Pato Mal-Humorado

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(Presidente Prudente – SP)

biguaEle subia voando sobre as águas do rio e descia boiando, sempre atento e a cada pouco mergulhava para surgir logo adiante balançando a cabeça e chacoalhando as penas, flutuando e mergulhando rio abaixo, novamente. Numa de suas passagens pelo local à beira do barranco onde o homem se encontrava, ouviu o comentário do pescador:

-Tá ruim de peixe, hoje, hein pato!

Na volta de mais uma de suas subidas e descidas, ele chegou bem perto do homem, quase junto da sua vara de bambu fincada na beira do barranco e respondeu:

-Eu não sou pato, seu imbecil. Eu sou um biguá, também conhecido como mergulhão e meu nome científico é phalacrocorax brasilianus.

Após o susto, incrédulo em ouvir um pato falar o homem ainda teve tempo de responder, antes que a ave sumisse sob as águas:

-Eu ainda acho que você é pato, por causa da sua voz rouca, de taquara rachada, mas pato, biguá ou mergulhão, o que dá pra ver é que você é um “vida mansa” né? Passa os dias pescando, pode voar, pode nadar, mergulhar, não tem problemas na existência!

Ele submergiu logo adiante e apareceu bem à frente do pescador, visivelmente mais irritado, respondendo:

-Olha quem fala! Você, humano, sentado aí, pescando por divertimento e não para sobreviver, acomodado sob a sobra desse frondoso ingazeiro, com água gelada ao lado para beber – se é que é água mesmo, pois estou acreditando que seja cachaça – um lanche de mortadela e latinhas de cerveja, iludindo os peixes com isca, já que não tem coragem de vir pegá-los a unha, ou melhor, a bico como eu. Portando, você que é o folgado e além de tudo um legítimo 171, já que caça o peixe por trapaça, enganação.

E sumiu dentro das águas, passando voando novamente pela frente do pescador sem sequer lhe direcionar o olhar e ao voltar boiando e mergulhando, parou novamente naquele local.

-Alô, pescador ruim, você é burro mesmo, já que não vê que eu tenho minha vida difícil, isto é, dependo só de mim para matar minha fome, vivo somente desse tipo de alimentação, passo horas, às vezes o dia todo sem conseguir um peixinho para me manter alimentado. Voo dezenas de quilômetros, navego outros tantos, mergulho centenas de vezes e a noite, exausto, muitas vezes faminto, recolho-me para dormir em uma árvore congestionada, ao relento, disputando lugar com meus semelhantes, para no dia seguinte, logo cedo, recomeçar a minha odisséia!

Em novo mergulho rápido, subiu com um pequeno vertebrado aquático no bico e começou a luta para poder virá-lo no sentido do comprimento, única forma de poder engolir o peixinho, pois quando o pega é pelo meio e começa, então, a dupla luta; a primeira não deixar fugir a refeição que se debate muito e a segunda é escapar daquelas garças brancas vadias, que ficam vagabundeando o dia todo, só olhando e agora já estão em sua volta, voando e tentando roubar o alimento conquistado com tanto trabalho.

O homem, rindo da dificuldade e do jeito do biguá, sentiu até pena dele, mas o que fazer? Vencida a luta, a ave novamente se colocou na tarefa diária e mais uma vez disse:

-Estava rindo do que, seu idiota? Viu só como é difícil a vida de uma ave aquática?

Procurando fazer amizade com o biguá, o pescador falou com voz pausada e tranquila para a ave:

-Pato, você sabe a história da existência dos biguás? – sem esperar a resposta continuou:

-Conta-se que há muito tempo um índio Guarani de nome Ibigua, valente e vigoroso guerreiro de sua tribo, vivia feliz com sua esposa Thainá em sua aldeia às margens de um grande e formoso rio. A beleza da índia Thainá, cujo nome significa “estrela” provocou o desejo de outro guerreiro, o Itagi, pertencente a uma tribo vizinha que, uma noite escura, sorrateiramente raptou Thainá fugindo em uma canoa rio abaixo. Ibigua perseguiu e matou Itagi, porém Thainá desapareceu. Por alguns dias percorreu o rio gritando forte e alto para as águas e para as margens em direção à mata, porém somente o eco de sua voz respondia. Convencido que Thainá se afogara, pulou nas águas caudalosas daquele rio a procura do corpo da amada, mergulhando e subindo à tona para respirar por inúmeras vezes até que suas forças se esgotaram e submergiu definitivamente. Tempos depois os índios da aldeia notaram que uma bela ave de plumagem negra sobrevoava o rio, quase rente as águas e insistentemente mergulhava a cada pouco, incansável. O pajé da tribo, homem sábio, explicou que Ibigua se transformou naquela ave e continuava procurando sua amada Thainá em algum lugar do fundo do rio. Com o passar dos tempos o nome Ibigua foi naturalmente modificado para Biguá.

-Linda, bela história – respondeu a ave já acomodada quase ao lado do pescador. E seguiu:

-Você, homem, apesar dessa aparência de mentecapto, de tolo, não é tão desagradável como parecia. Por isso, a partir de agora vou permitir o tratamento de pato, por você seu abestado, mas só você, combinado?

A partir de então, ambos ficaram amigos e quando o homem, pescando a beira do rio encontra o biguá que passa voando baixo, chama-o:

-Olá, pato ranzinza, como vai?

-cra, cra, cra – responde o biguá, sem olhar para o lado.

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