Questão Canina

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Meu querido diário: Hoje, acordei mais ou menos bem-disposto.

Como de costume o diabo da passarada não deixa uma alma de Cristo dormir. Assim, muito embora não fossem horas para se fazer o que quer que fosse, acabei de me levantar no meio de tal chinfrineira.

Depois de uma grande espreguiçadela para alinhar a espinha, fui às pressas fazer o meu chichi matinal na árvore do costume e aproveitei o resto do líquido e marquei mais algumas.

Já tinha perdido esse hábito canino, uma vez que na propriedade era só eu, e nenhum outro quatro patas a disputar o território, a não ser uns felinos que volta e meia apareciam por lá. É claro que levavam logo uma corrida, ainda que bufassem e um ou outro armado em valente se eriçasse e me ameaçasse com a pata, a sorte deles era subirem a uma laranjeira ou saltarem o muro.

De modos que eu sou – oh melhor! Era, o que se pode dizer o rei cá do sítio. Digo era, porque aqui há dois meses atrasados meus donos apareceram com um mogengrito, negro como um tição. Tão preto, tão preto que só se vislumbra a língua por ser cor-de-rosa ou quando arreganha as fuças e deixa ver os dentitos de rato que tem.

Mal ele chegou, começou logo por estragar o doce ambiente em que eu vivia. Desde o ganir matinal de puto ranhoso a um latir mal afinado, fazendo coro com a cantilena da passarada e não saber que não se deve descarregar a tripa em qualquer sítio. Tudo isso contribui para que eu não veja aquele infeliz com bons olhos. E depois, ainda vem com aquelas brincadeiras infantis que me aborrecem, obrigando-me a mostrar-lhe os dentes para ele saber que eu gosto de respeito, mas não! O mafarrico só lá vai com uma mordidela que o faça cainhar. Mas depois é o diabo, aparece logo um dos meus donos aflitos pelo choro do escurinho e é a mim que me ralham. Para além de ser um destruidor de primeira. Não há chinelo ou sapato que lhe esteja à mão que ele não destrua. Mas é bem feito, para os meus donos valorizarem aqui o velhote. Velhote que nunca lhes deu um desgosto, mostrando bem a diferença de um Samoiedo com pedigree, e um rafeiro que se diz pastor Belga.

Ando com uma ideia atravessada, que não sai da cabeça. Parece-me que o pingente me anda a roubar os mimos. Porque já não é a primeira vez que eles me ralham, só porque rosno quando o puto me vem chatear.

Caramba! Um animal também tem a sua dignidade! Aparecem com aquele monte de pulgas e eu é que o tenho que aturar. Tenham a santa paciência, mas comigo não! Que obrigação é que tenho em aturar as más criações do fedelho? Numa altura da vida em que quero é sopas e descanso, e já agora um osso para tirar o sarro dos dentes, não tenho paciência nenhuma. É que já cá cantam doze primaveras e no equivalente já os humanos estão aposentados, e há muito!

Mas como dizia, tenho andado com a sensação que já não querem saber de mim, talvez por já ouvir mal e não responder de pronto às chamadas.

Hoje resolvi pôr à prova o quanto valho para o meu dono. Como de costume levou-nos a passear pelo meio do mato, de súbito para o experimentar, dei meia volta e pus-me a andar pelo mato dentro indiferente aos apelos dele. Como não dava sinais de o ouvir, ele largou o cachorrito e correu a bom correr para me ir buscar. Todo arranhado (palavra que até me deu pena) e depois de me apanhar e meter a trela, pensei ia que ralhar, mas não. Acarinhou-me e embora não mais soltasse a trela regressamos para casa deixando-me inchado de orgulho. Afinal o meu dono ainda gosta de mim!

2 thoughts to “Questão Canina”

  1. Espetacular caro Lorde!
    Buscar inspiração para um conto amparado em dois cães é para quem sabe!
    É a sequencia da vida pois o velho vai dando lugar ao mais novo, apesar do jovem e incoveniente “escurinho”.
    Não posso deixar de admirar a nomenclatura dada às necessidades fisiológicas: “não se deve descarregar a tripa em qualquer sítio.”.
    Procurei a palavra que pudesse exprimir o meu sentimento mas só encontrei a tradicional: PARABÉNS!

    1. Muito obrigado, querido amigo! Não tanto pelo elogio, mas pela sensação que o actor tem de não estar actuar para uma sala vazia. Um abraço deste lado do Oceano para si, Flavio Dias Semim.

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