Paixão – Navio Em Mar Agitado

 

 

 

 

 

(São Leopoldo – RS)

Certo dia, ao entrar num bar para comprar cigarros, encontrei meu amigo Jonas, de cara triste, sentado numa mesa bebendo cerveja. Comprei os cigarros e fui falar com ele.

─ Olá! Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?

Jonas me olhou surpreso e continuou de cara amarrada. Puxei uma cadeira e me sentei.

─ Quer dividir seu problema comigo? A gente se conhece há tantos anos…

Ele ficou indeciso, mas por fim decidiu falar.

─ Eu…estou apaixonado por uma mulher casada – disse ele, num fio de voz.

Fiquei surpreso, pois Jonas era casado com Judite há 15 anos e tinha dois filhos.

─ Você se separou de Judite?

─ Não, e nem quero me separar. Me apaixonei por uma vizinha e isso está me deixando louco! Ela não sai do meu pensamento! Alguma vez você já esteve apaixonado?

─ É claro!

─ Eu penso nela todo dia, toda hora. Imagino-a nos meus braços, a gente se beijando! E isso dói por que sei que nunca vai acontecer!

Tentei animá-lo.

─ Nada é impossível, meu amigo!

Jonas fez um gesto de desalento e continuou a falar num tom baixo.

─ Ela é casada e mora na mesma rua. Somos vizinhos e Judite já conversou com ela algumas vezes. Chama-se Silmara. Deve ter uns 30 anos, mais ou menos.

─ Ela notou que você tá a fim dela?

─ Sim, mas acho que não tem coragem, ou não quer trair o marido. Se a gente transasse, não sei como me sentiria depois, talvez me arrependesse, me sentindo culpado por estar traindo a confiança de outras pessoas, entende? De Judite, principalmente.

Sacudi a cabeça dizendo que sim, que eu entendia a situação.

─ A paixão é como um barco no mar durante uma tempestade – comentei – Você não consegue controlar o barco e a qualquer momento ele pode naufragar. A solução é ter paciência, mão firme e esperar a tempestade passar.

─ Exatamente! Isso está afetando meu relacionamento com a família e com o trabalho. É um sentimento que você não pode controlar, não pode arrancar de si como se fosse uma peça do vestuário. A atração que sinto por ela é muito forte e tenho certeza de que isso não vai passar tão fácil!

─ Seria bom que você não a visse, talvez parasse de pensar nela!

─ Como não a ver, se somos vizinhos e eu a vejo quase todos os dias? E não posso me mudar dali!

─ Você não tem que se sentir culpado por ter esse sentimento. Nem Silmara, se é que ela sente algo por você. Olha, ter uma amante é bem complicado.

─ Bem sei disso. E eu não quero me separar da minha mulher, eu amo ela! Quero viver ao lado de Judite, amo minha esposa e ao mesmo tempo, outra mulher. Pode isso?

─ Claro! Quero dizer, acontece. E o que você pretende fazer?

─ É isso que eu me pergunto; o que posso fazer? O que devo fazer?

─ Procure esquecê-la.

Dei conselhos a Jonas dizendo que aquilo era apenas atração física e que não valia a pena sofrer por um desejo insatisfeito, não correspondido e deixei-o lá, bebendo, afogando suas mágoas.

Alguns dias depois encontrei-o no supermercado e notei que estava modificado, mais animado.

─ E então, como vai aquela paixão pela vizinha?

Ele riu.

─ Ah! Você nem sabe o que aconteceu!

─ Não me diga que você conseguiu transar com ela?

Jonas sacudiu a cabeça, negando.

─ Quase. Aconteceu o seguinte; três dias depois que conversamos lá no bar, recebi um telefonema dela pedindo para que eu fosse consertar a torneira da pia da cozinha que havia estragado. Judite não estava em casa e eu imaginei que àquela hora o marido dela deveria estar trabalhando. Peguei minha caixa de ferramentas e fui. Fechei o registro de água e comecei a trocar a torneira estragada. Ela ficou por ali conversando e depois saiu. Terminei o serviço e estava recolhendo as ferramentas, quando ouvi a voz dela me chamando lá do quarto. Achei que era para consertar alguma outra coisa e quando entrei no dormitório, fiquei paralisado, senti um frio na barriga.

Jonas fez uma pausa como que relembrando a cena.

─ O que foi? – indaguei, curioso.

─ Ela estava deitada sobre a cama, nua! Passou a língua pelos lábios, me olhou de olhos semicerrados e disse com uma voz rouca: – Isso tudo é teu. Faça o que você mais deseja…

Jonas sacudiu a cabeça esboçando um sorriso e fez uma pausa dramática.

─ Diga logo, o que aconteceu?

─ Não aconteceu nada! Primeiro fiquei assustado, porque achava que aquilo nunca iria acontecer. Então, decidi que não devia acontecer. A gente iria transar e daí? Eu queria deixar minha família por causa dela? Não. Ela, pelo jeito, também não tinha controle sobre seus atos. Não sei se traia o marido regularmente, pelo simples prazer de trair, ou mesmo não poder controlar o desejo de fazer sexo com outras pessoas. Achei que eu estava prestes a cair num poço cheio de cobras peçonhentas. Antes que fosse tarde demais, peguei minhas ferramentas e fui embora, sem nem mesmo cobrar pelo serviço. Bem a tempo por que, quando eu estava voltando para casa, vi o marido dela estacionar o carro em frente da casa deles. Se ele tivesse nos pegado juntos, imagine o escândalo? O perigo de acabar com meu casamento, modificou meus sentimentos em relação a Silmara.

─ A tempestade passou. – falei.

─ É. O mar está mais calmo.

─ E ela?

─ Agora a vizinha me despreza. Quando me vê, me fuzila com os olhos e vira a cara para outro lado.

Jonas riu, satisfeito por ter controlado o barco e se safado da tempestade.

Eu não disse nada, mas mulher desprezada é um perigo! Normalmente, elas se vingam. Me lembrei de Naja Hollander e de sua vingança, mas isso, isso já é uma outra história…

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