Traquinices

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Nas nossas memórias temos momentos em que a saudade nos deixa uma lágrima ao canto do olho. Outras, um sorriso meio maroto quando retrocedemos no tempo e vemos como são uns autênticos meninos do coro as crianças de agora quando comparadas connosco com a mesma idade. Éramos criados um pouco ao Deus dará, sem luxos nem entraves, quanto ao que fazer nos tempos livres. Tal como aves, assim que saem do ninho, também nós, errávamos pelas ruas e campos numa completa liberdade, correndo riscos de fazer brancas a qualquer pai. A única condição era estar em casa ao escurecer e horas de refeições e claro, executar as tarefas que nos eram incumbidas.

Leia Mais

Inversão de Papéis

       (São Paulo – SP)   Quando o Coronel Ermenegildo de Castro leu a notícia de que a oposição iria impedi-lo de inaugurar o tão sonhado chafariz na praça central, amassou furioso o Correio Matutino, desfiou um rosário de vitupérios e arremessou o copo de cachaça contra a parede. Afinal, ponderava, o fato de ter mandado incrustrar-lhe a própria efígie em nada arranhava a honradez de sua administração. Esse mimo, pagara-o do seu bolso, num ato de extremo desprendimento. Que mal haveria então? – Foliculário! – chamava-o o autor do artigo, seu arqui-inimigo – Nem a imprensa nem a Justiça me amedrontam. O cronograma será mantido, e ai daquele que tentar me atrapalhar!

Leia Mais

Uma Manhã Diferente

        (Rio de Janeiro – RJ) No princípio era apenas uma manhã de sol ameno com uma brisa refrescante de um finalzinho do outono. O céu ao amanhecer apresentava um azul extraordinário e sem   nuvens, dando àquele quadro a claridade e a harmonia que a natureza gentilmente oferecia. Mas existia um detalhe interessante em relação a esse belo despertar. Estranhamente não se ouvia nenhum som produzido pelos pássaros, que comumente provocavam intenso alarido ao voarem em bandos à cata de alimento ou para construírem os seus ninhos. 

Leia Mais

Há Dias Assim

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) – Quero uma taça de vinho branco. Se ninguém pagar pago eu! Estranho modo, este, de pedir que lhe sirvam uma taça de vinho branco com gasosa, porém, teve o efeito de fazer-me voltar a cabeça para visionar o seu autor. Olhei para o lado e vi que me encontrava apenas com os meus amigos, Antero e Avelino junto ao balcão. É certo que muitas vezes gosto de me aviar na sua banca e sempre que o vejo peço-lhe para ser ele a atender-me, ao mesmo tempo que lhe solicito quando for a época para me arranjar avelãs (um dos meus pecaditos). Mas daí a entrar com tal rompante sem que alguma vez tivéssemos confraternizado, achei-lhe um certo descaramento.

Leia Mais

Trágico Destino

      (Santa Brígida – BA)   Foi precisamente na cidade luz, situado no interior da fabulosa Bahia de todos os santos e encantos, que fora tecido os fios de algodão do branco destino. Os tecelões confabulavam com as estrelas sobre os primórdios dias de uma brusca fatalidade. O condão, este senhor cheio de peripécias, por muitas vezes nos prega das suas, com Ataíde da Mota Júnior não foi diferente. Ataíde era um desses caboclos metidos a galanteador, dado muito a festa e namoricos com as ingênuas moçinhas, em especial, as dos povoados circunvizinhos a Paulo Afonso. Assim sendo, era típico encontrá-lo nos finais de semana, no qual Zezinho da Ema iria tocar sua sanfona. Fora durante um desses forrós que o jovem paquerador conheceu a linda Carmelita. Uma jovem de soberba beleza, de olhar agateado, dona das mais sensuais e perigosas curvas, mais perigosas de que as curvas de Santos, os seus lábios […]

Leia Mais

O Papel, os Subterfúgios e a Luz

        (Fortaleza – CE) Saíra do hospital Chagas Nobre atônita, demasiadamente taciturna. As lágrimas, sufocadas, anestesiaram seus pensamentos. O olhar paralítico, estático, fitava um ponto qualquer da rua oposta da qual se encontrava. A mão esquerda segurava quase sem força um papel. O papel. A outra mão buscava desesperadamente acariciar algo. Um algo que ela não sabia bem. Este instante espaço de concatenar sua existência somente fora interrompida pela frenética buzina de um corsa prata que passava. “Sai da frente, quer morrer sua louca”.

Leia Mais

O Aniversário de Lúcia

      (São Paulo – SP) Quando Lúcia, dez anos completados em agosto, entrou no Jardim Zoológico de Brasília, correu, virou à esquerda na primeira alameda, seguiu o rugido dos leões e perdeu-se dos familiares.Melhor agora, a excursão seria dela e também da sua saia xadrez de zebra,  da camisa branca igual ao cisne, dos brincos de bolinha dourada para os beija-flores. O resto da família: o pai, a mãe, os três irmãos eram orelhas sem adornos. A garota aguardara ansiosa este domingo no zoológico. Ali vestiria o casaco do leopardo. Imaginou a Savana Africana. O rinoceronte correria atrás do próprio chifre.  Os avestruzes engoliriam garrafas de Coca-Cola.

Leia Mais

Folia da Bicharada

          (Santo Estevão – BA) Era uma vez… uma confusão numa floresta mais ou menos encantada, árvores que dormiam numa preguiça tão infinita que nem uma folha se balançava. Nesses dias, em que iniciava o inverno, era tanto silêncio que nem se ouvia o canto de um atrevido passarinho, nem o voar de um inseto, de tão frio. O dia acordava e todos os moradores só sabiam implorar ao sol para aparecer pelo menos um fiozinho de nada. E quando um rastinho iluminado penetrava entre as folhagens pendidas pelas gotas serenadas que caíram durante a noite, lá estavam todos se refastelando nas horinhas quentes, uns se espichando ao solo, outros de asas abertas empoleiravam nas cerquinhas, até os macaquinhos enfileiravam para se aquecerem do frio. As borboletas, se achando o encanto da natureza, ficavam esvoaçando e bicando o sereno das flores. Mas logo escurecia, a chuva miudinha caía, todos os bichos […]

Leia Mais

Demônios do Alabama

  (Orlando – FL – USA)   Samuel estava sentado sobre a sela de um cavalo naquela manhã longínqua de primavera. As pessoas à sua volta gritavam, excitadas, palavras de insulto, xingamentos e outras impropriedades. Ele mal entendia o que estava acontecendo, mas sabia que não era nada bom. Em volta de seu pescoço havia uma corda que, mais acima, estava amarrada ao galho de uma árvore. Era o começo do século 19 numa pequena cidade do interior do Alabama, nos Estados Unidos, e ele estava aguardando sua execução. O povo tinha verdadeira obsessão por enforcamentos e é por isso que muita gente havia se juntado na pequena praça. O carrasco e mais as autoridades estavam aguardando a chegada de alguém importante para presidir o ato e o povo estava ficando impaciente. Queriam ver o espetáculo.

Leia Mais

O Covarde

        (Salvador – BA) A brincadeira no lago era uma brincadeira de assassinos. O lago era fundo e moradores locais diziam que estava cheio de piranhas, mas era um modo de impedir que as pessoas se aproximassem. Não acreditamos na mentira. Mas mesmo assim algo me dizia que se fossemos, não iríamos retornar. Uma brincadeira não vale o risco. O desafio era aparentemente simples: atravessar o grande lago nadando. Ninguém nunca tinha conseguido atravessar. O mal vivia dentro daquele lago. Algo tão ruim que fazia as pessoas desaparecerem. Os corpos nunca eram encontrados. Éramos apenas quatro adolescentes procurando adrenalina. Dois casais.

Leia Mais