Estilhaços

  Breno S. Amorim (Petrolina – PE) A narrativa escorre de mão claudicante. A dúvida ante a necessidade de exarar determinado fragmento me consome. À noite, sou perseguido por esta insônia de já não sei quantos dias. Por que deitar no papel estes estilhaços que me povoam? A imagem dos meus chamejando na memória – que não me permite sequer um mínimo olvido, nunca. Ao olhar-me, a superfície do ser, não há quem possa apontar uma ferida. E, no entanto, quantas não vão acesas? São muitas, em tão curto tempo. Apenas 28 anos, digo e já não sei se isso é uma afirmação. O espelho parece me indagar. O que vejo refletido? Não absorvo estes traços faciais, para mim, sempre os mesmos, conclusos, estáticos.

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Vestida de Passarinhos

Misa Ferreira (Itajubá – MG) Ela estava encantada com o vestido de passarinhos. É verdade que mais parecia um vestido de menina, e talvez fosse exatamente por isso que ela se sentiu tão atraída pela roupa. Era um vestido vermelho pintado de passarinhos azuis e verdes, assim, dois a dois em cima de um galho e eram milhares de passarinhos. Como não se usa mais ir comprando assim de tudo o que se vê, ela segurou o impulso, afinal não precisava mais de nenhum vestido, ainda mais um vestido grande demais para seu tamanho. Mas ela gostou tanto dele que chegou a sonhar já vestida de passarinhos. Aí se decidiu e depois de decidido, foi acometida por uma sofreguidão intensa, uma urgência descabida, era preciso adquirir logo antes que alguém o comprasse. Foi desabalada para a loja, debaixo de um sol escaldante como se fosse salvar o planeta de uma terrível catástrofe. Finalmente ele estava […]

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O Porta-retrato Azul

Helder Felix (Fortaleza – CE) Todos os dias e, quase sempre no mesmo horário, Tania colocava a água para ferver. Sabia que o filho adorava tomar café quando chegava da universidade. Distração boa depois das obrigações diurnas. Recém-ingresso em economia, ainda não se habituara por completo a nova rotina. Diariamente, ele acordava às 09h30min da manhã. Daí, as ações eram metricamente calculadas a fim de evitar atrasos quanto à condução da tarde que cotidianamente tomava para chegar ao curso. Orgulhosa, Tania acordava antes do filho e preparava-lhe o desjejum. “a benção, mãe”. “Deus te acompanhe meu filho” E, assim, despediam-se momentaneamente.

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Esther, Um Novo Recomeço

Marcelo Almeyda (São Paulo – SP) Era madrugada, do lado de fora das janelas o silêncio da cidade invadia as residências que a cercavam. Num quarto de hotel, mergulhada em sentimentos controversos de saudade, melancolia e solidão, Esther depois de chorar pela enésima vez, analisa todas as linhas da carta recebida de seu ex-amante Antônio. Em cada palavra escrita, um momento vivaz se fazia em sua mente, a alegria das risadas sem esforço, os beijos ardentes e a lembrança dos corpos nus embaraçando-se aos lençóis de sua cama. Ao momento mais quente de seus delírios quando sua face chega a ruborar, a realidade fria do quarto vazio lhe faz derramar outra lágrima. Seguir em frente torna-se difícil para um coração acostumado aos carinhos de um só rapaz.

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Lençóis ao Vento

Lira Vargas (Niterói – RJ) O sol ainda secava as últimas gotas de orvalho de uma noite fria de outono. As folhas da mangueira forravam o chão do quintal, avisando que novos frutos estavam por vir. Era bonita aquela estação, o vento desfolhava com carinho as árvores, dando lugar a vida prometida. Quando uma mulher tinha seu ventre apertando as roupas simples, eu olhava para os frutos apetitosos das amendoeiras, e pensava que ali o fruto de algumas noites de amor também era obra do outono. Não sabia explicar, mas aquela estação fazia bem aos meus pensamentos. Minha mãe levantava cantarolando uma canção popular, na cama eu e meus irmãos ainda sonolentos, ouvíamos sua voz como um aviso de  que era hora de levantar. Eu fingia ainda dormir, porque a preguiça e a cama quentinha era um convite para ficar encolhida sob os lençóis com emendas, restos que ela ganhava de suas freguesas. E aquela […]

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Só Nos Resta Viver

Aristóteles da Silva (Mogi das Cruzes – SP) Olhava vagamente para a paisagem pela janela do ônibus. O trânsito estava carregado, mais do que de costume. Ia demorar uns trinta minutos para chegar no seu ponto. Tudo bem. Tinha que dar é graças a Deus por morar tão perto do serviço. O de amanhã levava duas horas, tanto para ir quanto para voltar. Mas trabalhava bem menos. Ao pensar nisso aproveitou que não tinha ninguém sentado ao lado dela e se espreguiçou. Não tinha parado um minuto hoje. Era sempre assim nesse serviço. Eram vários lugares para limpar e com uma encarregada chata, implicante. Bem, a verdade é que só reclamava enquanto trabalhava. No outro, quantas vezes ficava um tempão sem ter que fazer nada. E sempre tinha mais buchicho com as colegas. É, esse era bem melhor. Vinha, cansava o corpo e o tempo passava rapidinho. Mas como chegava cedo eram os dias que […]

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O Amor de Berenice

   Vanderlei Antônio de Araujo (Goiânia – GO) Berenice era uma moça bonita, sonhadora, porém, tão tímida que aos vinte e cinco anos não tinha namorado. Do amor só ouvia falar. Sua timidez não a deixava mostrar seus sentimentos nem se entregar a um amor. Morava com os pais numa casa simples, porém, aconchegante. Certo dia, seu tio chegou da capital do estado em companhia de um rapaz. Falou que tinha um assunto importante para tratar com ela. Seu coração quase parou quando ele lhe disse que o rapaz viera para conhecê-la. Se gostassem um do outro poderiam se casar. Sobressaltou-se. Embora o moço fosse diferente do que ela imaginou um dia, como marido, gostou dele. Sorrindo ele foi apresentado a ela, cumprimentando-a. logo, eles se acomodaram na sala. Agenor era o nome do rapaz. Berenice tentava recuperar-se da sensação perturbadora que lhe causou aquele encontro não marcado. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

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A Dançarina

César Bueno Franco (Campo Mourão – PR)  O corpo pesa, dói. Dele emana um desconforto sem raiz mas com alcance irrestrito. E é por isso que sei que estou acordado e que a vida ainda está colada em mim como algo pegajoso e sujo. Mas hoje existe algo de diferente no ar: não estou sozinho no quarto. Ela dança em torno da minha cama a dança mais suave que já vi. Os pés parecem não tocar o chão, e não ouço nada, nem música, nem o farfalhar de seu vestido e véus. Onde estarão os sons que a movem? Não vejo seu rosto, não sei quem é. Seus rodopios são borrões distorcidos que não consigo dizer se são rápidos demais ou lentos demais. Nos braços desnudos, nas pernas expostas, vejo sua plere branca, acetinada, um contraste desconcertante com os tecidos profundamente negros que envolvem todo o resto. Penso, insanamente, ser uma estátua de mármore que […]

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A Caixa

Tião Carneiro (Natal – RN) Cerca de quatro horas de uma tarde chuvosa, mercadinho vazio, a poeta e belíssima caixa Laurinha abandona alguns objetos no balcão a fim de ler no celular as prosas de um amigo. Faz um favor, na verdade, porque Laurinha gosta mesmo é de poemas. Mas como aquela prosa fala de um amor repentino, ela julga encontrar ali pedaços de molambos poéticos. Quiçá pelo som da chuva, mas certamente pelo tedioso texto, certo é que, ao não topar com os molambos poéticos, os olhos imploram repouso e as mãos invisíveis do sono começam a fechá-los. Fecha não fecha, Laurinha dá uma piscadela de apreensão com o pivete que, se caqueando, está se apeando de uma moto na calçada do mercadinho: assaltante ou cliente? Peço aqui um parágrafo a fim de justificar a apreensão de Laurinha. É que na sua cidade, Natal, a população vive assustada em razão dos assaltos. A cada […]

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Carta a Um Amigo

          Presidente Prudente – SP Prezado amigo de longa data.    Há muito não nos encontramos, por força da distância que nos separa. Tenho um caso para te contar, é a história de uma pessoa querida e preciso que me ouça. Falarei dele com o respeito que merece e o louvor que sempre lhe dediquei. Confesso que me permiti liberdades neste relato.    Aconteceu às três horas da madrugada, de um dia qualquer, em um quarto de hospital. Lá fora a noite fria, quieta, somente o barulho do movimento das macas que transportavam gente se fazia ouvir. Por dedução,  quem corria carregava os que precisavam de atendimento urgente, porém, as que emitiam sons em compasso lento, cadenciado não tinham pressa, pois seu ocupante, totalmente coberto, já não mais precisaria dos cuidados médicos.

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