Rosas e Feijões

 

 

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Os tempos se foram, as amizades se foram, somente o apelido não se foi: Feitiço!

Por culpa de uma namoradinha, dos tempos de adolescente, pois em certa ocasião declarou, vaidosamente, alto e bom som entre os amigos que ele a havia enfeitiçado com seu olhar luminoso e ela não conseguia, apesar de todos os esforços, livrar-se dessa força mágica emanada dos seus lindos olhos negros, causadora do forte encanto. Foi o suficiente, o bastante para eternizar entre os jovens amigos de ambos, a denominação do fenômeno imputado ao moço encantador: Feitiço!

Quando um imprudente colega batia à porta de sua casa, procurando pelo Feitiço, sua mãe furiosa afugentava sem nenhuma cortesia o visitante, com mau humor evidente, dizendo que ali naquela casa não existia ninguém com esse nome, recusando a repetir o termo usado pelo imaturo amigo de seu filho querido.

Na região de Estrela Brilhante de Minas, povoado encravado nas montanhas do sul das Minas Gerais, um preguiçoso ribeirão de águas limpas desce circundando as montanhas e os montes e colabora no fornecimento da água necessária a irrigação do plantio de feijão. Esse produto forma e quase com exclusividade envolve a economia local, sendo por isso a base da sustentação de sua população. A qualidade mais produzida é o feijão preto, vendida no Rio de Janeiro, desde que este compõe basicamente a mesa do carioca.

Já adulto e quão intensamente a maioria dos moradores da simpática cidade, Feitiço estava empregado num grande armazém daquele cereal, sendo sua função levar as sacas de sessenta quilos de feijão, do armazém para o caminhão que transportaria o produto. Durante alguns anos foi seu trabalho, seu ganha-pão. Nos momentos de repouso da jornada de trabalho, apoiado sobre a sacaria, repetidamente enfiava a mãos dentro de uma bolsa de feijão e deixava escorrer por entre os dedos as sementes pretas, admirando e venerando incansavelmente aqueles grãos que serviriam de alimentos para tantas pessoas, germes tão negros como a cor de sua pele. Uma dádiva divina.

Certo dia, porém, transportando na cabeça a sacaria pesada e em fila indiana como de costume, o seu companheiro que o seguia sentiu uma das pernas falsear, tombou e foi ao chão lançando antes sobre as costas do Feitiço o volume que carregava. O peso dobrado pela carga dos dois sacos atingiu-o com violência e lesionou sua espinha dorsal, resultando após longo e doloroso tratamento incapacidade para os afazeres, afastando-o definitivamente do trabalho.

Dias ociosos, em condições físicas sem serventia para outras atividades, Feitiço lembrou-se dos tempos em que ajudava sua mãe no trato das roseiras plantadas no quintal de sua casa. Rosas de todas as cores, brancas, amarelas ou vermelhas proliferavam naquele jardim, mas rosas na cor preta… nenhuma! Sua mente reprisava, involuntariamente, as perguntas que sempre fazia para si mesmo: existem rosas pretas? Não, por quê? Se existem feijões brancos, roxos, pretos, se existem animais brancos e pretos, homens de peles brancas e pretas como a sua, deveria, então, existir rosas pretas. É muito justo!

Ponderou nosso amigo, na lenda que diz “Uma vez, há milhares de anos um Conde perverso amou muito uma mulher que o amava também. Um dia a mulher foi passear pelo bosque que rodeava o imenso castelo onde viviam felizes e deparou-se com uma gruta. Descuidada entrou e um urso faminto que lá habitava, matou-a. Quando o Conde soube o que se tinha passado correu até a gruta e desesperado, chorou durante dias seguidos ante as sobras deixadas pelo urso, poucos restos mortais de sua amada. As suas lágrimas, muitas, transformaram-se em sangue e as flores que absorveram o sangue das suas lágrimas transformadas ficaram totalmente, absolutamente pretas”.

A partir de então começou a cultivar rosas na tentativa de produzir as de cor preta, pesquisando sobre o assunto, fazendo experimentos com enxertos, cruzando espécies diferentes em busca de seu objetivo: rosas negras! Partia sempre do princípio que o branco é uma cor neutra, a base de todas as cores. Em momento de devaneio chegou a perfurar com um dos próprios espinhos da flor a ponta de seu dedo indicador, passando a seguir o sangue escorrido nas pétalas de uma rosa, tingindo-a de vermelho. Ela respondeu ao experimento com a perda de sua brancura, tornando-se gradativamente pálida e o sangue absorvido secando, coalhando e escurecido posto sobre suas pétalas deixou a rosa sem vida, num rápido processo de degradação.

Vasos e canteiros de rosas proliferavam pela casa. Seus conhecimentos evoluíram ao ponto de implantar enzimas que produzem o pigmento negro em outros corpos, mas ineficiente nas rosas. Aplicou genes retirados de pétalas de outras espécies. Nada produzia o efeito desejado.

Coisa nenhuma, no entanto, removia a crença do Feitiço. Encontrar o caminho da produção e cultivo da rosa negra era sua fantasia, sua meta, seu desígnio.

O tempo, senhor de todos os resultados, mostra na tela da existência os espelhos onde se vê passado e futuro. Um esguio traço faz a separação quem é, daquele que foi. Posicionado do lado atual, nosso Feitiço começou a definhar, cansado de sua busca sem sucesso, após anos de trabalho. Aquela certeza pioneira de transpor o muro imaginário infligido pela natureza foi deixando guardada a possibilidade de cruzá-lo um dia.

Tudo se desmoronou quando, imerso em busca de mais ciência sobre o tema encontrou a publicação de um cismático com o significado de rosas pretas: “Separação, tristeza e morte”. Calou profundamente ante o sentido dado aos seus sonhos. Um calafrio atingiu a sua cabeça e desceu pela sua coluna maltratada, deformada, podendo ser contadas as vértebras, uma a uma, por onde passava o frígido sentimento.

Ali mesmo se deitou vagarosamente e tendo à mão esquerda um punhado de feijões pretos colocou-os cuidadosamente sobre o peito a altura do coração, cada um ao lado do outro em linha horizontal. Tendo à outra mão segurando a flor pela haste entre o dedo polegar e o indicador, armou-a em posição vertical sobre a linha de feijões pretos, dispondo em forma de uma cruz a rosa… branca!

E dormiu…

 

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