Páginas Antigas

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

O sol já se escondia no horizonte, a noite chegava e o frio vindo do mar, cada vez mais intenso, forçava as pessoas a se abrigarem. A temperatura constantemente baixa, no sul do imenso Brasil, não deixava outras opções aos habitantes humildes além de se protegerem com muitos agasalhos.

– Toni, meu filho. Vamos, entre, já está ficando noite!

– Estou indo, mamãe!

O chamado se repetira mais vezes até quando atendeu, versejando enquanto caminhava: “Fazia frio, era roxo o arrebol… Choravam de saudade, ao ver partir o Sol”.

No desabrochar da vida, aos oito anos Toni estava sempre sonhando. No “mundo da lua” como diziam as pessoas, especialmente seus pais preocupados com o guri, pois os pensamentos do impúbere teimavam em imaginar, não com o futuro, muito menos com o presente, apenas e simplesmente sonhar com a vida, com a existência. Desfrutava da pureza da infância. Diziam as más línguas ser irresponsabilidade, porém a meninice, a adolescência despontando não produzia tal efeito, pois este se referia aos adultos e não às crianças.

Algumas vezes, após as aulas, às escondidas Toni se dirigia sozinho à praia e ali, munido de algum galho seco de árvore em forma de um grande lápis, se punha a escrever na areia molhada pela volta das ondas. Aprendera em uma aula de história do Brasil quando lhe fora ensinado que o jesuíta Padre José de Anchieta costuma escrever poemas dessa forma. E era isso o que ele fazia e que gostava: escrever versos na areia úmida e ter o prazer de vê-los, depois de mentalizados, serem carregados pelas espumas do mar da próxima onda forte que aos seus pés tinha força para chegar, novamente.

Na escola tinha predileção pelas aulas de português, achava maravilhoso que o idioma que falava e aprendia ser o mesmo trazido pelos seus antepassados e somava a isso o prazer de poder expressar, por escrito, os seus sentimentos que para alguns, especialmente sua orgulhosa professora, eram emoções de pessoa mais velha. Na verdade, ele tinha mesmo o sentimento de mais vivência, de mais idade, pois já sentia aos oito anos de idade saudades de seus oito anos, desde que aprendera o poema de Casimiro de Abreu e que gostava imensamente em assinalar na areia molhada: “Oh que saudades que eu tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais…”.

O tempo, porém, prossegue e Toni se preparava para deixar sua querência. A terra que o vira nascer, atendendo a dinâmica da vida, agora o entregava a outros chãos para que fosse lapidada a pedra preciosa que produzira. A pequena cidade inserida entre duas aguadas maravilhosas, o oceano e a lagoa, apresentava seu filho ao mundo!

A capital do Estado foi sua primeira parada significativa. Em busca da sobrevivência procurou e encontrou trabalho no comércio. Porém, sua dedicação aos olhos do empregador não via nele um atendente de loja, armazém ou restaurante à altura do estabelecimento que se propusera a contratá-lo, por isso encontrava-se constantemente desempregado. Mas não demorou em descobrir o seu ninho, o seu canto preferido: o jornalismo. Apesar de sua escolaridade limitada ao ensino primário, ali em companhia das letras poderia evoluir, fazer seus versos, seus poemas, seu trabalho e ainda ser admirado.

O ímpeto da juventude trouxe em sua bagagem o conserto do mundo, e a seu ver, no frescor da juventude, o socialismo poderia igualar a humanidade. Somente a equidade entre as pessoas, com um Estado forte traria a paz entre os povos, nivelando o capital e o trabalho. Contemporâneo e influenciado pelo período em que outras doutrinas socialistas ofereceram uma nova perspectiva sobre a sociedade capitalista e a condição do trabalhador, entendia, como muitos, que os meios da produção deveriam ficar nas mãos do Estado e toda riqueza deveria ser dividida por igual. Foi uma mistura de sonho e anarquismo.

Redator, repórter, escritor de uma revista por ele criada, em busca de notícias e acontecimentos saia pelas ruas de Porto Alegre, tão alegre como a cidade. O bonde “Parthenon” subia as ruas descalças com final junto ao Manicômio Judiciário e tinha um ponto das paradas quase em frente à sua casa. Como detestava, não gostava mesmo de viajar nos bondes e não havia outra opção, algumas vezes percorria a pé grande parte de seu caminho, aproveitando a descida, na ida em direção ao centro da cidade.

Em suas andanças tinha como fonte de inspiração para seus poemas os detalhes da vida que reproduzia com humor. Observava as pessoas, as famílias, as crianças, até os idosos e assim surgiam suas poesias. Outras vezes poetizava com sarcasmo diante de acontecimentos rotineiros cujos protagonistas procuravam, por preconceito, esconder do mundo. Mas nas noites, principalmente nas madrugadas enxergava sempre e mais os motivos de seus versos. Na boemia, amparado pelo companheiro Fellipe, seu irmão de fé, seu guru, anotava mentalmente os acontecimentos e depois derramava seu talento através da tinta de sua caneta, de sua escrita, de seus versos.

E na volta para casa novamente se punha a andar pelas ruas desertas da madrugada, evitando o bonde. Deixava sempre passar um daqueles monstrengos da Cia Carris postergando a viagem para o próximo bonde. Aquele fantasma sobre trilhos lhe causava medo, sempre. Associava suas rodas, suas muitas rodas com a morte, pois nada resistiria ficar entre o disco de aço e o trilho de aço. O frio da madrugada penetrava em seus pensamentos involuntariamente e atingiam sua espinha, conduzidos por indesejável pressentimento.

Um dia, em companhia de Fellipe, embarcou em um navio costeiro em direção à outra Capital. Do barco viu sua terra gaúcha se distanciar cada vez mais. Sentiu uma desagradável sensação de tristeza, que viera substituir a até então alegria que o tomava. O sumir da imagem diante de sua vista, da sua terra, dos seus mares, parecia ser definitivo. Logo se recompôs, culpando a velha superstição que nunca o abandonava. Em breve, sua volta triunfal seria esperada e abraçada por seus queridos, por seus amigos, por sua gente. Somente Fellipe não estaria ali, a sua espera, pois o fiel amigo permanecia sempre em sua companhia, inclusive no sonhado retorno.

Rio de Janeiro! A grande urbe, o palco da modernidade, o local da República jovem, das oportunidades, da vida. O navio se aproximava cada vez mais do porto e a cidade lhe dava boas-vindas! Olhou para as águas e se lhe apresentou uma visão: “E lá se vae um lírio, a boiar entre espumas”.

Foi morar no subúrbio, no Meier, em um casarão antigo que também se tornou fonte de inspiração para vários de seus poemas. Daquele bairro condizente com sua pobreza e em busca de trabalho desbravou a cidade maravilhosa. Conheceu a noite carioca e deu preferência a conviver com a vida noturna, o que estava em seu sangue. Um boêmio pobre, poeta e feliz, conforme zombava, carinhosamente, seu amigo Fellipe. Naquele sempre lindo Rio de Janeiro a sensação da época estava no recém-inaugurado teleférico unindo a Praia Vermelha ao Morro da Urca, o chamado “bondinho aéreo” o que no poeta não produzia grande entusiasmo, pois se tratando de bonde, mesmo com o trilho no telhado “às avessas”, como gostava de fazer referência, causava-lhe alguma aversão.

Mesmo vivendo de poucos rendimentos conseguidos com a colaboração em jornais e revistas, apaixonou-se por Anna Júlia, casaram e tiveram logo uma linda filha. Seu amor por ambas resultou em poemas vários e especialmente à filha dedicou o Soneto de Um Pai, onde antevia o momento, ainda que remoto, a entrega-la pura a outro homem, dando sequência a inevitável escalada da vida.

Noite alta, madrugada adentro, em plena Praça XV ficou a espera do primeiro bonde do dia na linha Engenho de Dentro. A mão do destino o acomodou a beira de um dos bancos vazios, bem junto do estribo do elétrico e logo após a partida começou a cochilar, vencido pela noite mista de ganhos e bebidas. Naquela noitada, bem-sucedida, havia produzido uma poesia numa roda de samba, que agregada à música de vários instrumentistas foi aplaudida pela turma e lhe proporcionou bom ganho, bem pago por alguém que doravante se intitularia o compositor. Era costume ganhar a vida de forma tão prazerosa e rentável. O elétrico corria pelos trilhos, balançava, parava e tornava a andar, numa disposição apreciável. A certa altura do trajeto Toni começou a sentir um calor estranho, violento que lhe chegou por baixo do corpo. O vapor produzido pela água fervente encharcando sua roupa vinha da chaminé da locomotiva por baixo do bonde. A Maria fumaça, correndo na via férrea passava a Estação Engenho Novo e por baixo do viaduto – exclusivo para bondes – bufando, espumando tal qual um touro feroz. O apito alongado produzido pela pressão da caldeira da máquina, perpetrando um barulho ensurdecedor, assustou o boêmio sonolento. Confuso pela letargia que o dominara, evitar a tragédia formada no subconsciente foi sua defesa natural. Ainda sobre o pontilhão, pouco antes da Rua 24 de Maio, apavorado saltou do bonde em velocidade. Escorregou no piso molhado, tropeçou nas pedras soltas e foi violentamente lançado à distância por cima da frágil proteção do viaduto, desabando sobre os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Lá em baixo, o corpo torcido, a cabeça apoiada no trilho de aço um filete de sangue correndo pela nunca encharcava seus cabelos. Seus olhos esbugalhados ainda viram logo adiante a roda de aço do trem, que passara há alguns segundos, prosseguindo em seu giro intenso.

A luz do dia começou a iluminar a cidade, apenas o corpo do poeta continuou no escuro produzido por uma manta descolorida abrigando seu corpo sem vida, logo arrastado para um canto da ferrovia para não atrapalhar o trânsito. O presságio se consumara. Curiosos se aglomeraram ante a cena trágica e alguém repetiu “Que se a ideia de morte as vezes nos conforta, apavora-nos ver uma pessoa morta. ”

Morreu o poeta. O mundo perdeu o poeta boêmio.

Morreu sem tornar a ver o espetáculo dos pássaros migratórios na Lagoa dos Peixes. Não mais iria rabiscar versos nas praias encantadas do seu Rio Grande do Sul, como pretendia ao regressar e fazer na velhice.

O cata-vento doido, imaginário, estendeu as asas de seu moinho sobre ele, à beira do caminho… de trilhos. Lá em cima o sol, imprudente, ouviu a súplica do ainda moribundo:

“- Sol! por favor, ó sol! Vai devagar!…”

O trovador iniciou “o caminho sagrado, esse dos sonhadores”.

Finalmente “estávamos nós dois: eu e minh’alma, ali”.

Deixou a vida sem conhecer a outra filha ainda no ventre da sua amada Anna Júlia.

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a) Conto inspirado na vida do poeta gaúcho Marcelo Gama, em homenagem ao centenário de seu falecimento em 2015.
b) As frases em itálico e entre aspas foram extraídas do livro “Via Sacra e Outros Poemas” de Marcelo Gama, Editora Sociedade Felipe D’Oliveira, RJ, 1944.

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