Se Kafka Morasse Aqui Perto

 

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Carlos andava pela passarela do Porto da Barra e era madrugada. Existia alguma iluminação por ali desde que o prefeito reformou as orlas. Só que do outro lado ainda reinavam as sombras e os bichos do submundo. Carlos estava praticamente só na passarela. Haviam sombras do outro lado, sempre existes sombras nas ruas. Sombras de gente que não se considera gente ou sombras de gente cometendo pequenos delitos escondendo-se no véu da madrugada. Carros eram proibidos ali e todos andavam ou se arrastavam.

Carlos parou e se encostou num muro com intenção de não ser visto. Ramiro passaria por ali em alguns minutos, cansado de seu trabalho como vigia noturno da estátua do Cristo. Ele assobiava e pensava nos braços de sua namorada ansiosa, sonolenta e com bafo de café. Carlos puxou de dentro do casaco jeans um enorme facão de cortar coco que brilhou diante dos faróis de um fusca que ali passou. Carlos examinou a faca passando por fim o dedo em sua lamina que o cortou. Carlos tapou a boca com as duas mãos com força para não emitir nenhum som. As sombras o observavam. Mas apenas uma sombra realmente prestava atenção e parecia se importar, e essa sombra era eu.

Do outro lado, mas ainda distante vinha o pobre e apaixonado Ramiro, enquanto encostado no muro com a faca brilhante Carlos aguardava. Mas quando todo o mal parecia inevitável, eis que surgiu um bando de pivetes que brotaram da escuridão do mar. Molhados, excitados, barulhentos, risonhos, perigosos. Ao encontrarem Carlos ali encostado de forma extremamente suspeita, viram logo que se tratava de um covarde criminoso.

Os jovens unidos (eram seis), magérrimos, porém muito fortes agarraram Carlos e o desarmaram com facilidade. Carlos gritava e se debatia e Ramiro ao ouvir o barulho deu meia volta e sabe-se lá para onde foi. Os pivetes amarram Carlos num poste e o largaram lá.

Não se sabe se aqueles meninos eram desses que possuíam poderes ou magia ou se alguém que passou por ali horas depois amaldiçoou o coitado do Carlos. O que se sabe é que até hoje ele está lá naquele poste amarrado e que uma pomba branca surge dos céus todas as manhãs e bica seus pés até ficarem em carne viva.

Quando a pomba se vai, os pés de Carlos começam a se curar instantaneamente e no dia seguinte já amanhecem curados, para serem estraçalhados novamente, dia após dia. É esta sua sina. E nem sei o que Carlos tinha contra Ramiro. Só sei que agora Carlos recebe mais visita de turistas do que a própria estátua do Cristo.

Esta história foi inspirada nos contos “Um Fratricídio” e “O abutre”.

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