Terno e Gravata

      (São Paulo – SP) Dizem que as vítimas confundem o rosto do agressor, mas as testemunhas viram que ele era um homem magro de cabelos curtos, rosto comprido e encovado. O rosto parecia estar mal lavado, cheios de manchas, mas o bandido também poderia sofrer de algum tipo de melanoma. Não dava para afirmar, embora fosse nítido que os olhos do sujeito abriram vermelhos, como se ele acabasse de sair de um bar após embriagar-se e entrasse naquele coletivo quase vazio. Carregava uma mochila velha, sentou em um dos bancos laterais e certamente não gostou de Clayton, da sua aparência geral. Logo de Clayton, que seguia para uma entrevista de emprego vestindo terno e gravata.  Após dez minutos de viagem, o tal homem levantou-se, parou no corredor do ônibus e, sem dizer nada, tirou um revólver da bolsa e apontou contra a cabeça de Clayton.

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Um Pouco De Sentido Àquilo Que Não Tem

        (Patos de Minas – MG) Lá estava eu, depois de mais uma bela noitada em uma taberna qualquer, em nossa milésima discussão sobre o porquê de eu ter passado mais uma noite oculto na esbornia. Ela não consegue entender que às vezes eu preciso ter os meus momentos a sós comigo mesmo, que ás vezes eu só quero ficar muito bêbado, dormente e ser carregado por algum funcionário do bar ou pelo taxista até em casa. E ainda por cima, insiste em me questionar e dizer que eu a traio sempre nessas minhas noitadas no bar, mas o que ela não percebe, é que a minha única companhia nesses botecos, são solidão da minha consciência sombria e um copo de bebida qualquer bem forte, e que o meu único objetivo, é sair, mesmo que por poucas horas, desse mundo sujo em que ainda insistimos, dia a dia, em sobreviver.

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O Rumor de Um Ausente

        (Petrolina – PE) Cá, a mesma parede ferida por um prego. Um espelho retangular, o Charlie Chaplin ao centro, sustinha-se no prego deslembrado por vórtices e rodamoinhos. Argamassa, matéria bruta, cobre o rasgo. A parede, aplanada, alumbrando tonalidade distinta, outra – o buraco, apesar, diante dos meus olhos, próximo ao primeiro quarto, espaço da sala de entrada. Não o alcançávamos, eu e meus irmãos. Meu vô saía do quarto – a camisa por dentro da calça de brim azulada; obliquamente, uma pasta de pano rijo -, caminhava em direção à sala frontispícia, a mão, no bolso, retirava um pente oval, mirando-se no espelho: fiapos de cabelos lançados para trás. Imagens eidéticas me povoam.

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A Prenda de Natal

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) A ténue luz da candeia a petróleo era ampliada pelos tocos de pinheiro, impregnados de cerne, que ardiam na lareira. Em cada um dos lados, uma panela de ferro fumegava. Em volta, o rosto corado de quatro crianças labutavam com uma malga de caldo com broa migada. O silêncio reinante era interrompido amiúde pelo estalar de uma ou outra cavaca, e o ruído das colheres, no vaivém de encher e levar à boca. A um canto, um homem ainda novo olhava para a lide da sua mulher, na azáfama diária de fazer e servir a ceia aos garotos. Também ele esperava paciente pela sua malga de caldo.

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Um Quarto Empoeirado…

        (São Paulo – SP) Um mergulho nas janelas do passado e reminiscência na pele da alma reeditaram lembranças. Sua memória não era curta, apesar de esquecer nomes. Elizabeth vivia de acreditar e acreditava. Ingênuamente a sonhar, um desejo romântico trouxe adereços que adornavam um quarto de menina. Perfume de alfazema pairava no ar. O som de risadas infantis ecoava pelos quatro cantos da casa se misturando à paz de beijas flores entrando e saindo pelas janelas de madeira pintadas de azul.

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A Última Caixa

        (Belo Horizonte – MG) Falta apenas uma caixa, intencionalmente deixada aberta. O resto já foi carregado no furgão. Eu disse aos caras que vou alcançá-los dentro de cinco minutos. Os últimos cinco minutos nesta casa. A encontrei através da sugestão de um amigo, há oito anos, pouco depois do divórcio. Uma casa acolhedora, com uma boa vista e um lindo quintal. Ideal para passar o fim de semana com meus filhos e o tempo restante na solidão, para pegar os pedaços de uma vida que foi subitamente quebrada. E, agora que eu estou indo para um novo começo, é difícil olhar ao redor sem sentir uma profunda melancolia. Não são muitas as coisas que ainda faltam. No final, grande parte do que permanece é lixo que eu poderia fazer sem, mas que vou levar comigo. A garrafa de Martini, em cima da lareira, me convida pra beber uma última gota. Resisto.

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A Luta

        (São Lourenço – MG) Ele olhava ao redor e só via nas pessoas  a figura de monstros, caminhava  cabisbaixo, de vez em quando as lágrimas caiam, não tinha mais noção  se um dia teve momentos felizes, era um garoto que já ia entrar na adolescência, se abominava, retorcia de lembrar que um dia tinha nascido, repugnava tudo de si, os sofrimentos sempre o atormentava, seu nome? Recusava dizer, recusava pensar  um ser humano  ser, o garoto maltratado, no seu nascimento foi jogado  fora, foi atirado no lixo, só de lembrar,  ele por estes caminhos chora!

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O Menino Que Vivia Sonhando

        (Santo Estevão – BA) Muito pobre, filho de uma lavadeira, todos os dias sua mãe descia o morro para levar a roupa lavada para a casa da patroa. O menino sempre estava ao seu lado e na descida ia sonhando acordado que um dia iria crescer, trabalhar e ter dinheiro, assim sua mãe não iria mais subir e descer o morro  carregando  pesadas trochas  de roupa na cabeça. Chegava o mês de maio e com ele o dia das mães, o menino queria dar um presente para sua tão querida mãezinha e ficava planejando: entregaria a ela um lindo ramalhete de flores, uma casa com jardim e na varanda uma cadeira de balanço, assim ela ficaria as tardes se balançando enquanto ele sai para trabalhar e a noite, os dois felizes sentariam à mesa da cozinha degustavam um saboroso jantar e depois iriam ver a lua que sorria lá pertinho do morro. […]

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Calcinha Preta

    (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Gervásio já conta com o triplo de anos do que provavelmente aqueles que terá pra viver. Desde a morte da sua mulher que se tornou irrascível, solitário e sem vontade de viver. Contava os dias como se fossem anos, rezando aos santos da sua devoção para que fosse bafejado pela morte. Não que tivesse dificuldades económicas ou físicas, apenas porque desde que a defunta partira, nunca mais sentira um perfume feminino que lhe fizesse o velho coração pulsar como outrora. Talvez fosse essa a razão por que ficou tão zangado com a jeitosa vizinha do primeiro, quando esta deixou cair do estendal uma calcinha preta bem no centro da sua alva carequinha. Uns impropérios de baixo para cima, com a senhora humildemente a pedir desculpa, que lhe tinha escapado, mas também não era preciso fazer um escândalo por tão pouco, e se tinha que lhe dizer […]

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Um Outro Condutor

      (São Paulo – SP)     Sandoval trabalhava como condutor de trens do metrô na cidade do Rio de Janeiro, mas para ele algo que lhe inspirava durante seu expediente era a imagem da grávida sentada mastigando biscoito. Esta imagem principalmente, entre algumas outras imagens dentro dos vagões: o advogado que precisava chegar a audiência; o estudante atrasado para a prova final; outro adolescente fora do horário em seu primeiro dia de emprego; o executivo que calculava descer na Cinelândia e pegar um táxi rapidamente para o aeroporto porque voos não esperam. Sandoval sentia a importância que seu trabalho causava em todos os passageiros. Gostava mais quando o trem parava por causa de algum incidente. Os passageiros distraídos no início e depois impacientes, respiravam fundo, e somente ele, o condutor, sendo capaz de mudar tudo.

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