Pedaço de Papel Encontrado

        (Salvador – BA) “PEDAÇO DE PAPEL ENCONTRADO NUM GUARDA-ROUPA DA CASA QUE MEUS PAIS ALUGARAM”   Eu sou “Peach”. Não é meu nome verdadeiro, obviamente. Se você encontrou esse papel, é porque algo terrível aconteceu. Melhor dizendo…, pessoas morreram. Portanto, parte de mim espera que você tenha encontrado. E parte de mim, não. Minha história é curta e não tem nada de grandiosa. A única coisa grandiosa é a bizarrice, que a assola e que assola todos os meus desejos e prazeres. Sempre fui muito tímida e tive poucos amigos…, se é que poucos amigos e nenhum, passaram a significar a mesma coisa. Com treze anos fiquei bonita. Sou bonita. Tenho lábios rosados, olhos azuis, uma separação entre os dentes que é charmoso, sou magra, mas tenho seios grandes, uma boa bunda… Senti que minha sorte mudaria nessa idade, e à princípio achei que realmente estava tudo ficando melhor, quando conheci […]

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O Homem Que Quis Enganar A Morte

        (Vieira de Leiria – PT) Da janela da cozinha da sua pequena casa, o Silvério via toda a gente que passava, não fosse aquela a única rua do pequeno lugar onde nasceu. Ali, todos se conheciam e as pessoas cumprimentavam-no com um bom dia; «Bom dia Silvério, bom dia moço, ou ainda, bom dia meu rapaz». Retribuía e com os olhos seguia aquela gente, até à primeira curva onde deixavam de se ver. Aquela era a sua casa, o seu pequeno mundo, e sempre viveu ali. Era menino quando viu passar alguém que se escondia sob um manto negro levando na mão uma foice tão grande que não cabia debaixo desse manto. Curioso, o menino quis saber quem ia ali. – É a morte. – Respondeu o pai. – Anda pelas aldeias, tentando conquistar a confiança das pessoas, a quem depois vai lançar as garras, quando sente que estão mais desprevenidas. […]

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Alegrias

        (São Paulo – SP) Como sempre, o caminhão da Prefeitura circularia a praça da matriz, pararia no primeiro cruzamento, e recolheria o que encontrasse amontoado na calçada. Mesmo sendo uma cidade pequena, os funcionários não teriam tempo para papear. Era agarrar todo o lixo, jogar para dentro do compactador, e seguir adiante até o próximo monte. Mas porque houvesse pouca coisa para ser recolhida, apenas um dos lixeiros saltou da traseira do veículo e começou a fazer o trabalho. O outro permaneceu a postos com as mãos nas alavancas, esperando que o último saco fosse jogado. Mas no momento em que a placa de metal descia para esmagar todo aquele monturo, o gari que a operava pôde distinguir um último pedido de socorro, um derradeiro lamento de bebê. No mesmo instante, ele abortou o ciclo de compactação, e gritou para os companheiros pedindo ajuda! Por entre sacos plásticos, encontraram uma caixa […]

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O Milagre da Flecha

          (Imbé – RS) – Sim, amor… sim… É, amanhã tô de folga… Certo. Beijo, te amo. Assim Zé finalizava a chamada para Joana, a “patroa”, avisando que não chegaria para o jantar, já que surgia um serão de última hora. Eram sete da noite de uma sexta-feira fria de inverno em Tramandaí. A obra em que Zé trabalhava progredia bem, a turma estava pelo menos três dias a frente do prazo, e o senhor Amaral, contente com o bom andamento, havia adiantado o pagamento do pessoal, normalmente feito aos sábados, e ainda um pequeno bônus por produção. Com verba no bolso e folga no fim de semana, a maior parte dos trabalhadores já estava ou se encaminhava para sua residência, mas uma parcela do pessoal marcara de ir ao Mega Privé, encher a cara e descolar umas garotas que se encantam com cifras. Zé fazia parte do segundo grupo.   […]

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Felicidade

        (Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT) Estou feliz, disse ela. Ele levantou os olhos da malga e sorriu. Enlevados olhavam para os pequenos que se iam debatendo com a tigela de sopa com broa migada. A luz da lareira, a instantes, afogueava os rostos contentes pela ceia. – Porque está feliz? – Perguntou o mais velhinho. – Estou feliz por podermos ir para a cama de barriga bem aconchegada. Como era fácil ver aquela mãe feliz, bastava para tanto ter com que fazer uma boa panela de sopa, e broa para acompanhar, para se deleitar com o ruído das colheres no vaivém de encher e colocar na boca. Não havia mesa, nem fazia falta, era sobre os joelhos que cada um acomodava a malga, aquecendo-os. Todos em volta da lareira olhavam para o tacho de barro em cima da trempe que a mãe mexia sem parar. Os primeiros “farrapos” já […]

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A Morada dos Insetos

          (São Paulo – SP)   Chego. Quis que a antiga pedreira de Santo Amaro fosse o marco introdutório da minha missão. Dizem que ali se encontra uma grande pedra. A pedreira é o ponto final do ônibus no qual embarco, apesar da placa do lotação indicar como destino um lugar chamado Eldorado. Desço na rua Prof. Cardoso de Melo Neto. Não vejo ninguém. Sigo o asfalto, a estrada de terra e contorno o muro da pedreira vazia. No mapa de São Paulo, o lugar é um branco e de fato seria somente um branco não fosse o morro. Avisto-o ao fundo. Um morro escuro e isolado no meio de um terreno. Uma grande pedra como disseram, arruinada pela produção de seixos. Tiraram um pedaço com dinamites. As pessoas reclamaram dos estouros e desativaram a pedreira. Uma criança diria tratar-se de um meteoro. Sim, um corpo gerado no espaço sideral que […]

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Concerto dos Passarinhos

          (Santo Estevão – BA) Era dia de domingo começa a labuta para logo mais se reunirem para o concerto do sabiá e do curió. A raposa apanhava flores enchia vasos espalhava pelo ambiente o papai raposo rachava lenha acendia o fogo vovô raposão colhia da horta os melhores legumes aquele dia tinha que ser perfeito enquanto a vovó raposa endomingava as roupas, engraxava os sapatos, corre no rio toma banho arruma o chapéu com laçarotes de fita coloca batom usa perfume impaciente grita que estão atrasados. A raposinha toda serelepe corre daqui salta dali com os pelos bem lavados e penteados esperando a hora de vestir seu vestido com bordados de fios de ouro sapatinho de cetim e meinha cor de rosa. Queria logo era chegar à festa comer doces tomar guaraná e brincar com seus amigos. Em outra parte da floresta a família do macaco também estava atarefada por […]

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O Misterioso Homem da Sela

           (Goiânia – GO) Num dia, seco e calorento de agosto, apareceu na cidade um indivíduo trazendo uma sela nas costas, como se fosse um cavalo arreado. Era moreno, magro aparentando no máximo 40 anos. Estava descalço, barbas crescidas, vestia uma calça de brim e camisa de algodão, ambas velhas, desbotadas, com alguns rasgões. Imagine o medo da população ao ver tão estranha criatura. Por um instante, pensando que ele pudesse representar algum perigo uma multidão foi ao seu encontro. Ao pressentir toda aquela gente se aproximando e, acreditando que iria atacá-lo, ele tentou se esconder, tomado pelo pânico. As pessoas se aproximaram dele e ficaram olhando. Ninguém fez nem falou nada. Seus olhos tinham a profundidade de quem já sofrera muito, mas trazia no rosto uma inocente loucura. A sela nas costas tornava-o uma figura exótica. Seu nome ninguém perguntou, mas ficou conhecido como o “Homem da Sela”. Perambulava de cidades […]

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A Marca de Caim

        (Maringá-PR) Dois dias depois do acidente, meu irmão veio visitar-me. Ao abrir a porta, logo fui atraído pelo brilho metálico em sua mão. Seu olhar encarava-me com uma fúria medonha. — Foste responsável pelo acidente! – dizia, apontando seu revólver contra mim. – Perdi minha amada esposa Bianca para sempre e, agora, também perco meu irmão. És um homem morto! Toma isto!… Dizem que quando se está face a face com a morte, ela nos mostra um filme de nossas vidas. No meu caso, passou-se um filme dos dois últimos dias. Dois dias atrás, meu irmão, como de costume, trabalharia o dia inteiro enfurnado em seu escritório no centro da cidade, deixando sozinha sua jovem e linda esposa. Morávamos na mesma rua, quase uma casa de frente para a outra, e o que me indignava era observar o semblante resignado de minha cunhada, ao despedir-se de seu dedicado marido a cada […]

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Espinhos da Profissão

        (Presidente Prudente – SP) O mês foi novembro e o ano… já se foram tantos! Preparando para encerrar o expediente da semana, fui avisado pela secretária que havia alguém para uma consulta, vindo por indicação de um cliente do escritório. O homem, apesar de bem vestido, estava desleixado e demonstrava desânimo, cansaço, irritação e suas olheiras eram amostras que passava por sérios problemas. Acostumado com situações semelhantes, não fiquei surpreendido quando se identificou como um pequeno empresário, em dificuldades financeiras. Sua empresa estava em situação pré-falimentar, com fornecedores pressionando o recebimento de duplicatas atrasadas, impostos a recolher, somente o pagamento dos funcionários, até então, estava em dia. Por isso, dizia ele, já não mais conseguia alimentar-se ou dormir e o pouco que conseguia era acompanhado de pesadelos. Confessou que seus nervos em frangalhos não lhes permitiam que administrasse a empresa com a tranquilidade necessária, tinha dificuldade para se concentrar e um […]

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