O Aniversário de Isabel

        (Natal – RN) Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a mulher iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Errou feio: Isabel surgiu na quina em que mergulhara. “Pelo olhar de decepção, peguei você, não foi, meu caro Bezerra?”, gritou Isabel, sorrindo. Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse papo, Bel teria vindo aqui, matutou.

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O Contador de História

        (São Lourenço – MG) A noite estava praticamente gélida, não bastando isto, havia algo de tenebroso no céu escuro, dava a impressão que não existia nada acima daquele manto completamente negro, parecia que a lua se escondia ou talvez não apareceria mais, as pessoas na rua dava a impressão de seres completamente adversos, diferentes nas aparência diferentes até no interior, tudo estava indicando que todos independente de quem fosse, o fim seria num insondável abismo. Ronald, aquele repórter incansável, apaixonado por histórias, sentia tudo isso no seu interior, realmente a noite estava assombrosa, mas as pessoas aquelas pessoas diferentes em tudo, ele poderia se enquadrar exatamente igual, poderia porque de repente ele queria sentir diferente, mas existia diversas indagações na sua mente, vida, morte, relacionamentos humanos, diversidades no pensar.

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A Quitanda

        (Salvador – BA) Já tinha passado muito tempo. Talvez, umas quatro décadas. Sei que o tempo galopa, marcha de forma decisiva e definitiva para o amanhã. O tempo tem esta mania de amolecer o juízo da gente, e de repente a lembrança vai se esmaecendo, levando cada vez menos certezas às nossas recordações. Aquela quitanda, ali, presa na beira da rodagem, era a única na redondeza. Era uma estrada de chão, barro vermelho, que rasgava aquele pedaço da mata atlântica. O cheiro de chuva na terra e os lamaceiros constantes que amuavam as mulas e os jegues que passavam em comboio de três, às vezes cinco, sempre carregados, permaneciam nas minhas lembranças.

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Viagem insólita

        (Suzano – SP) Inverno de 2016 (experiências extra corporal) Madrugada de sexta feira recolhi me em minha cama e como estava frio coloquei dois cobertores e logo peguei no sono. De repente senti me fora de casa, fora de meu corpo e num lugar distante, sombrio e pude logo enxergar duas meninas de pouco mais de 10 anos. Ambas estendiam os braços pedindo por ajuda.

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Desvanecer

        (Goiânia – GO) “Não recues! De mim não foi-se o espírito…  Em mim verás – pobre caveira fria – Único crânio que, ao invés dos vivos, Só derrama alegria. Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte Arrancaram da terra os ossos meus. Não me insultes! empina-me!… que a larva Tem beijos mais sombrios do que os teus (…)” ( Lord Byron) Quando abri a porta já era noite. Passei o dia todo sem ter a decência de subir as escadas para vê-la. Era insuportável para mim se quer fita-la em alguns dias, era incomensurável definir o que sentia a cada degrau que me levava para a atmosfera pestilenta do quarto em que ela repousava. Adelaide estava como sempre aninhada no centro da grande cama de casal, envolvida por tantos lençóis limpos que a empregada devota trocava dia após dias na tentativa de dar à patroa uma espera pela morte no mínimo higienizada, […]

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Terno e Gravata

      (São Paulo – SP) Dizem que as vítimas confundem o rosto do agressor, mas as testemunhas viram que ele era um homem magro de cabelos curtos, rosto comprido e encovado. O rosto parecia estar mal lavado, cheios de manchas, mas o bandido também poderia sofrer de algum tipo de melanoma. Não dava para afirmar, embora fosse nítido que os olhos do sujeito abriram vermelhos, como se ele acabasse de sair de um bar após embriagar-se e entrasse naquele coletivo quase vazio. Carregava uma mochila velha, sentou em um dos bancos laterais e certamente não gostou de Clayton, da sua aparência geral. Logo de Clayton, que seguia para uma entrevista de emprego vestindo terno e gravata.  Após dez minutos de viagem, o tal homem levantou-se, parou no corredor do ônibus e, sem dizer nada, tirou um revólver da bolsa e apontou contra a cabeça de Clayton.

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Um Pouco De Sentido Àquilo Que Não Tem

        (Patos de Minas – MG) Lá estava eu, depois de mais uma bela noitada em uma taberna qualquer, em nossa milésima discussão sobre o porquê de eu ter passado mais uma noite oculto na esbornia. Ela não consegue entender que às vezes eu preciso ter os meus momentos a sós comigo mesmo, que ás vezes eu só quero ficar muito bêbado, dormente e ser carregado por algum funcionário do bar ou pelo taxista até em casa. E ainda por cima, insiste em me questionar e dizer que eu a traio sempre nessas minhas noitadas no bar, mas o que ela não percebe, é que a minha única companhia nesses botecos, são solidão da minha consciência sombria e um copo de bebida qualquer bem forte, e que o meu único objetivo, é sair, mesmo que por poucas horas, desse mundo sujo em que ainda insistimos, dia a dia, em sobreviver.

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O Rumor de Um Ausente

        (Petrolina – PE) Cá, a mesma parede ferida por um prego. Um espelho retangular, o Charlie Chaplin ao centro, sustinha-se no prego deslembrado por vórtices e rodamoinhos. Argamassa, matéria bruta, cobre o rasgo. A parede, aplanada, alumbrando tonalidade distinta, outra – o buraco, apesar, diante dos meus olhos, próximo ao primeiro quarto, espaço da sala de entrada. Não o alcançávamos, eu e meus irmãos. Meu vô saía do quarto – a camisa por dentro da calça de brim azulada; obliquamente, uma pasta de pano rijo -, caminhava em direção à sala frontispícia, a mão, no bolso, retirava um pente oval, mirando-se no espelho: fiapos de cabelos lançados para trás. Imagens eidéticas me povoam.

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A Prenda de Natal

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) A ténue luz da candeia a petróleo era ampliada pelos tocos de pinheiro, impregnados de cerne, que ardiam na lareira. Em cada um dos lados, uma panela de ferro fumegava. Em volta, o rosto corado de quatro crianças labutavam com uma malga de caldo com broa migada. O silêncio reinante era interrompido amiúde pelo estalar de uma ou outra cavaca, e o ruído das colheres, no vaivém de encher e levar à boca. A um canto, um homem ainda novo olhava para a lide da sua mulher, na azáfama diária de fazer e servir a ceia aos garotos. Também ele esperava paciente pela sua malga de caldo.

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Um Quarto Empoeirado…

        (São Paulo – SP) Um mergulho nas janelas do passado e reminiscência na pele da alma reeditaram lembranças. Sua memória não era curta, apesar de esquecer nomes. Elizabeth vivia de acreditar e acreditava. Ingênuamente a sonhar, um desejo romântico trouxe adereços que adornavam um quarto de menina. Perfume de alfazema pairava no ar. O som de risadas infantis ecoava pelos quatro cantos da casa se misturando à paz de beijas flores entrando e saindo pelas janelas de madeira pintadas de azul.

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