O Amor de Berenice

   Vanderlei Antônio de Araujo (Goiânia – GO) Berenice era uma moça bonita, sonhadora, porém, tão tímida que aos vinte e cinco anos não tinha namorado. Do amor só ouvia falar. Sua timidez não a deixava mostrar seus sentimentos nem se entregar a um amor. Morava com os pais numa casa simples, porém, aconchegante. Certo dia, seu tio chegou da capital do estado em companhia de um rapaz. Falou que tinha um assunto importante para tratar com ela. Seu coração quase parou quando ele lhe disse que o rapaz viera para conhecê-la. Se gostassem um do outro poderiam se casar. Sobressaltou-se. Embora o moço fosse diferente do que ela imaginou um dia, como marido, gostou dele. Sorrindo ele foi apresentado a ela, cumprimentando-a. logo, eles se acomodaram na sala. Agenor era o nome do rapaz. Berenice tentava recuperar-se da sensação perturbadora que lhe causou aquele encontro não marcado. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

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A Dançarina

César Bueno Franco (Campo Mourão – PR)  O corpo pesa, dói. Dele emana um desconforto sem raiz mas com alcance irrestrito. E é por isso que sei que estou acordado e que a vida ainda está colada em mim como algo pegajoso e sujo. Mas hoje existe algo de diferente no ar: não estou sozinho no quarto. Ela dança em torno da minha cama a dança mais suave que já vi. Os pés parecem não tocar o chão, e não ouço nada, nem música, nem o farfalhar de seu vestido e véus. Onde estarão os sons que a movem? Não vejo seu rosto, não sei quem é. Seus rodopios são borrões distorcidos que não consigo dizer se são rápidos demais ou lentos demais. Nos braços desnudos, nas pernas expostas, vejo sua plere branca, acetinada, um contraste desconcertante com os tecidos profundamente negros que envolvem todo o resto. Penso, insanamente, ser uma estátua de mármore que […]

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A Caixa

Tião Carneiro (Natal – RN) Cerca de quatro horas de uma tarde chuvosa, mercadinho vazio, a poeta e belíssima caixa Laurinha abandona alguns objetos no balcão a fim de ler no celular as prosas de um amigo. Faz um favor, na verdade, porque Laurinha gosta mesmo é de poemas. Mas como aquela prosa fala de um amor repentino, ela julga encontrar ali pedaços de molambos poéticos. Quiçá pelo som da chuva, mas certamente pelo tedioso texto, certo é que, ao não topar com os molambos poéticos, os olhos imploram repouso e as mãos invisíveis do sono começam a fechá-los. Fecha não fecha, Laurinha dá uma piscadela de apreensão com o pivete que, se caqueando, está se apeando de uma moto na calçada do mercadinho: assaltante ou cliente? Peço aqui um parágrafo a fim de justificar a apreensão de Laurinha. É que na sua cidade, Natal, a população vive assustada em razão dos assaltos. A cada […]

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Carta a Um Amigo

          Presidente Prudente – SP Prezado amigo de longa data.    Há muito não nos encontramos, por força da distância que nos separa. Tenho um caso para te contar, é a história de uma pessoa querida e preciso que me ouça. Falarei dele com o respeito que merece e o louvor que sempre lhe dediquei. Confesso que me permiti liberdades neste relato.    Aconteceu às três horas da madrugada, de um dia qualquer, em um quarto de hospital. Lá fora a noite fria, quieta, somente o barulho do movimento das macas que transportavam gente se fazia ouvir. Por dedução,  quem corria carregava os que precisavam de atendimento urgente, porém, as que emitiam sons em compasso lento, cadenciado não tinham pressa, pois seu ocupante, totalmente coberto, já não mais precisaria dos cuidados médicos.

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Festa de Arromba

Ismar Carpenter Becker (Rio de Janeiro – RJ) Relembrando os anos sessenta da jovem guarda, da contracultura, da juventude transviada, das domingueiras, dos bailes e do rock roll; Por isso resolvi convocar meus amigos da juventude e dar uma festa para relembrar os bons tempos dos anos dourados. Mandei e-mail, telefonei, telegrafei e usei a velha carta convocando a rapaziada para a festa de arromba, e assim foi. Aluguei o salão, limpei os velhos discos, arrumei o som, a bebida (cuba libre), marcou dia, hora e local e esperei com ansiedade chegada da moçada. Como os anos foram passando depressa. E foi chegando gente e mais gente. Quem chegou primeiro foi o Marcelo, cabelos brancos, barrigudo, barba grisalha, no rosto rugas imposta pelo tempo que não espera; mas tudo bem, depois foi a vez do Alfredo chegar tossindo, pigarreando, andando com dificuldade e equilibrando-se numa bengala. Aí pensei: pode ser uma exceção, não se cuidou. […]

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Os Verdes Campos

Marcos Antônio Lima    Os verdes campos do vale de Monte Alegre escondem uma terra vermelho feito sangue e úmida como um porão. A sua invólucra superfície é banhada por um sol de raios fúlvidos e multicor. Esse Imperador florescente paira sobre a pradaria colibri e seu libido germina a terra.  É neste pedacinho de chão que o beijar flor veraneia com a andorinha dos jardins de ária, e o carcará sobrevoa com asas de Ícaro.    Apesar do sol escaldante e solo semi-árido, a terra é macia e fértil, e genuinamente sergipana. Nela brotam milhos de mandioca e batata aipim inglesa para as deliciosas guloseimas da avó. As gotas de orvalho cristalino se amalgamam em nuvens de algodão para saldar o alvorecer, e a inércia que habita o jardim é inapta para a desilusão. Observando amiúde o firmamento, pareço ver que ele trás espetado na constelação estrelas de muitas noites e eras que bailam […]

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Amantes

Flavio Dias Semim    Até que foi lindo! Juventude, amor e admiração os levaram ao casamento. Tudo era belo, romântico em suas ocasiões, afortunado enquanto durou a felicidade, contudo foi declinando com o passar do tempo, não o amor, mas o tratamento, a convivência, o dia a dia, o lado a lado. Caíram no vazio as possibilidades no atendimento as juras que se pudesse lhe daria tudo, o mundo todo.    Após alguns anos de convívio chega rotineiramente a casa um pouco cansado após o trabalho e já ouve algumas reclamações vindas lá da cozinha ou da área de serviço, produzidas pela esposa também enfadada, cabelos e vestes desalinhados e três filhos para cuidar, dois púberes. Suas roupas já não demostram o corpo esbelto, mas uma carcaça sofrida pelo tempo e tarefas caseiras. Brigas domésticas ainda são percebidas pela coexistência diária de mãe com filhos adolescentes, rebeldes e indolentes por natureza. Gritos de “parem com […]

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Vovó Bia Investiga

Antônio Roque Gobbo (Para bom entendimento desta narrativa, ler antes o conto #925 ”Vovó Bia e o Tapete Mágico) Desde o voo do tapete que levou vovó Bia e os netos através das misteriosas dimensões do tempo, do espaço e da imaginação até a terra dos índios peles-vermelhas, no deserto do Colorado, ela pensava profundamente no acontecido. Sabia que tinha sido, sim, uma realidade. Uma outra realidade impossível de ser comparada com a do seu mundo real: a fazenda, as pessoas, os animais, a natureza que estavam ao seu redor. Os netos conversaram alguns dias sobre o acontecido e com a naturalidade de que nasceram para viver extraordinárias aventuras. Depois, passaram a outros assuntos e parece, tinham se esquecido da fantástica aventura. Uma coisa era certa para a sábia senhora: tinham: tinham sido levados tão longe sobre o tapete. Logo, o tapete era dotado de poderes mágicos, como os tapetes voadores das verdadeiras e reais […]

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Triste Fim

Rannyele Passos É noite, pássaros cantam o tempo inteiro e o vento sopra vorazmente. Uma noite quente em um lugar que é sempre verão. É lua nova e uma noite estrelada toma conta do céu. A vasta imensidão do universo é expressa na escuridão, evidenciando o leite derramado da Via Láctea. Quando é lua cheia, tudo é iluminado. A claridade que suaviza a escuridão da noite e ilumina pássaros chocando em seus ninhos, dormindo, cantando, chilreando… vivendo suas vidas.

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Ilusões Perdidas

Flavio Dias Semim Fryda orgulhosamente exibia ao diretor da FUNAI o seu diploma da escola normal que lhe licenciava como professora primária. Sua disposição em alfabetizar índios viera há algum tempo quando, encantada pelo romance O Guarani, de José de Alencar, ficara perdidamente apaixonada pelo selvagem Peri e decidira partir ao encontro de um índio com as mesmas características, porém real.

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