O Perna de Pau

 

 

 

 

 

Henrique Maximiano Coelho Neto (*1864 Maranhão / +1934 Rio de Janeiro)

 

Já grisalho, alto e magro, olhos miúdos e negros, mas de um brilho estranho, viam-no todas as manhãs passar à porta do colégio com uma grossa e nodosa bengala.

Conheciam-no pelo toc-toc da perna de pau; e logo, chamando-se uns aos outros, corriam todos os meninos às grades, e, quando o inválido passava, rompiam em assuada: — Oh, perneta!

Ele sorria docemente; os seus olhos bravios, de uma expressão feroz, ameigavam-se; e, longe de agastar-se, tirava o seu grande chapéu de abas largas e fazia uma barretada, não sei se para brincar com os pequenos, se para lhes mostrar os cabelos brancos. (mais…)

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Páginas da Vida – Desventuras de Dona Joaquina

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

Naquela manhã a dona Joaquina levantou-se cedo. A consulta no ginecologista tinha sido pedida já passaram oito meses e o médico não se compadecia com atrasos mesmo depois de justificados.

Depois havia de passar pelo dentista, onde também não podia faltar. O posto médico da freguesia tinha sido encerrado vá lá a gente saber porquê e era à cidade que ainda ficava longe que tinha que se deslocar.

Perfumou-se abundantemente, deu uma última olhadela ao espelho e seguiu o seu caminho. (mais…)

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O Pequeno Relato Sobre o Meu Patrão Assassino

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Memorandos, cartas, contas a pagar, telefonemas, marcação de consultas, reuniões. Jantares com sua esposa… jantares com suas amantes. Está tudo aqui neste meu arquivo. Uma pequena pasta e algumas subpastas, arquivos dentro de arquivos, dentro de arquivos, dentro de outros arquivos. Informações que deixam sua vida em minhas mãos, é o que parece. Já que eu sei tudo sobre ele. (mais…)

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Cartão de Plástico

 

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Havia sido uma semana de cão de muito trabalho. Jorge estava tentando superar sua recente decepção amorosa. As pessoas costumam dizer que nos momentos mais difíceis, o melhor a se fazer está nos escapes, focar nas tarefas da empresa, ocupar a mente, não ficar remoendo as lembranças, seguir em frente. Nestas dificuldades palavras é como a lua de distância do planeta terra chamado ações.

Era sexta-feira, numa conversa casual na copa do café, Tom notou que seu colega estava cabisbaixo e questionou: (mais…)

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As Crianças do General Médici

 

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Em 1971, quando eu estava na segunda série do primário, o presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, visitou a minha cidade e eu fui convocada para recebê-lo no aeroporto junto com as autoridades da região.

Lembro-me de que, antes da visita, eu havia sido eleita Miss Caipirinha na festa junina da prefeitura. Recebera medalha da aluna mais estudiosa das escolas do município e, diante de tantas vitórias, julguei a escolha perfeita. (mais…)

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O Velho Sábio e Econômico

 

 

 

(São Lourenço – MG)

Geralmente o brasileiro não é muito econômico, muitas vezes gastam o que não tem, costuma-se dizer por exemplo:

—Aquele indivíduo se ganhar mil, ou bem mais vai gastar do mesmo jeito, pode perceber que sempre está quebrado. Se for chamar a atenção desses gastadores algumas respostas são taxativas:

— “Mais vale um gosto do que um tostão no bolso”

Então tem aquela história: (mais…)

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Papel de Pão

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Quem tem os cabelos branqueados ou é calvo por obra do passar do tempo deve lembrar quando o pão, nas padarias, era vendido em bisnagas ou “filão” como era denominado e servido envolto em um papel de baixa qualidade, liso, branco-amarelado, com pequenas manchas claras parecidas com uma marca d’água, porém muito útil para escritos, anotações, lição das crianças e para se confeccionar barquinhos de papel. (mais…)

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Tia Nina

 

 

 

 

(Maringá-PR)

Tia Nina morreu no ano em que você nasceu. Talvez sua mãe tenha lhe dito isso com alívio, porque Nina brigava muito com sua mãe desde que ela era criança e sua mãe ficava nervosa imaginando que Nina iria implicar com você depois que você nascesse; que diria que você era um bebê feio. Quando Nina morreu – e ela ia fazer sessenta anos naquele ano –, sua mãe pôde parir sem dor. (mais…)

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A Última Ceia

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Naquele tempo, os discípulos de Jesus programaram o que seria conhecido para a posteridade como a Última Ceia.

A azáfama dos preparativos fez andar numa fona, o irmão de Pedro, Pedro que ainda não era Pedro, mas Simão, um rude pescador que não se ensaiava nada para assentar a mãozona na tromba do primeiro que se armasse em esperto. (mais…)

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