horizonte – MG)

Posso até sentir um cheiro de margaridas.
– As margaridas cheiram?

Não sei, não acho, mas eu consigo sentir o cheiro delas porque, de olhos fechados, dá  para sentir qualquer coisa.
A imobilidade é um motivo para fugir, para impelir-me para onde eu quiser. É suficiente um espasmo, uma pequena contração, geralmente nos músculos das pernas. Então me imagino andando e correndo e, finalmente, chegando naqueles alhures que você me indicou.
Você não me forneceu mapas ou pistas. Você apenas me disse que eu não deveria ter medo.
– Mas eu tenho medo do que vem depois.
– E você sabe o que vem depois?
Eu não sabia e você estava certo.
Mas como evitar o medo? Nem mesmo o hábito ajuda.
E embora que sejam já tantos, inúmeros, os momentos em que eu, deitada, fui empurrada para dentro desse  túnel com a abóbada branca (como um céu, mas feito apenas de nuvens e sem espaços azuis), eu ainda tremo.
Devo manter meus olhos fechados, olhos cegos que imaginam reflexos de nebulosas e explosões de satélites distantes. A escuridão total de um buraco abissal me engoliria à velocidade dos sons ecoando em torno de mim, sons repetidos, persistentes, obsessivos, ao ritmo de uma música magnética, cuja pontuação se inscreve nas imagens ilógicas do que eu carrego dentro.
Fácil escorregar, acelerar, precipitar dentro de mim. Livre, sem defesas.
– Imagine que eu estou com você, segurando suas mãos.
O invisível belisca meus dedos com suas impressões digitais e, se bastante concentrada, eu estou em pleno sol, sorrindo. Posso até sentir um vento tropical acariciando minhas bochechas, sarando os tapas de toda essa solidão. Como se você pudesse ficar comigo para sempre…
– Mas eu sempre estarei com você.
E eu preciso tanto disso que a mentira se torna a mais doce das verdades.
Enfim, uma voz anuncia que tudo está terminado.
Fora do túnel, me levanto, sob um teto que não tem mais nada do céu artificial em que eu sonhei com você. O olhar cansado me ajuda a recompor as peças. Vou desmoronar de novo e de novo, tantas vezes.
Sob uma abóbada branca, dançando imóvel como uma bacante ferida, para a qual ninguém pode segurar as mãos.

 

One thought to “Segure Minhas Mãos”

  1. Espetacular caro escritora. São confissões ou devaneios é o que não importa pois a mensagem é bela. Apenas uma coisa me deixou intrigado, como é “dançando imóvel” como fez a borboleta ferida? Abraços à moda italiana!

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