Cidade: Palavra Confusa

          (Petrolina – PE) ‘’A rua nasce, como o homem, /do soluço, do espasmo./ Há suor humano/ na argamassa do seu calçamento.’’ (João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas) Enquanto observo as portas e janelas ogivais do Teatro 4 de setembro, sua voz estala em interrogação: – Escreves sobre o quê? Esta construção mantém a fachada original, edificada em estilo neoclássico, 1984, o ano. – Sobre o fracasso – arrisco. A boca dela se abre, apenas de canto. Abertura irônica, os lábios, em dúvida, cobrindo parte dos dentes. Descrê, noto, na palavra fracasso em boca de um suposto vencedor. Seus olhos, mudez absoluta, parecem faiscar palavras em modo de deboche; ouço, meus ouvidos cheios de eco, uma recriminação, como quem, dissimulado, alcança todas as glórias, aceita-as e, apesar, entre um e outro gole de cerveja, enuncia a palavra derrota apenas para impressionar aluna qualquer, sedento por admiradores, discípulos e psitacismo.

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Unhas

        (São Paulo – SP) Tinha que ser logo no dia em que toda a sua família estava em sua casa. Um vento forte fechou a porta do quarto na ponta do dedo médio esquerdo de Oswaldinho, seis anos de idade. Waldinho gritou, saiu correndo, encontrou a mãe e chorou. Suplicou à mulher que lhe salvasse o dedo. A mãe soprou, soprou, passou mercurocromo, cobriu o machucado com ‘band-aid”, beijou o dedo, as mãos do filho, beijou  e despachou o garoto. A dor, de fato, passara, mas o menino parou na ferida. Ficou remexendo o machucado. Tirava o “band-aid”. A unha surgia. Diferente, roxa, dobrada.  Mostrou para a tia, exibiu para os primos. Apontou o sangue coagulado. O pai chegou em casa. Examinou o dedo e perguntou se o filho chorara. – Homem não chora. Não quero filho maricas, chorando por bobagens. 

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A Grande Festa

        (Santo Estevão – BA) A floresta começa a se movimentar para a grande festa de lançamento do livro escrito pela bicharada. Foi aquela correria.  Só conseguiram terminar por volta da meia noite e meia. Não foram poucos os que vieram a essa comemoração. Chegaram poemas rebordados com fios de seda todos trabalhados cuidadosamente pelo tear das aranhas, outros perfumados com a essência das mais belas flores trazidas pelas borboletas. Os poemas mais doces foram trazidos pelas abelhinhas, escritos com fios de mel, fios caramelizados e outros com gostinho açucarado, seguros nos bicos de milhares de beija- flores; as fadinhas resgataram as cores do arco- íris deixando os poemas com o mais lindo colorido que  parecia um jardim de versos de tão florido que estavam.

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Medricas

      (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) – Salta! Vá, vá não tenhas medo, vais ver que não custa nada… – Não consigo! – Balbucia Zeferino, do alto. Farto de ser humilhado pelos demais, Zeferino afoitou-se a subir para cima do barril e saltar para a água, provando à malta que também era capaz. Empoleirado, tentava não deixar transparecer o medo que sentia ao ver a altura do salto, mas sentia um terror enorme naquele mergulho de pouco mais de um metro. Não, não era apenas um metro, mas uma altura complicada para ele, pelo receio de cair mal. «Não gostava de correr riscos e daí?»

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Calma Como a Própria Tempestade

        (Patos de Minas – MG) Eu não sei ao certo como agir ou o que falar logo após a pessoa virar de repentinamente e dizer que ela me ama, eu não saberia como agir nem mesmo com um aviso prévio, na verdade. Ela simplesmente acordou ao meu lado, como já faz há meses, insistiu em me acordar com carinhos debaixo do cobertor e disse que me ama, olhando profundamente em meus olhos… Não tive reação. Não achei bom acordar assim. Talvez tenha sido um pouco bom. É bom saber dessas coisas, apesar de não me achar merecedor de amor algum, de quem quer que seja. A minha incapacidade de reagir positivamente a isso, à fez mal. Sempre a faz mal.

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Quando Deus Criou as Aves e os Pássaros

         (Suzano – SP) (Fatos da Criação das aves) No tempo da Criação Deus estava criando entre todas as Maravilhas os pássaros. Como eram uma quantidade enorme de pássaros e aves Ele queria dar um toque especial e único a cada espécie. Cuidadosamente colocou todos numa mesa e para assegurar que ficassem quietos à espera de sua pintura, enquanto passava com sua palheta e pincel dando Seu toque especial de cor a cada um amarrou suas pernas pedindo que aguardassem a pintura e a sua secagem.

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Mentiroso! 

        (Araranguá – SC) Toninho derramou todo o café sobre o moletom.  Uma esfera translúcida acabava de se materializar em seu jardim. A velha laranjeira, plantada por seu avô, pareceu não se importar com a ventania. As coisas ficaram ainda mais estranhas quando, de uma abertura invisível, duas pequenas figuras, de notável molejo, desceram. Toninho sacudiu as mãos, largou a xícara e se livrou do moletom. Limpou os óculos e retirou um celular do bolso. Não hesitou. Ninguém acreditaria em suas palavras. Uma foto, por outro lado, comprovaria tudo.

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Manhã de Primavera

          (Maringá – PR) As últimas pétalas de ipê amarelo pincelavam pela longa calçada, assíduas ao começo da nova estação. Gotículas de orvalho prateavam como um caleidoscópio sobre os finos espinhos de um pequeno cacto. Uma pálida orquídea brotava solitária enxertada no topo de um arbusto, ostentada como um cálice sagrado. O sol acordava descortinando-se acima de um lençol de nuvens peroladas, desdobrando as finas pálpebras turquesa daquela manhã de primavera, seus feixes de luz acariciando como dedos afáveis a copa das árvores, dedilhando suas madeixas florais com seu cafuné dourado, depois despindo por sua vez cada árvore da escuridão, como um amante ardente.

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Louca Tentação

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) James, amor da minha vida! Parece que foi ontem que te vi, no entanto, tanta água já passou debaixo da ponte. Estava acompanhado pela minha esposa naquela manhã de Domingo. O desejo de um café fez-nos entrar. Enquanto o saboreava, espraiava a vista pelo ambiente repleto de gente que entrava e saía, subitamente como que hipnotizado, quedei-me. O meu olhar prendia-se agora à tua elegante figura. Senhor de ti, e rodeado dos teus iguais, certamente que não te apercebias do ar de basbaque com que te mirava. Um toque no braço para pagar a conta, acordou-me. Só então dei conta da figurinha que estava a fazer. Corei e censurei-me por essa minha fraqueza, ainda mais, por ter a meu lado a incomodativa presença da minha esposa.

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O Aniversário de Isabel

        (Natal – RN) Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a mulher iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Errou feio: Isabel surgiu na quina em que mergulhara. “Pelo olhar de decepção, peguei você, não foi, meu caro Bezerra?”, gritou Isabel, sorrindo. Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse papo, Bel teria vindo aqui, matutou.

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