Pedaço de Papel Encontrado

 

 

 

 

(Salvador – BA)

“PEDAÇO DE PAPEL ENCONTRADO NUM GUARDA-ROUPA DA CASA QUE MEUS PAIS ALUGARAM”

 

Eu sou “Peach”.

Não é meu nome verdadeiro, obviamente. Se você encontrou esse papel, é porque algo terrível aconteceu. Melhor dizendo…, pessoas morreram. Portanto, parte de mim espera que você tenha encontrado. E parte de mim, não. Minha história é curta e não tem nada de grandiosa. A única coisa grandiosa é a bizarrice, que a assola e que assola todos os meus desejos e prazeres. Sempre fui muito tímida e tive poucos amigos…, se é que poucos amigos e nenhum, passaram a significar a mesma coisa. Com treze anos fiquei bonita. Sou bonita. Tenho lábios rosados, olhos azuis, uma separação entre os dentes que é charmoso, sou magra, mas tenho seios grandes, uma boa bunda… Senti que minha sorte mudaria nessa idade, e à princípio achei que realmente estava tudo ficando melhor, quando conheci o “D”. Começamos a namorar, transamos na primeira semana de namoro, e ele me largou na terceira semana. Na quinta… – semana -, um vídeo que fizemos, transando no quarto, vazou na internet e na escola. Fiquei famosa, consegui toda atenção que sempre quis. Meus pais assistiram o vídeo na sala do diretor, que explicava o porquê de “a escola não poder agregar esse tipo de aluna”, e que talvez uma escola pública fosse o melhor para mim. Meu pai parou de me olhar a partir daquele dia… ele não conseguia me olhar. E pouco falava comigo também. Minha mãe me deu uma surra… ela simplesmente chegou um dia em casa, algumas semanas já tinham se passado desde o acontecido. Ela me encarou… disse que teríamos que cortar despesas… e então ela se aproximou e começou a me bater, no início sem força…, só que sua raiva aumentou e ela começou a me espancar. A coisa foi ficando bem séria. Ela pegou coisas pra me bater. Teria me matado se meu pai não tivesse chegado e tirado ela de mim. Um médico amigo do meu pai foi em casa à noite e me fez curativos. Ele me olhou de um jeito doce. Por um minuto eu pensei que as coisas melhorariam a partir dali. Ele passou a mão em minha virilha, se agachou em mim e enfiou a mão em minha xoxota e me mordeu… com força. A dor foi terrível. Excruciante. Eu gemi. Eu gostei. E deixei ele me violentar. Tenho certeza que meus pais sabiam o que estavam acontecendo, mas eles já não gostavam mais de mim… na verdade eles me odiavam. Uma semana depois de transar com o médico, eu estava sentada ao lado da minha cama, quando escutei a porta do meu quarto se trancar. Preciso ser rápida nesse relato…, então quero ser direta. E simplesmente dizer que, dois dias depois, a porta foi destrancada. Eu estava faminta, fraca… e com muito ódio. Minha mãe entrou, segurando um prato com um pedaço enorme de carne crua e que parecia estar prestes a estragar, pelo cheiro. Ela segurava um telefone antigo, com o fio arrastando pelo chão. Eu não entendi o que ela fazia com aquilo até ela o acertar a minha cabeça pela primeira vez. E depois vieram muitas outras. Eu não reajo quando me batem. Talvez eu goste… Desmaiei. Acordei sem saber porque ela tinha feito aquilo, mas não importava. A carne estava ao meu lado e já era noite. O meu quarto não tinha mais luz e nem energia elétrica à noite já há alguns dias. Mas a lua o iluminava. Minha cama estava imunda e fedendo a esperma e urina e de repente eu achei que o meu guarda-roupa parecia ser bastante confortável. Entrei e fiquei lá, segurando o meu prato com aquele montão de carne crua. Comi o primeiro pedaço com nojo, mas estava faminta, então dei uma bocada com bastante gosto. Senti uma coisa se quebrar dentro de mim. Tive um orgasmo. Em pouco menos de dez minutos devorei quase um quilo daquela carne crua e estragada. Alguma coisa se quebrou, caro amigo que me lê. Lhe repito… alguma coisa se quebrou naquele momento…, dentro de mim. Recebi a visita do meu antigo namorado e eu o matei em poucos minutos. Ele chorou ao me ver. Disse que soubera que eu tinha enlouquecido. Tentou me beijar. Mas eu estava com fome. Ele me dava fome, e ódio. Havia algo nele, em seu suor, em seu cheiro. Em suas feridas de esportista. Eu disse que ia vestir algo mais excitante e pedi para que ele se deitasse, e então eu carreguei o criado mudo e enfiei com força em sua cara várias vezes, chegando a ouvir um barulho de melancia se abrindo. O barulho me deixou excitada e com a boca salivando. Meus pais entraram no quarto e me encontraram comendo os restos de sua face e olhos. Eu enfiava com ajuda das mãos, rapidamente, pedacinhos de sua bochecha e língua, cuspindo os ossos e pelos da barba, nariz e sobrancelha. Meu pai vomitou, enquanto minha mãe gritava coisas que eu não conseguia… e nem queria entender. Depois eles me arrancaram de lá. Eu não resisti. Estava satisfeita. Passei quase quatro dias trancada no guarda-roupa. O quarto se abriu e eles dois entraram com uma focinheira do nosso velho cachorro São Bernardo. E ao seu lado o próprio cachorro, que estava morto e já cortado em pedaços. Era um banquete. Entregaram a mim e me observaram comendo, sérios, pasmos. Depois puseram a focinheira em mim e eu resisti, ainda com a carne pendurada em minha boca. O Rex tinha a carne dura. A carne do D. era bem melhor. Pessoas eram melhores. Meu médico entrou, na manhã seguinte. Ele parecia incrivelmente assustado no início. Meus pais saíram e me deixaram com ele. Quando eu o vi, dei um sorriso safado, e suspendi o meu vestido, mostrando o meu corpo pra ele. E mesmo amordaçada e sem banho, ele me comeu. E mais uma vez me mordeu, avidamente, em vários lugares do corpo. Eu me contorcia sem parar e queria gritar, mas a focinheira deixava as minhas mandíbulas doloridas. Aquilo era muito bom… bom demais. Eu queria mais, eu queria devorá-lo inteiro. Pedi pra que ele tirasse a focinheira e me deixasse beijá-lo em todo o seu corpo. Disse que o amava, e que iria embora pra casa dele se ele quisesse. Ele era feio, gordo… nojento, parecia um porco. Eu o adorava. Tirou minha mordaça… eu me deitei sobre ele e transamos até deixá-lo exausto. Então eu arranquei metade de seu pescoço numa só mordida. Foi o momento mais feliz de minha vida. Observei-o agonizando e morrendo lentamente. Arranquei seus olhos com uma colher… deu trabalho. Os filmes de terror fazem parecer bem fácil, mas não é. Depois o jantei todinho. E o comi no café da manhã e em seguida no almoço e depois no jantar. Quando meu pai entrou, sobrara pouco dele e eu estava muito mal. Tinha comido demais, estava praticamente desmaiada e minha urina e fezes estavam misturadas aos restos do doutor, espalhados por todo o quarto. O que quero dizer… por fim, meu amigo, é queria dizer… é que se você está me lendo agora, é porque algo aconteceu… ou comigo, ou com meus pais. E sinceramente, espero que tenha sido com eles. São seres humanos desprezíveis. Eles não têm o que acrescentar ao mundo, espero que você acredite nisso. E como você pode ver…, sou uma garota adorável, você com certeza teria muita sorte em me ter por perto. E neste momento, eu estou com muita fome… e talvez, livre, afinal.

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