Pazes

 

 

 

 

(Itabi – SE)

O exílio da cama amante me fora determinado há poucas horas, quando ainda estávamos sob efeito de algo que se desconheça e que, muito provável, só exista para nós dois. Depois de uma palavra mal postulada e da irritação colérica masculina, pus-me de corpo usado a caminhar de volta para casa, num escuro noturno equivalente às minhas pernas fechadas nos segundos seguintes ao abajur ser desligado. O frio do ar congelava minhas mãos e fazia com que a inspiração queimasse as narinas expostas e úmidas pelo choro amiúde que me pegou quando a porta da casa dele se fechou. A cumplicidade colocada em teste quando foi feito o questionário singelo traz à tona mais de nós do que qualquer outra coisa tida como nossa: não sei se existe alguma coisa que realmente acuse minha dúvida ou se minha desconfiança faz do amor uma coisa que precede lugar ao rompimento. Quartas que tardam mais que as terças e que se arrastarão por mais tempo que a quinta e a sexta são motivos, sucessivas quedas de área e fins de bateria denotam algo muito maior que pura e inofensiva coincidência. Um apelo muito grande ao perfume, a perfeita limitação dos fios de sua barba e a virilha intocável e límpida – que eu nunca me importei, parecem feri-lo mais do que a mim, cuja mente coçou durante semanas de análise para ponderar se esses motivos e mais outros que não foram listados mereceriam, então, ser sintetizados na forma de uma pergunta simples e fatal: há outra que beija-lhe quando não o faço?

Os gritos revoltosos cheios de ódio e excedidos por uma saliva engrossada pelo veneno da contestação foram jogados contra minha face e caíram amolecidos no chão que sustentava um corpo traidor, segundo ele próprio diria. A negação poderia vir acompanhada de porquês e explicações, mediadas entre segurança e desprezo; eu poderia ter sido desqualificada, até. Mas gritar-me como se fosse eu a pessoa que reivindicou a cama por tantas vezes que ela perdera seu cheiro, não fora eu a pessoa que negou o jantar típico das quintas (quando cozinhávamos um para o outro) porque o vinho e o queijo da companhia tinham acompanhado a conversa e enchido seu estômago já saciado. A minha revolta parte de um ponto único que nos sustenta e diferencia: fora eu que chorei mergulhada na dúvida, na angústia de querer saber e não ter o poder de falar sem magoar uma relação; fora eu que jantei duas quintas seguidas o prato favorito e gelado dele. E ainda falando de mim, da besta fêmea que sempre mancha-se pela culpa, sou eu quem volta sozinha e abandonada para uma casa que, novamente, só terá a mim.

A escuridão ainda ocupa o vazio do meu apartamento, o rádio desligado frisa a lembrança dos dias corridos em meses que habitei um espaço que hoje não é mais lar. Apanhei os papéis que meu antigo e mais novo vizinho jogava semanalmente pela fresta entre madeira e madeira e ordenei-os sob o tampo de vidro da mesa pequena de jantar, recolhi uma taça de vinho suja e levei até a pia que não tinha nenhuma louça e não requeria de mim a tarefa de lavá-la, caso aquela tivesse sido minha casa nos últimos tempos. Busquei outra peça de mesma forma no armário quase vazio, típico de quem vive só e enchi com um vinho que parecia gelo líquido, de tão gélido que foi seu toque em minha língua. Continuei dando os goles lentos, sentindo minha língua lavar-se no vinho marejado dentro da boca, tentando a cada engolir, tirar o gosto da carne que tinha chupado. Fechei os olhos e recriminei as dúvidas que eu sabia estar por vir. Não, não foi errado ter medo do fim e tencionar a ideia de uma traição; acontece com todas, com todos os casais. Por que, logo eu, estaria isenta da maldição daqueles que parecem não conseguir viver só? – aqueles, nós, humanos. Não somente os homens dotados de saliência e bolas.

Fui-me esquecendo de que o vinho também tem fim e quando o nada me veio a garganta, percebi que estava só. Mais uma vez. Quis chorar de saudade, arrependimento e agonia pela bagunça que se tornara minha vida a partir do instante que decidi me posicionar: não sei se tenho uma pessoa ou se deixamo-nos com a dúvida de uma terceira existência num plano que ficara acordado comportar dois; não sei se sinto-me triste ou raivosa pelo rumo que as coisas tomaram; não sei se choro ou se encho meu corpo de álcool para que a dormência da droga alivie a realidade e me faça imatura outra vez e, quem sabe, assim, uma ligação possa ser feita, um pedido de desculpa seja dito ou um confesso de saudade seja proferido com tom molhado de dor eruptiva. Mas, antes que meus olhos conseguissem arrancar do meu corpo força suficiente para arder sequer, um toque na porta me fez despertar. Não era um toque de chamado, mais parecia com um esmurrar recluso. Caminhei com passos lentos até me aproximar da porta e tentei ouvir por detrás de dois segmentos: a minha respiração e a porta, sendo notável dizer que a primeira pesava e impedia mais do que a madeira maciça e marrom, não foram capazes de impedir que o expirar dele fosse audível a sensibilidade forçada dos meus ouvidos gritados. Ouvi ele respirar fundo e meu coração amoleceu com tamanha intensidade que senti o líquido quente do seu despejar gotejando entre meus vãos corporais. Quis beijá-lo. Quis arrancar pedaços do meu amor aos dentes e desculpar-me em seguida, culpando o amor e a ele mesmo. Quis gritar de volta e ferir seus ouvidos assim como ele feriu os meus. Contudo, a única coisa que me permiti fazer, impulsionada por meio caráter infantil e meio persona aventureira, foi uma outra pergunta: o que você quer?

Você. Sucederam-se arrepios de pontos a pontos que não se pode imaginar, a voz embargada pelo choro e pelo receio de um futuro sem esse nós que fora criado adoçou o tom masculino com uma fragilidade que não consigo descrever. Destranquei a fechadura, abri meus olhos no mesmo instante e rompi meu coração em fragmentos dele quando assimilei sua figura esmagada diante de mim. Fiz de mim um veículo transmissor de todo o questionamento que tinha me afligido o peito durante o período em que ele se ausentou do meu mundo; a face que não teve tempo suficiente para molhar-se parecia a ele um baú perpassado de mistério e mística: não sabia se ainda o queria, se meu nome dito em voz alto tinha surtido efeito nos hormônios ou se me transformara numa coisa passada que já esfriou e perdeu sabor – assim como seu risoto, eu diria muito mais tarde, passando-lhe na cara seus erros. Disferi golpes oculares sob o olhar atento dele e um pedido de desculpas me fez falhar: não teve intenção, as coisas parecem, de fato, se encaixar numa traição, mas sua boca era tão minha quanto a curva da minha cintura.

Fique firme, fique firme, repetia e sequer pisquei enquanto sustentava nossos olhares. Nada justifica a sua explosão, mas ele não consegue se controlar diante da acusação que lhe fora feito, pois odiava traição e somente em imaginar-nos diante de uma situação semelhante, pôs-se em estado de euforia. Engoli a saliva acumulada com mais facilidade, nada de novo e imprevisível. Ama-me demais, é sufocante a ideia de perder a mulher que mais amou em toda a vida. A partida mais dolorosa é aquela que sucede um grito que cala o outro. E ele não quis me calar. Não quer, jamais, me fazer silenciosa. Ama-me demais para isso. Quer me ouvir falar. Diga alguma coisa, por favor. Não suporto a tensão do clima e, num ato de fraquejo, abaixo o olhar. Minha visão pesa e quero chorar: não sei se de alegria ou de remorso.

Fecho a porta silenciosamente e massacro seu coração com a dúvida que a ausência de voz sugere na nossa relação, mas não faço porque quero e sim pela necessidade do reatar pedir isso, pedir a surpresa e o ineditismo. Beijo sua mão e todos os músculos do seu corpo parecem ser dotados da capacidade de respirar, pois do seu corpo sinto um hálito só de toda sua extensão que expira o ar preso de ansiedade. Carrego meus lábios para junto do formato curvado do seu pescoço e deixo minha língua vaguear por ali, puxando e afastando o cheiro do lençol que forrava a cama que ele abandonou em prol de recompor; minha língua zonzeia por cima duma veia que sobressai quando ele canta meu nome dentro do cacho, quando ele respira fundo o cheiro do cabelo amassado e que presenciou anteriormente a força de mãos e puxões. As mãos sobem e descem no meu tronco não com o desbravo de quem anseia cutucar um desejo adormecido, mas sim com a impaciência de quem não sabe onde está e se limpou a merda toda do chão antes de ser suficientemente seguro sapatear sobre ele sem escorregar. Ele para, me olha e faz a pergunta desta vez: estou perdoado? Há o que se perdoar? Não, não há. Mas estou perdoado pela burrice de não saber me defender sem ferir o outro? Não, não está.

Mordo o lábio inferior e ele percebe a astúcia do meu tom. Deixo seu corpo vagando e ocupando a entrada fechada do apartamento e sigo esses passos: paro em frente à mesa de vinis, afasto as poucas capas que cobriam-lhe, desfaço o nó malfeito do vestido e desnudo-me sem olhá-lo, arranco a calcinha do meio das minhas pernas e sinto seus passos trazerem-no para junto de mim, para que seus olhos pudessem acreditar que a magoada mulher é capaz de realizar tamanha façanha. Viro, vejo seus olhos surpresos e sinto a respiração dele ressecar os lábios que são constantemente umedecidos e sinto que excito, que me encho de fogo. Não perdoo fácil, amor. Digo e ouço sua resposta: ele tampouco. Então me castigue, peço.

Dou passos lentos e arrumados para trás, sinto minha bunda alva chocar-se contra o quadrado do móvel e faço uma força ínfima ao me apoiar nele. Abro-me frente aos seus olhos e enlouqueço quando ele arranca sua camisa, aproxima-se de mim e beija-me com um puxão nos meus cachos e me faz parte dele, faz com que minha língua volte a ter seu gosto. Um selo nos lábios e nossos olhos não estão mais frente aos meus: veem, agora, outros lugares; sua língua não beija a minha, mas beija outros lugares mais quentes – e recordo-me agora, nesse relapso de memória de uma época em que esse nós ainda existia, que esse era meu modo favorito de desculpar.

2 thoughts to “Pazes”

  1. Gostei da leitura, mas acho que o texto é mais uma poesia do que conto. O que me incomodou um pouco foi o excesso de adjetivos pra a construção das frases, o rebuscamento ficou exagerado. É um texto erótico suave, não tem palavrão e nem beira o pornográfico. Mas a professora Ludmila tem razão, não é leitura para crianças e gostei e apoio a ideia dela, de ter uma secção para contos eróticos, assim, poderei mandar o meu; Uma Garota Chamada Naja Hollander, leitura para adulto, é claro!

  2. Sou professora do ensino fundamental e várias vezes indiquei contos deste site para meus alunos fazerem trabalhos escolares, pois a qualidade das publicações são adequadas. Porém, estou revendo minha orientação após a publicação deste “Pazes”, pois o considero inadequado para uma literatura sadia. Melhor seria o blog criar uma secção reservada a contos eróticos ou pornográficos para evitar decepções como a minha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *