Reparação

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Sempre torcia o nariz quando ouvia que “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.” Não que algum dia Oscar Wilde me tivesse aborrecido… É que, na verdade, nunca achei um exemplo que se amoldasse às suas palavras e me satisfizesse.

Mas os anos sucedem-se, e, coisa fantástica! não é que me vejo como uma luva, assentando-me àquela afirmação?

Com efeito, tal como precisei outrora, retorno agora a Nova Friburgo, não mais para refazer-me das carnes perdidas ou do ânimo abatido, pois que no empíreo este está sempre bom e aquelas não mais existem, mas, sim, para sorver de suas montanhas, das ruas e da pureza do ar a preciosa inspiração.

E para quê? Para fazer como fiz com o meu Brás Cubas: trabalhar cá no outro mundo e compor outras Memórias. Ora, isso não é a vida imitando a arte?

Pena que, por força das circunstâncias (etéreas), não mais preciso hospedar-me. Ah! hotéis Leuenroth, Salusse e Engert… Não me lembram outras cozinhas que os igualassem!…

Lamentações à parte, seria bom que me decidisse por um lugar às primeiras garatujas… – E assoprava as lentes do pincenê, antes de esfregá-las com um lencinho.

Neste meio tempo, dois turistas, que passeavam próximos, comentavam efusivos os momentos por que acabaram de passar. Foi o suficiente para que o Bruxo do Cosme Velho aceitasse a “sugestão” e partisse rumo ao Country Club. Melhor lugar não haveria para o início do seu ofício.

Como fosse setembro, o canto do sabiá-laranjeira embebia a brisa com sua inconfundível melancolia. Esse sentimento fez lembrar ao recém-chegado o ganido sem fim do falecido Quincas Borba. E ele murmurou:

Sem dono, sem vencedor, sem batatas…

Retomada a realidade, e o filho mais dileto do Morro do Livramento já se sentia apto ao início do processo criativo.

O estilo? Seja por saudosismo, seja por entender mais adequado, o fato é que este novo romance seria escrito no velho estilo Memorial de Aires. E a cada folha dobrada no diário, um rever dos fatos; a cada nova datação, uma catarse que alivia.

Esqueceu-me dizer, a cada capítulo concluído, um rogar a Deus para que o futuro narrador seja perdoado por seus entes mais queridos.

Se bem que decidido a acabar com a dúvida que há mais de um século sua pena imaginara, é forçoso confessar que o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras não deixava de sentir um certo aperto na garanta. Afinal, os esclarecimentos que começariam a ser construídos, e que por certo revolucionariam mais de uma convicção, longe estavam da simplicidade de se preferir a um amor um voltarete, conforme resumiu Adelaide em Linha reta e linha curva (Contos Fluminenses). Além das provas que viriam a ser descobertas, e que para sempre eximiriam Capitu do pecado do adultério, Bentinho deveria lutar contra o seu maior inimigo, o orgulho que o cegou e o perseguiu implacavelmente no além-túmulo.

Ó musas! ajudai-me neste momento!

E elas vieram. Mas não vinham sós. Mentoreavam um jovem escritor que, em início de carreira, também buscara a Suíça Brasileira para haurir inspiração. Seria por meio dele que o nosso sempre Machado poria fim às múltiplas leituras de Dom Casmurro.

À noite, quando ambos os pensamentos já se haviam harmonizado, o pai de Ezequiel iniciava assim as suas Memórias:

2017

9 de dezembro

Se a terra lhes foi leve, não o foi para mim…

 

Um comentário em “Reparação

  1. É muito importante saber que os bons escritores se lembram dos escritores antigos. Eles foram os mestres e precisam ser homenageados com louvor, como o fez o escritor Dias Campos. Parabéns pelo texto, criativo e bem característico com o próprio Machado. Ótima leitura, para pessoas inteligentes. Demonstra muita capacidade e sucesso! !

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