Papel de Pão

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Quem tem os cabelos branqueados ou é calvo por obra do passar do tempo deve lembrar quando o pão, nas padarias, era vendido em bisnagas ou “filão” como era denominado e servido envolto em um papel de baixa qualidade, liso, branco-amarelado, com pequenas manchas claras parecidas com uma marca d’água, porém muito útil para escritos, anotações, lição das crianças e para se confeccionar barquinhos de papel.

“Seu” Manoel, português dono da padaria da esquina, como sempre a padaria estava na esquina e o dono um português. Seu estabelecimento de muito movimento, praticamente único no bairro dava condições ao português não ser muito amável com a clientela e, consequentemente, com os empregados. Homem rude, embrutecido pela difícil vida de imigrante, sofrido pelas dificuldades do além-mar, pouco ou nada letrado, porém hábil numa conta de somar, para isso tinha sempre o inseparável lápis colocado atrás de uma das orelhas.

Nascido em Trás-os-Montes, aos 41 anos um tipo de estatura baixa e robusto com a calvície já se mostrando intensa e a barba negra, cerrada, como todo lusitano. Suas maneiras ásperas davam mostras de uma educação grosseira, mas para quem o observava com atenção encontrava, apesar de sua fisionomia séria, uma bondade oculta no seu interior, pois jamais deixava de dar algum pão a um pedinte esfomeado, entre outros atos mais generosos.

Marcante era o fato de existir, nas costas da máquina registradora do dinheiro e exposto de frente para o público, um papel de pão manuscrito em letras maiúsculas com os dizeres:

“Suporto desaforos, sou ignorado, engulo grosserias, esqueço patadas e as pessoas ainda querem que eu seja sempre amigável”.

Ativo e vigilante a todos os movimentos atendia naquela sua padaria pela manhã de um dia comum na cidade grande, quando ao embrulhar o pão pedido pelo primeiro freguês da pequena fila formada junto ao balcão foi censurado por este de forma não muito delicada, em razão de uma mancha existente no papel de embrulho. Alegava o cliente que o papel estava molhado pela cusparada que o Manoel expeliu ao gritar com o balconista ao lado, motivo das marcas fincadas no papel de embrulho do pão.

Com violência imediatamente o português devolveu a indelicadeza do já adversário, um nordestino jovem, de baixa estatura e cuja vitalidade era notada pela mostra de seus músculos, mesmo escondidos sob a camisa, força essa oriunda de seu trabalho como servente de obras na construção de um edifício próximo daquele local. Discussão e muitas palavras ofensivas de ambas as partes, o episódio foi, aparentemente, encerrado após ameaças de vingança pelo baiano e palavrões do português.

No dia seguinte, estava eu na fila da padaria para ser atendido, como costumeiramente fazia à primeira hora do dia, quando fui chamado pelo português:

Chega cá ao lado, doutore!

Nos fundos da casa comercial tendo um pequeno balcão a nos separar, o Manoel relatou-me o fato ocorrido na noite antecedente. Em tom baixo, reservadamente, disse que após fechar o estabelecimento na noite anterior, por volta de 23 horas, e seguir a pé para casa fora atacado pelo baiano, aquele mesmo brutamontes da discussão da manhã, que então lhe aplicou uma “gravata” pelas costas, apertando seu pescoço com os braços fortes e uma faca “peixeira” que trazia na outra mão, obrigando o portuga a engolir o pedaço de papel de embrulho de pão, trazido em um dos bolsos e motivo da discórdia daquela manhã.

Ainda muito abalado não deixou de repetir todos as obscenidades proferidas naquela ocasião, acrescentando: a ofensa maior foi que enquanto tentava comer aquele papel seco e sujo imposto em sua garganta goela abaixo, o sujeito agarrado em suas costas esfregava o seu traseiro e o apertava com movimentos circulares fazendo-o sentir o volume avantajado do que o agressor tinha por dentro da calça, entre as pernas.

Passei por uma grande humilhação, doutore, sentindo aquilo enorme esfregado em mim. Fui violentado – sussurrou o português.

Seguiu repetindo palavra por palavra o que lhe foi falado pelo baiano durante o bate-boca da manhã, nos termos em que foi gritado e nas condições em que foi dito, isto é, na presença de muitos fregueses. Pedia imediata ação judicial pelo fato ocorrido à noite, com a condenação do baiano por fuzilamento em paredão localizado em praça pública, com munição pesada e composto pelo contingente dos oficiais da artilharia militar.

Informado que sem testemunhas, pois a agressão física se deu à noite e em lugar ermo, sem marcas ou hematomas na vítima, sem meios de provar o fato e seu autor, não via possibilidade de êxito na pedida ação, além do fato que não temos em nossas leis a pena de morte, com o que ficou decepcionado o Manoel, mas com a promessa de ainda se vingar do baiano.

Passados poucos dias, estava eu na mesma padaria, fila e hora, quando fui chamado pelo nosso amigo:

Chega cá ao lado, doutore!

Atendi-o e naquela oportunidade relatou novo acontecimento: cheio de vingança, foi no dia anterior esperar o baiano à hora da saída do trabalho, junto à construção do prédio e ao ver o jovem agressor saindo em direção oposta, depressa correu entre os trabalhadores e pulou em suas costas tentando esganá-lo com as mãos, apertando com muita violência seu pescoço nos dedos lusitanos, procurando retribuir o feito do operário noutra ocasião, em verdadeira atitude de desforra. O baiano, porém era forte bastante e num golpe inverteu a posição, agarrando o portuga por trás, segurando-o entre os braços levantados e pelas duas orelhas com as mãos, passando a esfregar intensamente seu volume no traseiro do Manuel, agora com mais brutalidade, com mais força e movimentos circulares dos quadris mais intensos, num verdadeiro ato de estupro. Fatigado de tanto bater, após algum tempo, botou o lusitano para correr, não sem antes aplicar vários sopapos e um forte pontapé no assustado padeiro.

Passei por outra enorme humilhação, doutore! – confessou novamente.

Mas agora temos elementos bastantes e suficientes para responsabilizar o baiano, pois existem testemunhas oculares da agressão, lesão corporal, violência e tudo o mais necessário para uma boa lição naquele monstro. Vamos processar o malfeitor, “seu” Manoel! – respondi bem-disposto.

Aí então, para minha surpresa, numa atitude mais humilde e alegando estar extremamente constrangido, ao mesmo tempo em que lançando furtivos olhares ao redor assegurando que ninguém mais nos ouvia declarou:

Pensando bem, doutore, refletindo mais sobre os acontecimentos era melhor nada fazer, não valia a pena continuar com o desentendimento, vamos deixar tudo como está agora…

Cabisbaixo, encerrou o assunto jurando que não iria jamais abandonar a ideia de procurar o baiano, de agora em diante, porém, com amabilidade, sem rancor, sem brutalidades, sem violência, nada de agressões…

Um comentário em “Papel de Pão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *