O Segredo do Menino

        (Orlando – FL – USA) Não havia mais nada o que fazer. As chamas já estavam bem altas, o fogo era incontrolável. Os bombeiros pareciam inertes, as pessoas olhavam incrédulas e assustadas para a velha igreja que ardia num incêndio incontrolável. Era começo de noite e aquela luz vermelha iluminava o rosto das pessoas, as paredes brancas das casas vizinhas e tudo que estava próximo. Muitos estavam simplesmente mudos diante do espetáculo, outros choravam baixinho, uns poucos falavam alto. Conversas paralelas tentavam atinar com as causas do incidente. Falavam em velas acidentalmente caídas sobre os bancos de madeira, falavam sobre fios elétricos velhos e descascados. Até em coisa do demônio se falava.

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Fraqueza

        (Presidente Prudente – SP) Lembra-se? Anoitecia, era um sábado, de uma semana qualquer. Afinal, não faz muito tempo. Naquele hipermercado lotado, carrinhos conduzidos por pessoas e que batiam uns nos outros, gente se acotovelando, empurrando, naquele mesmo lugar, outra vez, eu te avistei. Estavas, como sempre, linda, imponente e majestosa, fruto, pensava eu, da sua linhagem soviética. Mais do alto olhava-me disfarçadamente e com discrição, própria da sua altivez alicerçada na origem de uma autêntica czarina. Esforçava-me para te ignorar, porém não conseguia. Lembrava-me de outras vezes, tempos em que juntos passávamos momentos agradáveis, quando chegava eu ao delírio após crises de grandes alegrias ou abatido por pequenas tristezas, já que o raciocínio corria solto sem poder me conter, sem poder ordenar as ideias, modificando meu comportamento sem sequer você se importar ou tentar me refrear.  Aliás, impedir-me é coisa que você nunca fez, sempre zombou dos meus excessos e de meus […]

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Cor de Afogamento

(Petrolina – PE) Regressado, mais uma vez. Idas e vindas – sem chegada. Partir, retornar: modos díspares de fugir. Desertar – mas de quê? A recordação das batalhas perdidas, o fracasso de quem, ao vencer, declina. Duas paredes rivalizam: numa, livros e quadros; noutra, troféus e medalhas. Todos os dias, o mesmo confronto. A luz reverbera no ouro dos utensílios majestáticos e irradia nas brochuras opacas. Uma objeção lógica retine em meus ouvidos: toda essa extensa leitura, estas páginas desbravadas e, ainda assim, estes troféus? Mais: não se contentara com a vitória, fora no coquetel de premiação, discursara, envaidecera-se com os aplausos, trouxera a glória nos braços, dera-lhe estante luminosa, exposta na parte mais visível da casa?

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A Máscara do Tempo

      Todos os sábados o casal de velhinhos, atravessava a rua e ia para o bar da esquina Ele de nome Silvio, tinha um semblante sério, mal humorado, ela, cansada pela idade, tinha feições meigas, as rugas profundas, pareciam marcar a história de sua vida. Sentavam na mesma cadeira do bar, Silvio pedia cerveja, e conversavam banalidades, mas lá pelas tantas da tarde, ele começava a ofender a parceira de bar, que só bebia refrigerantes, talvez a maneira discreta de acompanhá-lo na bebida. Silvio a ofendia culpava-a de sua infelicidade, ela o olhava, num olhar vago e meigo, ele dizia de sua solidão, que marcava a história de sua vida, culpava-a de não ter filhos, e dizia que odiava seus olhos azuis, suas rugas e seu silêncio.

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O Dinossauro Escritor

   (Tubarão – SC)   Eleutério (nome fictício) sentia-se diante de uma encruzilhada da vida. Considerava-se realizado sob vários aspectos. Apesar da idade avançada, ainda gozava de boa saúde, mente lúcida, vida tranquila, família unida, apesar de alguns desentendimentos, vários amigos e admiradores, principalmente, porque seu nome fora imortalizado, no panteão da história literária local, desde que fora admitido como um dos acadêmicos ilustres da região. Paparicado e respeitado, gozava de muito prestígio. Apesar de tudo isso, que aos olhos da maioria representaria sucesso estrondoso, cultivava no íntimo um desassossego, que não tinha cara, perfil, definição ou identificação. Era apenas uma palpitação estranha no peito.

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Um Voo Para o Infinito

A música suave fazia parte do cenário íngreme do Parque da Cidade, começava a primavera e as flores já se destacavam nas matas, ipês amarelos, quaresmas e outras árvores convidavam os pássaros para compor a beleza daquele local. Raios do sol reluziam nas folhas, pareciam luzes da ribalta dourando as pedras, o motor do carro até era suave diante aquele cenário natural, obra de Deus. Sheila e Francisco sorriam felizes para mais um final de tarde de vôo livre. O céu azul com nuvens em blocos parecia que Deus passara por ali, os pássaros em revoada bailavam como se uma orquestra invisível tocava a mais linda canção dos anjos. Sheila ficou pensativa, olhava para a natureza viva ao seu redor, e pensou nas palavras de sua mãe que a alertava do perigo de voar de asas delta. Francisco percebeu o silencio dela, e levemente segurou sua mão numa linguagem carinhosa que só ela conhecia, e […]

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A Afogada

     (São Paulo – SP) Levaria quase meia hora para Carolina percorrer a praia e meditar. Quais os erros e acertos do ano de 1975? O ano terminaria no dia seguinte. Ela queria saber. Foi um tempo proveitoso? Emagrecera oito quilos em nove meses. Oito quilos. A dieta exigiu força de vontade. Pouco açúcar. Nada de frituras. Habituar-se a caminhar pelas ruas do bairro. Sua grande meta sempre lhe beliscou: não seria mais o principal alvo das gozações dos meninos. Não mais a chamariam de baleia, de porca assassina… Foi nessa mesma praia. Aqui começara a planejar a mudança. O contra-ataque à indelicadeza dos meninos. Tornara-se cansativo vê-los no comando. Jogarem bola sobre a areia quente. Rolarem nos cantos como gatos quando se coçam.  Empinarem os músculos para as meninas.

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Os Mistérios do Número Trinta e Três

(São Paulo – SP) Trinta e três, era o número que Rebeca insistia em pensar enquanto aguardava na plataforma do metrô a próxima composição. Enquanto repassava a agenda do dia, tentava acompanhar o vai e vem frenético dos transeuntes no horário de pico. Seus olhos castanhos, vivazes e espertos, iam da direita para a esquerda, cima a baixo acompanhando a mobilidade das pessoas que iam para a escola, trabalho e outros compromissos. O número trinta e três voltou a lhe martelar os pensamentos enquanto embarcava para mais um dia de trabalho. Eram dez e trinta e três quando Anderson atendeu a chamada da campainha. A encomenda que tanto sonhara tinha acabado de chegar. Não contendo a emoção foi abrindo o embrulho, deixando os resquícios da embalagem casa afora. O objeto, uma pistola automática calibre 45, reluzia em suas mãos enquanto tentava manuseá-la em gestos ainda bruscos. Caminhou até o móvel antigo que era de sua […]

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A Jovem e Seus Sonhos

(João Pessoa  –  PB) Era uma vez uma jovem que saiu a caminhar por uma alameda de árvores frondosas, toda coberta de folhas, iluminada por um facho de luz e deslizando pela estrada em direção ao país dos sonhos. A jovem tinha como companheiro seu fiel cachorrinho, que lhe servia de escudeiro, protegendo-a dos perigos do mundo. Não sabia ela que lá encontraria: fadas, gnomos, borboletas, pássaros, árvores e belas cachoeiras com águas cristalinas. Tudo era mágico naquele lugar. As estrelas pareciam ter um brilho diferente. O luar banhava toda a natureza com a cor prateada que a lua emanava. O sol amanhecia saudando a todos com sua benéfica energia. E os pássaros em algazarra faziam um grande festim. A menina ao chegar, ficou deslumbrada e perguntou: – Que lugar é este? E uma voz respondeu: – É o país dos sonhos, que tanto procuras!

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O Literato

        (Tubarão – SC) Ao registrar sua filha como Maria Anja de Conhém, o pai deixava claro que nunca dera fé na história de que anjos não tem sexo. O sobrenome deveria ser o mesmo que o seu: Silva, porém, detestava seu nome de família e achava que a pequena tinha de ser marcada pela maneira como veio ao mundo, ou seja, de conhém, de esgueio, nem bem sentada, nem virada, dando um trabalhão e quase matando a mãe no parto. A pequena nascera com os olhinhos espichados, e no começo todos achavam que isso se devia ao trauma, na saída turbulenta do ventre da mãe; no entanto, com o passar do tempo, seus traços foram se acentuando e tomando um formato bem parecido ao do índio Grajaú, que se acoitara, durante um tempo, nas terras do pai, ajudando no roçado. Quando ficou claro que o silvícola, além de semear as terras, […]

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