Sábado à Tarde. Ou Outro Dia Qualquer

 

 

 

 

 (Braga – Minho – PT)

Perguntas-me se caso contigo. Deitas a pergunta cá para fora com a mesma indiferença com que indagarias se quero comer um gelado, ou ir ao cinema.

Apanhada de surpresa, olho-te sem nada ver – o vazio dentro e fora do meu olhar.

Sim, talvez aceite um gelado, é bom, fresco e doce. Cinema não, não me apetece ficar tanto tempo fechada no escuro olhando uma tela e sentindo o ar refrigerado, sempre um pouco mais frio do que o desejável.

Não dizes nada. Recostado no banco deste jardim, mãos nos bolsos, pernas esticadas e cruzadas, pés entrelaçados, sempre o direito por cima do esquerdo, o olhar fixo na joaninha que te pousou na biqueira do sapato.

Olho a aparente beleza da joaninha e recordo a música: “Voa Joaninha, voa, voa…” Sinto-me joaninha.

E quero voar. Para Lisboa, para outra capital qualquer, fundir-me numa multidão metropolitana e anónima onde possa existir sem o peso de ser.

Continuas calado. Sei que hesitas entre sacudir o pé, afugentando o insecto, e a tentação de a esmagar, com a mesma indiferença votada ao imediato esquecimento que usarias para apenas fungar ou encolher os ombros. Gestos familiares, que consigo ver e antecipar com precisão nítida, nascida do hábito de estarmos juntos.

A tua imobilidade confunde-me mais que a própria pergunta. E interrogo-me se aguardas uma resposta, se terei ouvido ou imaginado palavras que não proferiste.

Por iniciativa própria, a joaninha levanta voo. Quero ir também.

Há anos que acredito amar-te. Nem me recordo da vida antes de ti, anterior ao nós.

Subitamente, desconheço-te. Olho-te como que pela primeira vez.

… e não acontece nada.

Talvez cansado de esperar inutilmente, levantas-te, endireitas-te. Sacodes ligeiramente as pernas, repondo a compostura original das calças.

Começas a caminhar. Afastas-te.

Acompanho o teu afastamento com o olhar. A tua figura masculina distancia-se, passo a passo.

Continuo sentada no banco do jardim, qual joaninha amputada das asas. Não voarei para Lisboa. A música dilui-se, misturada às ondas sonoras e reais dum mundo que continua a girar, indiferente a nós.

Sei que não voltarei a ver-te.

Regresso à leitura interrompida pela tua chegada. Não consigo concentrar-me.

Ergo-me. Endireito a saia. Talvez vá comer um gelado.

Algures, pousada na folha de uma árvore, uma joaninha observa-me, testemunha silenciosa duma história que ficará por contar.

… não dou pela sua presença.

Afasto-me.

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