Que Se Dane

 

 

 

 

 

(São Gonçalo – RJ)

Rafaela recostada no sofá.

O disco na vitrola rodando suave. Na mão de Rafaela um copo de caipirinha. Levinha. Pensamentos. O cigarro no cinzeiro ao lado de um pratinho com salame e pedaços em cubo de queijo gorgonzola, no braço do sofá.

Rafaela queria ficar ali. Estava disposta a não fazer absolutamente nada. Que se dane. Droga, sete horas da manhã e já bebendo feito uma louca. Que você tem com isso? Ninguém tinha nada com isso. Mesmo porque Rafaela estava sozinha naquele segundo. Sozinha! É brabo! Você tem um casamento de não sei quantos anos e bota ano nisso e de repente o fofinho olha na sua cara, dentro do seu olho, pra não deixar dúvida, pra não ter como correr, como disfarçar, como fingir que não está ouvindo, e calmamente diz que está em outra e que você já não serve pra mais nada. Nada!

Que isso?

Rafaela recostada no sofá. José da janela a olhava como querendo coragem, pensativo.

Isso foi quando?

Tudo muito confuso. Rafaela cuidando das crianças. Dedicada. Deixando a vida dela se revigorar dentro daquela casa. Havia o trabalho dela. Profissional. Cuidava de um escritório de arquitetura, mas era naquele apartamento com José que ela era feliz. Não queria saber dos conselhos da mãe que vivia dizendo que homem não merecia tal dedicação. Rafaela sorria e não deixava de fazer José feliz. Feliz como ela era feliz. Cuidando dos afazeres domésticos. Quer detalhe? A mãe lembrava a ela de Filomena. Lembra de Filomena? Aquela coitada que cuidava do marido como se o marido fosse um rei, pior, como se ela, a Filó, não existisse, não tivesse importância nenhuma. E quer saber você tá igual. Nem a tua vó, isso, a minha mãe, nem a tua vó, Rafaela, nos anos 1920, tratava teu avô como você trata José. Que isso menina… José pode ser até isso tudo que você diz aí, que você prega inconteste. Apaixonado, amoroso, ardoroso, que isso mamãe, ardoroso, fogoso, atencioso. Pode ser isso tudo. Mas o mundo é redondo, a vida gira, o mundo gira, e você sem amigas, sem vida social sua, somente sua, sem que o José esteja inserido. Tudo é José. Você não sai com as amigas, e olha que você tinha era amiga, amiga, amigo, amigos. Tinha até aquele que arrastava uma asa pra você. Lembra dele? Otávio, sim, aquele rapaz bonitão, todo bem arrumadinho, bem posicionado na vida, cheio de ambição, indo longe, gerenciando os negócios do pai. Rafaela aqui piscou. E José? Qual é a ambição dele? Hem? Professor de escola pública, anda todo esculhambado, tem a patota dele, futebol no fim de semana, e você dentro de casa. Vou te falar, não queria te falar não, mas vou falar, quando você cair, quando ele te trocar por outra, quando ele cansar de ver você só de avental, só preparando o pratinho dele, só cuidando dos filhinhos, que já estão crescidinhos, quando você cair, minha filha, acho que nada mais vai se juntar dentro de você. Só caco, só migalha, farrapo, só andando pelo apartamento, velha, sem ter alguém pra sair. Sabe, você vai se tornar uma mulher sem sal, desinteressante. Logo você. Tão inteligente, tão bem criada. Quando ele te trocar por outra… Não é praga não. Mas você vai acabar sem ninguém por perto. Você foi afastando todo mundo da sua vida, foi jogando todo mundo fora. Rafaela ria meio sem graça, meio cínica. Sorria. Não ria nem gargalhava. Sorria. E a mãe sem pena continuava dizendo que a filha tinha rasgado todos os contatos telefônicos, se esquecido de todo mundo, fechado a vida dela e vivendo a vida de José. Já parou pra pensar? Os seus amigos não são seus amigos são amigos de José. As festas, as viagens, os restaurantes, tudo tem que ter José. E, pela última vez, e se José for embora?

E José criou coragem e saiu da janela.

Rafaela recostada no sofá.

Quanto tempo tem tudo isso?

José saindo da janela, levantando Rafaela do sofá, segurando o rosto dela. Olho no olho. Vai correr pra onde sua burra? Vai se esconder aonde? Vai fingir que não é contigo? Vai cair e ficar de quatro? Quer ir, amor da minha vida? Vai. Bem que a minha mãe me avisou que esse dia ia chegar. E agora o que eu faço José? Como eu vivo se tudo meu está contigo? Se tudo que é meu não me pertence…

E a vida girando.

Pensamentos. A caipirinha descendo suave. Sete horas da manhã. Que nada. A noite ainda não havia terminado e Otávio, saindo do banheiro, meio que molhado, totalmente nu, se enxugando pelo caminho do corredor e da sala, pegou o outro copo de caipirinha, que já esperava por ele encima da mesa, e foi se sentar ao lado de Rafaela.

Antes de se sentar, deu um beijo na testa de Rafaela, deu um trago no cigarro dela e sem muito estardalhaço lembrou a ela que daqui um pouquinho ela tinha que ir para o trabalho.

Que se dane! 

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