A Volta

Dona Iaiá (São José do Rio Preto – SP) Ao longe, ele avistou uma senhora cujos olhos se transformavam nas nascentes de dois rios tranquilos. Eles vinham assim, lentos e pesados, abrindo caminho por suas rugas até que, finalmente, encontravam a foz em seu queixo, de onde caíam tristes e formavam pequenas manchas molhadas no tecido do vestido florido. Aproximou-se devagar, compadecido diante da imagem tão melancólica que se formava com a figura da senhorinha aborrecidamente sentada no banco da rodoviária enquanto os últimos poucos raios de sol do dia atingiam suas mãos cansadas e parte de seu colo. Ela olhava para baixo, com as costas arcadas e a boca entreaberta, enquanto alguns legumes rolavam para fora da sacola de feira deixada no chão, bem ao lado de seus pés. Atônita, observava o trajeto que eles percorriam, quase até a sarjeta, sem nada fazer.

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Ondas do Mar da Vida

                                                                                                                Marília Francisco (Viamão – RS) Chovia e não chovia, chuviscava durante a inerte tarde de outono. Antunes estava sentado em fr ente à janela de sua quase sempre movimentada sala gélida tomando seu café e saboreando seu fumo enquanto se lembrava da longínqua e quase esquecida vida à beira mar que vivera em um sonho que realizara e que dele desistira pelos pesados pesadelos que tivera. O fechado mar azul, a estreita e longa faixa de areia encascalhada, as pedreiras, a bica d’água doce que escorria, os encantados que a habitavam, o céu quase sempre límpido mas nem sempre sereno, o ar, às vezes um tanto esfumaçado, as ruas calmas mas nem sempre serenas, os pássaros cantores… O cheiro da vida era perfumado, era embriagado. Passos leves e constantes que a lugar algum iam, mas que a alma impressionavam em saltos. Sentado à beira do mar, dentro de um ancorado barquinho, Antunes refletia junto […]

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A Luz de Helena

 Flávio Cruz (Orlando – FL – USA) Helena estava furiosa. Tinha acabado de brigar com Fernando, seu marido. Pegou a bolsa, bateu a porta do apartamento com força, e saiu. Entrou no elevador, deixou o prédio e começou a andar a esmo pelas ruas. Depois de uma meia hora, percebeu que estava próxima da residência de sua irmã. Resolveu, então, ir até lá e chorar suas mágoas. Sétimo andar. Rose a recebeu com um abraço gostoso e ela respondeu com soluços. Contou tudo, abriu a alma. Tomou duas xícaras de chá, um calmante. Depois de umas três horas e bastante conversa, estava bem melhor. A conselho de Rose, voltou para casa. Deveria conversar com o esposo, curar as feridas, acertar os ponteiros. E foi. Décimo andar, apartamento 102. Ao tentar abrir, viu que a chave não servia. Nervosa? Colocando a chave ao contrário?  O lugar estava certo, lá estava a decoração do último natal, inconfundível […]

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O Último Sopro de Vida

 Crowvox (Palmas – TO) 1 Ela acordou ainda com os sentidos desnorteados, sem saber onde estava ou ao menos quem era, como alguém que acorda meio assustado de um sono profundo em que houve um pesadelo. Apesar de abrir os olhos meios lacrimejantes, nada pode ver. Estava envolta em uma completa e sinistra escuridão. Tentou mexer os braços e as pernas no intuito de levantar-se, mas algo a impediu. Agora, já sabendo que se chamava Ana, ela começou a perceber que estava trancafiada em algum local. Madeira, sim, madeira era o que separava o seu corpo do resto da existência. Ana gritou, pediu socorro. Esticou os braços o mais forte que conseguiu. Ao tocar a parte superior de onde estava ela notou que pequenas nuvens de poeira atingiram sua pele. Ela sentiu uma pequena dor em um dos dedos da mão esquerda, parecia uma queimação na pele, como alguém que toca em uma urtiga. Ela ficou […]

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O Bonachão Felinto

  Tião Carneiro (Natal – RN) “Sabe, gente boa, a mulher não tem culpa de nada. Não é ela a perdição do homem. A gente é quem se perde com elas. Raros são os homens que entendem as mulheres, compreendeu? Por isso ficamos plantando desavenças. A verdade verdadeira, gente boa, é que sempre fomos impiedosos com as mulheres”, reconhecia a estupidez masculina o experiente, ricaço e bonachão Felinto, trocando de pé na cadeirona de engraxate, mas com os olhos se estocando no rosto do vizinho de cadeira. Esse reconhecimento se dá por volta dos anos oitenta, na Pracinha do Diário, em Recife.  Gente boa é como o bonachão Felinto chama o engraxate Diel. O vizinho de cadeira é conhecido por galego, mas é desconhecido ali, posto ser aquela a primeira vez que ali engraxava os sapatos. O engraxate dele é o Rui.

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Confissões de um Curiboca

Marcos Antônio Lima (Santa Brígida – BA) Seu padre eu vim aqui pro mode me confessar. Tem noite que não drumo de tanto penar, com a cuca doída eu não agüento mais ficar. Pro mode isso vim pedir pro Senhor me escutá. Penso noite e dia no má que fiz pra mãe natureza, ao desmatar. Precisava os meus fios dá de comer, e só vendendo lenha pra mode a feira arranjar. Sei que cometi esse tá de crime ambientar, mas seu padre num fale pros zome, pro mode eles não me levar. A mata era muita, imensa capoeira sem fim que dava até pra esconder uma cabroeira inteira, certo qui hoje tá pouca. Os bichos foi embora, não se acha mais tatu nem preá. Muito menos codorna, nambu, curduniz e nem mêrmo imbú cajá. As veis seu pade, eu me ponho a pensar, oxênte home, tu não foi o único a mata derrubar, mais bem […]

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Correnteza de Ouro

Lira Vargas  (Niterói – RJ) A guerra na Coreia do norte e sul ainda devastava aquela nação. Sean jeito de viver em  silêncio era atribuído a tensão que a guerra causava a todos. Via todos os dias centenas de pessoas morrerem, famílias se perderem na tentativa de fugir dos bombardeios. Ele se refugiava nos arrozal. Ele não entendia, mas sentia que na imensidão do céu tinha uma força que ele aprendeu que era Deus, e na linguagem sem muita explicação, pedia que acabasse com aquela guerra. Na manhã os bombardeios foram intensos. Ele se abrigou. Seus pais ficaram em casa, e pediu a Deus que o tempo parasse, ou passasse rápido, ele tinha medo do que poderia acontecer a sua família. Todas as vezes que tinha bombardeios era uma incerteza, quem sobreviveria, era questão de sorte. Depois que o bombardeio cessou, ele retornou a procurar seus pais e irmãos. Deparou com a cena que que […]

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Estilhaços

  Breno S. Amorim (Petrolina – PE) A narrativa escorre de mão claudicante. A dúvida ante a necessidade de exarar determinado fragmento me consome. À noite, sou perseguido por esta insônia de já não sei quantos dias. Por que deitar no papel estes estilhaços que me povoam? A imagem dos meus chamejando na memória – que não me permite sequer um mínimo olvido, nunca. Ao olhar-me, a superfície do ser, não há quem possa apontar uma ferida. E, no entanto, quantas não vão acesas? São muitas, em tão curto tempo. Apenas 28 anos, digo e já não sei se isso é uma afirmação. O espelho parece me indagar. O que vejo refletido? Não absorvo estes traços faciais, para mim, sempre os mesmos, conclusos, estáticos.

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Vestida de Passarinhos

Misa Ferreira (Itajubá – MG) Ela estava encantada com o vestido de passarinhos. É verdade que mais parecia um vestido de menina, e talvez fosse exatamente por isso que ela se sentiu tão atraída pela roupa. Era um vestido vermelho pintado de passarinhos azuis e verdes, assim, dois a dois em cima de um galho e eram milhares de passarinhos. Como não se usa mais ir comprando assim de tudo o que se vê, ela segurou o impulso, afinal não precisava mais de nenhum vestido, ainda mais um vestido grande demais para seu tamanho. Mas ela gostou tanto dele que chegou a sonhar já vestida de passarinhos. Aí se decidiu e depois de decidido, foi acometida por uma sofreguidão intensa, uma urgência descabida, era preciso adquirir logo antes que alguém o comprasse. Foi desabalada para a loja, debaixo de um sol escaldante como se fosse salvar o planeta de uma terrível catástrofe. Finalmente ele estava […]

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O Porta-retrato Azul

Helder Felix (Fortaleza – CE) Todos os dias e, quase sempre no mesmo horário, Tania colocava a água para ferver. Sabia que o filho adorava tomar café quando chegava da universidade. Distração boa depois das obrigações diurnas. Recém-ingresso em economia, ainda não se habituara por completo a nova rotina. Diariamente, ele acordava às 09h30min da manhã. Daí, as ações eram metricamente calculadas a fim de evitar atrasos quanto à condução da tarde que cotidianamente tomava para chegar ao curso. Orgulhosa, Tania acordava antes do filho e preparava-lhe o desjejum. “a benção, mãe”. “Deus te acompanhe meu filho” E, assim, despediam-se momentaneamente.

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