Páginas da Vida – Um Pouco da Vida da Minha Amiga Miquelina

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

A minha amiga Miquelina era ainda jovem e bonita quando a morte lhe entrou em casa. Viera ali para lhe roubar o marido e a pobre senhora ficou viúva sem ter ainda trinta anos.

Durante uns tempos andou por aí á deriva, carpindo as suas mágoas em cada canto, em cada esquina e até onde não devia—assim diziam as más línguas da terra, que as há por aí e bem compridas por sinal.

Tudo falso! A minha amiga foi sempre uma viúva exemplar, a quem devo tirar o meu chapéu.

Até que um dia, vencida pelas saudades do defunto marido, decidiu dedicar-se ao espiritismo, na esperança de contactar com o Além. Também a saudade é um fogo que arde sem se ver e a minha amiga não podia viver naquela angústia de não poder conversar com o defunto.

Foi fazendo progressos, até que um dia entendeu que chegara o momento de contactar com o Além. Finalmente ia voltar a ouvir a voz do seu marido.

A mesa foi colocada bem ao centro da pequena sala e quando bateram as badaladas da meia-noite, as luzes foram apagadas e apenas duas velas projectavam uma débil claridade àquele espaço.

II

Depois de várias rezas e benzeduras estudadas nos manuais do espiritismo, começou a chamar pelo marido:

— Anastácio estás aí? Respondeu-lhe o silêncio, e só ouviu a voz do vento que lá fora soprava forte, cavalgando umas nuvens carregadas de humidade. Voltou a chamar. Pode ser que à segunda tentativa o Anastácio possa dar sinais de “vida”. – Bem é como quem diz!

–Anastácio, eu sei que estás aí! Peço-te que respondas!

Mas desta vez quem lhe respondeu foi uma coruja, piando no beiral duma casa velha que havia ao lado. A chuva começou a bater com força nos vidros da janela, mas a Miquelina não se atemorizou. Estava ali para falar com o marido e não ia desistir. Continuou a chamar. Sabia que o marido andava por ali e teria que dar sinais, não da vida que tinha perdido, mas sim da outra vida que era agora a sua. Mas o Anastácio continuava caladinho como um rato, sem responder aos apelos da mulher.

Tanta hora perdida para nada? Reviu os manuais estudados até á exaustão e tudo batia certo. Seria apenas uma questão de paciência até poder ouvir a voz do infeliz marido. Continuou a chamar.

–Anastácio tenho muitas saudades tuas e estou aqui para te ouvir. Se gostavas tanto de mim como dizias, responde!

E foi então que ouviu uma pancada forte sob a mesa que quase fez tombar as velas.

Chegara o tão esperado momento. Finalmente o Anastácio estava dando um sinal! Com uma emoção incontrolada, a minha amiga Miquelina tentou falar, mas as palavras não saíam e só a muito custo conseguiu perguntar:

–Anastácio és tu?

Respondeu-lhe uma voz rouca, agastada, uma voz que vinha do Além:

–Sim mulher! Sou eu, sou o teu marido, o teu Anastácio!

Com a voz embargada pela emoção a Miquelina ficou sem saber o que havia de dizer e foi a muito custo que perguntou:

–Então, oh Anastácio tu estás bem?

–Sim mulher estou bem!

Numa emoção sempre crescente a minha amiga voltou a perguntar:

Mas tu estás mesmo bem?

–Sim mulher estou óptimo!

Sem poder acreditar no que estava a ouvir a Miquelina fez então a última pergunta:

–Oh Anastácio, afinal tu estás aonde?

–Mulher estou no Inferno!

 

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