Quem é Você?

 

 

 

 

 

(São Gonçalo – RJ)

Foi em um carnaval.

Faz muito tempo.

Me lembro vagamente. Era um palhaço lindo. Todo colorido, uma máscara delicada, diferente dos palhaços vestidos pelos homens. Portanto era uma mulher. A máscara não era de tela como costumavam ser as máscaras. Era uma pintura estilizada no rosto. Com cores vivas, cores fortes. Vou tentando lembrar.

Tinha roxo.

Tinha cor de abóbora.

Tinha lilás.

E tinha um sorriso lindo. De dentes brancos que pareciam marfim.

Ela falava com uma voz disfarçada, com um leque na mão, sempre abanando, na direção da boca, e ela só tirava o leque assim rapidamente só para exibir os dentes e o sorriso.

Fui ficando tonto.

Inebriado.

Os olhos acho que eram amarelos meio esverdeados. Sei lá. Podia ser uma bruxa, uma feiticeira. Mas não. Era um palhaço que ia falando coisas a meu respeito com um conhecimento absurdo e eu nem mais prestava atenção no que ela falava.

Estava magnetizado.

O lança-perfume eu espirrava nela e no lenço.

Toda perfumada.

Ela dizia o nome dos meus pais, dizia o nome das minhas irmãs e dizia o nome de uma moça que eu era apaixonado e a moça me esnobava, me judiava, me desprezava. Eu a seguia, eu queria ela por que queria. E o palhaço ria de mim, ria da minha cara, ria do meu fracasso com esse amor malfadado e ia falando nome de outras mulheres numa dor sádica. Percebi dor quando ela foi enumerando lentamente. Acho que falou em uma tal de Vera, Ângela, Rita, Cândida, e eu não escutava mais nada. Só olhava para aquele palhaço todo jeitoso, todo bailarina, e o meu coração não sabia mais em que ritmo batia. Descompassou. Acelerava. Desacelerava.

Confetes, serpentinas.

Os corsos passavam.

Passavam blocos.

Os sujos, pais-Joões, coelhinhas, freiras, padres, negas-malucas, enfermeiras, pierrôs, colombinas, bate-bolas, Neros enrolados em lençóis e enfiados em uma coroa de louros, índios, bois dando cabeçadas sem direção e sem pernas obedientes, piratas, caciques, nenéns de fralda e chupeta, babás, loucos e loucas de hospício, Napoleões, anões, gigantes, Cabrais e Colombos em naus desgovernadas, menestréis apaixonados, índias alucinadas, e eu não via nada disso.

Não enxergava mais nada.

Éramos somente eu e o palhaço.

Nem avenida havia mais. Não havia mais chão, não havia mais firmamento, não havia mais eu querendo existir naquele carnaval.

Foi quando eu perguntei.

Quem é você?

Ela tirou o leque do rosto, se aproximou de mim, morri, olhou no fundo dos meus olhos, colocou a mão esquerda enluvada no meu rosto, sorriu e deu uma rodopiada, a rodopiada mais linda e charmosa que eu vi na minha vida. E olha que eu já vi várias rodopiadas.

Foi embora.

Rodopiando, girando.

E depois de muitos anos, não tantos assim, eu conheci a avó de vocês. Namoramos, casamos, e ela jura que não guarda nenhum segredo. Nem de carnaval, nem de palhaço, nem de trote, nem de sedução.

 

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