A Jovem e Seus Sonhos

(João Pessoa  –  PB) Era uma vez uma jovem que saiu a caminhar por uma alameda de árvores frondosas, toda coberta de folhas, iluminada por um facho de luz e deslizando pela estrada em direção ao país dos sonhos. A jovem tinha como companheiro seu fiel cachorrinho, que lhe servia de escudeiro, protegendo-a dos perigos do mundo. Não sabia ela que lá encontraria: fadas, gnomos, borboletas, pássaros, árvores e belas cachoeiras com águas cristalinas. Tudo era mágico naquele lugar. As estrelas pareciam ter um brilho diferente. O luar banhava toda a natureza com a cor prateada que a lua emanava. O sol amanhecia saudando a todos com sua benéfica energia. E os pássaros em algazarra faziam um grande festim. A menina ao chegar, ficou deslumbrada e perguntou: – Que lugar é este? E uma voz respondeu: – É o país dos sonhos, que tanto procuras!

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O Literato

        (Tubarão – SC) Ao registrar sua filha como Maria Anja de Conhém, o pai deixava claro que nunca dera fé na história de que anjos não tem sexo. O sobrenome deveria ser o mesmo que o seu: Silva, porém, detestava seu nome de família e achava que a pequena tinha de ser marcada pela maneira como veio ao mundo, ou seja, de conhém, de esgueio, nem bem sentada, nem virada, dando um trabalhão e quase matando a mãe no parto. A pequena nascera com os olhinhos espichados, e no começo todos achavam que isso se devia ao trauma, na saída turbulenta do ventre da mãe; no entanto, com o passar do tempo, seus traços foram se acentuando e tomando um formato bem parecido ao do índio Grajaú, que se acoitara, durante um tempo, nas terras do pai, ajudando no roçado. Quando ficou claro que o silvícola, além de semear as terras, […]

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O Espelho

    (Goiânia – Goiás) Ele não tinha muito o que dizer, permaneceu calado. O silêncio sempre representou uma espécie de refúgio mental, os pensamentos podiam fluir melhor. A terapeuta dava conselhos profissionais, mas ele não conseguia escutar apesar de manter-se olhando para ela sem enxerga-la. Era um rapaz gentil mesmo quando desinteressado no mundo à sua volta. Despediu-se da terapeuta e fez o trajeto de volta para casa através da praia. Não era necessariamente para ver o mar, e sim, para ouvi-lo. Seus olhos estavam acostumados a maré do fim de tarde, porém, ouvir as ondas parecia-lhe algo continuamente inédito. M sentou-se de frente para vastidão da praia em um banco de cimento, mergulhado no silêncio aquoso de sua mente onde o único pensamento que rodopiava era “o que acontece comigo?”. Sentia-se tão distante de si era como se seu corpo estivesse ali estático e sem vida enquanto a alma vagueava solta em alguma […]

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O Pesadelo

Roberto J. Fraga Moreira (Rio de Janeiro – RJ) A tarde estava chegando ao fim e a luz do dia cedia lugar às sombras do entardecer, conferindo ao ambiente uma tonalidade cinza que passava para o negro à medida que o sol desaparecia no horizonte. As pessoas saiam apressadas do trabalho e se dirigiam aos automóveis, ônibus e metrô num frenesi próprio dos que anseiam chegar rapidamente às suas residências. Raul, da janela do seu escritório, situado no 30° andar de um luxuoso prédio comercial, desfrutava de uma visão privilegiada da cidade. De lá observava o burburinho do final de tarde e achava divertido toda aquela correria, como se todos estivessem fugindo de um perigo imaginário. Sonolento com essa movimentação, não percebeu quando a secretária entrou na sala, e somente deu conta de sua presença quando ela disse: – Passei para desejar boa-noite e indagar se o senhor pretende fazer alterações na agenda de amanhã? […]

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A Morte Pede Carona

 Vanderlei Antônio de Araujo (Goiânia – GO)  Em histórias de caçador só acredita quem quer. Geralmente, ninguém acredita, mas, gosta de ouvir. Quando o assunto é contar mentira, nunca falta alguém para contar uma de caçada ou pescaria. Meu cunhado me disse isso ao me contar esta história, que segundo ele aconteceu com um seu compadre, homem honesto e trabalhador e de muita confiança. Por isso, se aconteceu com ele eu acredito que seja verdadeiro, disse. E usando as palavras do seu compadre, ele me contou esta história: Dia desse compadre, eu fui caçar. Peguei minha espingarda, carreguei com chumbo grosso, apanhei uma rede para nos casos de ter que dormir no mato, e fui lá para as bandas do rio. A noite chegou, e eu ainda não tinha encontrado nada. Decidi então, esperar em cima de uma árvore. Subi e armei a rede num lugar bem alto, de onde eu pudesse ver quando algum […]

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A Morte dos Anões

Paulo Fontenelle de Araujo (São Paulo – SP) Sempre aos sábados, Paulo, cinco anos de idade, seguia a mãe por aquela feira livre no bairro de Moema.  Feira comprida, cheia de cacarecos, meio circense, percorria muitos quarteirões, virava em uma rua sem nome e beirava os trilhos do bonde de Santo Amaro. A mãe de Paulo escolhia ali suas dúzias e experimentava nacos de frutas, oferecidos pelos feirantes na prova da garantia do produto. O menino observava o comércio e mal chegava ao nível das prateleiras. Sabia, no entanto, a organização do lugar: na entrada gelavam os peixes, depois rolavam as laranjas e bem no meio espalhavam as outras frutas. (Aliás, para os olhos de Paulo, bananas e peixes assemelhavam-se pela enorme variedade. A banana-maçã estava para a sardinha e a banana-prata poderia ser a corvina).

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A Andorinha

 Irá Rodrigues (Santo Estevão – BA) Pendurada em galhos escritos em folhas com tintas extraídas do arco-íris que cedia baldinhos das mais lindas e florescentes cores: o amarelo derramava pingos de sol, o verde se camuflava com as folhas, o azul como pedacinhos de céu e gotinhas de chuva o branco da cor das nuvens em dia de verão. Os passarinhos numa euforia total molhavam os bicos e escreviam seus versos encantando a natureza que lia e se declarava apaixonada pelos passarinhos poéticos. Em meio aquela preparação animada chega um aviso trazido pelo gavião que chegava apressado com o bico aberto de tão cansado. Era uma ordem do chefe da floresta e ai de quem o desobedecesse. O aviso dizia assim: “Ninguém deverá sair pela floresta, pois corre um boato de galho em galho de que uma ave de rapina muito misteriosa que voava pelas sombras atacando passarinhos indefesos e outros animaizinhos pequenos.”

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Joana, Jerônimo e o Caleidoscópio

Flavio Cruz (Orlando -FL- USA) Não sei que loucura que deu na cabeça do seu Juvenal. O lugar onde ele e dona Maria moravam já era um fim de mundo. E, mesmo assim, ele resolveu se mudar para mais longe. A Maria aceitou, porque ela era mulher de aceitar, mas não conseguia entender a cabeça do marido. Em parte, ela sabia sim. Era um danado de um eremita, parece que tinha medo de gente. Por ela, não ligava não. O que mais a preocupava era a criança. O que a Joana, uma menina de três anos, ia fazer num lugar daqueles? Criança acaba sobrevivendo a tudo. E Joana criou seu mundinho de fantasia ali mesmo. Os vizinhos mais próximos não tinham nada de próximos, estavam bem longe.  O Jerônimo era mais fácil de ser ver do que eles. Ele tinha uns 20 anos e seguiu a carreira do próprio pai. Uma espécie de caixeiro-viajante do […]

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Epitáfio

Valdirfilosofia (Penápolis – SP) Ju. Eu estou aqui porque tenho pensado demais em nossa relação. Nos sentimentos que tenho mantido por você e de tudo que estou passando sozinho, sem realmente você estar aqui, do meu lado. É tão frio. Eu não tenho suportado. Sei que é difícil para você. Imagine o quanto é difícil para mim. O quanto eu gostaria de ser diferente. Diferente para mim e para você. Eu tento dizer para mim. Tenha paciência, um dia vamos nos encontrar. Mas sabe, Ju. Acho que não dá. Eu não aguento mais tanta solidão. Eu não aguento aguentar essa dor que aquece minha mente, meu peito. Essa dor que machuca meu coração. Está difícil dizer para você assim. Eu estou aqui. Você… Você poderia me dizer algo.  Você me olha e não diz nada! Dizer suas famosas frases. Como eu queria ouvir de novo! Como eu adorava tanto suas frases: Valdir, eu odeio sua […]

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