A Andorinha

 Irá Rodrigues (Santo Estevão – BA) Pendurada em galhos escritos em folhas com tintas extraídas do arco-íris que cedia baldinhos das mais lindas e florescentes cores: o amarelo derramava pingos de sol, o verde se camuflava com as folhas, o azul como pedacinhos de céu e gotinhas de chuva o branco da cor das nuvens em dia de verão. Os passarinhos numa euforia total molhavam os bicos e escreviam seus versos encantando a natureza que lia e se declarava apaixonada pelos passarinhos poéticos. Em meio aquela preparação animada chega um aviso trazido pelo gavião que chegava apressado com o bico aberto de tão cansado. Era uma ordem do chefe da floresta e ai de quem o desobedecesse. O aviso dizia assim: “Ninguém deverá sair pela floresta, pois corre um boato de galho em galho de que uma ave de rapina muito misteriosa que voava pelas sombras atacando passarinhos indefesos e outros animaizinhos pequenos.”

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Joana, Jerônimo e o Caleidoscópio

Flavio Cruz (Orlando -FL- USA) Não sei que loucura que deu na cabeça do seu Juvenal. O lugar onde ele e dona Maria moravam já era um fim de mundo. E, mesmo assim, ele resolveu se mudar para mais longe. A Maria aceitou, porque ela era mulher de aceitar, mas não conseguia entender a cabeça do marido. Em parte, ela sabia sim. Era um danado de um eremita, parece que tinha medo de gente. Por ela, não ligava não. O que mais a preocupava era a criança. O que a Joana, uma menina de três anos, ia fazer num lugar daqueles? Criança acaba sobrevivendo a tudo. E Joana criou seu mundinho de fantasia ali mesmo. Os vizinhos mais próximos não tinham nada de próximos, estavam bem longe.  O Jerônimo era mais fácil de ser ver do que eles. Ele tinha uns 20 anos e seguiu a carreira do próprio pai. Uma espécie de caixeiro-viajante do […]

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Epitáfio

Valdirfilosofia (Penápolis – SP) Ju. Eu estou aqui porque tenho pensado demais em nossa relação. Nos sentimentos que tenho mantido por você e de tudo que estou passando sozinho, sem realmente você estar aqui, do meu lado. É tão frio. Eu não tenho suportado. Sei que é difícil para você. Imagine o quanto é difícil para mim. O quanto eu gostaria de ser diferente. Diferente para mim e para você. Eu tento dizer para mim. Tenha paciência, um dia vamos nos encontrar. Mas sabe, Ju. Acho que não dá. Eu não aguento mais tanta solidão. Eu não aguento aguentar essa dor que aquece minha mente, meu peito. Essa dor que machuca meu coração. Está difícil dizer para você assim. Eu estou aqui. Você… Você poderia me dizer algo.  Você me olha e não diz nada! Dizer suas famosas frases. Como eu queria ouvir de novo! Como eu adorava tanto suas frases: Valdir, eu odeio sua […]

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Nas Sombras de Gigantes

Douglas Barres (Porto Alegre – RS) A subida na montanha tomada pela neve foi sofrida. O Mago com mochila remendada nas costas, cabelos amarrados e roupa de frio feita com pele de urso, tentava recuperar o fôlego. Seu familiar, um lobo das montanhas, acompanhava cada passo de seu aliado. A montanha encontrava finalmente uma pausa nas escaladas para assim a dupla encontrar, na montanha mais a frente, um esqueleto cem vezes maior que o Elfo. A espada cravada entre os ossos do ser descomunal era ainda mais assustadora quando se falava de tamanho. Só que tamanha visão não espantou a dupla, era bem normal de ser encontrada em todo Plano Terreno. Os gigantes cravaram uma luta que durou séculos. Desceram de seus palácios nas nuvens para brigar em solo dos minúsculos, como eles mesmos chamavam os seres que habitavam abaixo deles. Nunca traga sangue para onde vive, seria o lema deles.

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Corpo Habitado

Breno S. Amorim (Petrolina – PE) “Que exilado – de si pode fugir?” (Byron. “A Inês”) Este mato seco, paisagem desértica, um casebre ao longe. Uma mulher atravessa a porta, parece chamar alguém, grita em direção à plantação de milho. O ônibus passa, meus olhos se perdem por entre o invariável cenário. A seca ainda castiga, penso como alguém que estivesse fora da terra. Não sou eu daqui? Há quantos anos deixei tudo? Uma mala pequena, quase nenhuma roupa e um livro. Sim, um livro, que até hoje carrego comigo, amarfanhado. O vento bate em meu rosto, abandono-me às reminiscências pungitivas, às horas de dor e sangue, de pranto e embaraço. Retorno. Meu pai coloca a enxada no ombro, o chamado de minha mãe, sempre pontual – hora do almoço. Interrompemos o movimento dos corpos sob o sol. Papai, de ordinário, bruto, não arrisca desatender ao sinal de sua mulher, para quem não existe família […]

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A Moça do Vestido Verde

Aristóteles da Silva (Mogi das Cruzes – SP) Vontade de desaparecer. A cada pessoa que entrava na sala de reuniões seu coração parava. Talvez tivesse sorte, ela podia não aparecer. Vã ilusão. Ninguém podia faltar nas avaliações de desempenho de sexta à tarde. Não sem ter uma excelente desculpa. Quase conseguira uma. Fechou um contrato de fornecimento de serviços para um condomínio na Cantareira. Veio pelo Centro e depois desceu a Av. Rebouças, ao invés de vir pelas Marginais.Tudo para não chegar a tempo no escritório na Faria Lima. Mas nem o trânsito paulistano ajudou. Por alguma obra de São Cristóvão estava tudo fluindo milagrosamente bem. Em um aparte esquizofrênico, escutou seu pai gargalhando na sua cabeça:-“Ou de Santa Maria Madalena! Hahahaha!”

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A Volta

Dona Iaiá (São José do Rio Preto – SP) Ao longe, ele avistou uma senhora cujos olhos se transformavam nas nascentes de dois rios tranquilos. Eles vinham assim, lentos e pesados, abrindo caminho por suas rugas até que, finalmente, encontravam a foz em seu queixo, de onde caíam tristes e formavam pequenas manchas molhadas no tecido do vestido florido. Aproximou-se devagar, compadecido diante da imagem tão melancólica que se formava com a figura da senhorinha aborrecidamente sentada no banco da rodoviária enquanto os últimos poucos raios de sol do dia atingiam suas mãos cansadas e parte de seu colo. Ela olhava para baixo, com as costas arcadas e a boca entreaberta, enquanto alguns legumes rolavam para fora da sacola de feira deixada no chão, bem ao lado de seus pés. Atônita, observava o trajeto que eles percorriam, quase até a sarjeta, sem nada fazer.

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Ondas do Mar da Vida

                                                                                                                Marília Francisco (Viamão – RS) Chovia e não chovia, chuviscava durante a inerte tarde de outono. Antunes estava sentado em fr ente à janela de sua quase sempre movimentada sala gélida tomando seu café e saboreando seu fumo enquanto se lembrava da longínqua e quase esquecida vida à beira mar que vivera em um sonho que realizara e que dele desistira pelos pesados pesadelos que tivera. O fechado mar azul, a estreita e longa faixa de areia encascalhada, as pedreiras, a bica d’água doce que escorria, os encantados que a habitavam, o céu quase sempre límpido mas nem sempre sereno, o ar, às vezes um tanto esfumaçado, as ruas calmas mas nem sempre serenas, os pássaros cantores… O cheiro da vida era perfumado, era embriagado. Passos leves e constantes que a lugar algum iam, mas que a alma impressionavam em saltos. Sentado à beira do mar, dentro de um ancorado barquinho, Antunes refletia junto […]

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A Luz de Helena

 Flávio Cruz (Orlando – FL – USA) Helena estava furiosa. Tinha acabado de brigar com Fernando, seu marido. Pegou a bolsa, bateu a porta do apartamento com força, e saiu. Entrou no elevador, deixou o prédio e começou a andar a esmo pelas ruas. Depois de uma meia hora, percebeu que estava próxima da residência de sua irmã. Resolveu, então, ir até lá e chorar suas mágoas. Sétimo andar. Rose a recebeu com um abraço gostoso e ela respondeu com soluços. Contou tudo, abriu a alma. Tomou duas xícaras de chá, um calmante. Depois de umas três horas e bastante conversa, estava bem melhor. A conselho de Rose, voltou para casa. Deveria conversar com o esposo, curar as feridas, acertar os ponteiros. E foi. Décimo andar, apartamento 102. Ao tentar abrir, viu que a chave não servia. Nervosa? Colocando a chave ao contrário?  O lugar estava certo, lá estava a decoração do último natal, inconfundível […]

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