Um Voo Para o Infinito

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A música suave fazia parte do cenário íngrasa-deltaeme do Parque da Cidade, começava a primavera e as flores já se destacavam nas matas, ipês amarelos, quaresmas e outras árvores convidavam os pássaros para compor a beleza daquele local. Raios do sol reluziam nas folhas, pareciam luzes da ribalta dourando as pedras, o motor do carro até era suave diante aquele cenário natural, obra de Deus.

Sheila e Francisco sorriam felizes para mais um final de tarde de vôo livre. O céu azul com nuvens em blocos parecia que Deus passara por ali, os pássaros em revoada bailavam como se uma orquestra invisível tocava a mais linda canção dos anjos. Sheila ficou pensativa, olhava para a natureza viva ao seu redor, e pensou nas palavras de sua mãe que a alertava do perigo de voar de asas delta. Francisco percebeu o silencio dela, e levemente segurou sua mão numa linguagem carinhosa que só ela conhecia, e o conforto daquela segurança, a fez voltar para a alegria de poder voar livre como os pássaros. (mais…)

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A Afogada

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 (São Paulo – SP)

futeb-praiaLevaria quase meia hora para Carolina percorrer a praia e meditar. Quais os erros e acertos do ano de 1975? O ano terminaria no dia seguinte. Ela queria saber. Foi um tempo proveitoso?

Emagrecera oito quilos em nove meses. Oito quilos. A dieta exigiu força de vontade. Pouco açúcar. Nada de frituras. Habituar-se a caminhar pelas ruas do bairro. Sua grande meta sempre lhe beliscou: não seria mais o principal alvo das gozações dos meninos. Não mais a chamariam de baleia, de porca assassina…

Foi nessa mesma praia. Aqui começara a planejar a mudança. O contra-ataque à indelicadeza dos meninos.

Tornara-se cansativo vê-los no comando. Jogarem bola sobre a areia quente. Rolarem nos cantos como gatos quando se coçam.  Empinarem os músculos para as meninas. (mais…)

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Os Mistérios do Número Trinta e Três

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(São Paulo – SP)

Trinta e tr33ês, era o número que Rebeca insistia em pensar enquanto aguardava na plataforma do metrô a próxima composição. Enquanto repassava a agenda do dia, tentava acompanhar o vai e vem frenético dos transeuntes no horário de pico. Seus olhos castanhos, vivazes e espertos, iam da direita para a esquerda, cima a baixo acompanhando a mobilidade das pessoas que iam para a escola, trabalho e outros compromissos. O número trinta e três voltou a lhe martelar os pensamentos enquanto embarcava para mais um dia de trabalho.

Eram dez e trinta e três quando Anderson atendeu a chamada da campainha. A encomenda que tanto sonhara tinha acabado de chegar. Não contendo a emoção foi abrindo o embrulho, deixando os resquícios da embalagem casa afora. O objeto, uma pistola automática calibre 45, reluzia em suas mãos enquanto tentava manuseá-la em gestos ainda bruscos. Caminhou até o móvel antigo que era de sua avó no quarto de ferramentas e abrindo a segunda gaveta enferrujada encontrou o pacote de projéteis que buscava. Seu plano de vingança ia finalmente se completar. (mais…)

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A Jovem e Seus Sonhos

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(João Pessoa  –  PB)

Era uma vez uma jovem que saiimagem-a-jovem-eu a caminhar por uma alameda de árvores frondosas, toda coberta de folhas, iluminada por um facho de luz e deslizando pela estrada em direção ao país dos sonhos.

A jovem tinha como companheiro seu fiel cachorrinho, que lhe servia de escudeiro, protegendo-a dos perigos do mundo. Não sabia ela que lá encontraria: fadas, gnomos, borboletas, pássaros, árvores e belas cachoeiras com águas cristalinas.

Tudo era mágico naquele lugar. As estrelas pareciam ter um brilho diferente. O luar banhava toda a natureza com a cor prateada que a lua emanava. O sol amanhecia saudando a todos com sua benéfica energia. E os pássaros em algazarra faziam um grande festim.

A menina ao chegar, ficou deslumbrada e perguntou:

– Que lugar é este?

E uma voz respondeu:

– É o país dos sonhos, que tanto procuras! (mais…)

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O Literato

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(Tubarão – SC)

Ao regiindiastrar sua filha como Maria Anja de Conhém, o pai deixava claro que nunca dera fé na história de que anjos não tem sexo. O sobrenome deveria ser o mesmo que o seu: Silva, porém, detestava seu nome de família e achava que a pequena tinha de ser marcada pela maneira como veio ao mundo, ou seja, de conhém, de esgueio, nem bem sentada, nem virada, dando um trabalhão e quase matando a mãe no parto.

A pequena nascera com os olhinhos espichados, e no começo todos achavam que isso se devia ao trauma, na saída turbulenta do ventre da mãe; no entanto, com o passar do tempo, seus traços foram se acentuando e tomando um formato bem parecido ao do índio Grajaú, que se acoitara, durante um tempo, nas terras do pai, ajudando no roçado. Quando ficou claro que o silvícola, além de semear as terras, semeara também a mãe de Maria Anja, o pai, indignado, enjeitou a filha e a entregou a uns ciganos, que pela região passavam, a caminho da capital. (mais…)

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O Espelho

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(Goiânia – Goiás)

Ele não tinha muito o quespelhoe dizer, permaneceu calado. O silêncio sempre representou uma espécie de refúgio mental, os pensamentos podiam fluir melhor. A terapeuta dava conselhos profissionais, mas ele não conseguia escutar apesar de manter-se olhando para ela sem enxerga-la. Era um rapaz gentil mesmo quando desinteressado no mundo à sua volta. Despediu-se da terapeuta e fez o trajeto de volta para casa através da praia. Não era necessariamente para ver o mar, e sim, para ouvi-lo. Seus olhos estavam acostumados a maré do fim de tarde, porém, ouvir as ondas parecia-lhe algo continuamente inédito. M sentou-se de frente para vastidão da praia em um banco de cimento, mergulhado no silêncio aquoso de sua mente onde o único pensamento que rodopiava era “o que acontece comigo?”. Sentia-se tão distante de si era como se seu corpo estivesse ali estático e sem vida enquanto a alma vagueava solta em alguma dimensão paralela, onde as ondas do mar poderiam alcançar seu rosto. (mais…)

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O Pesadelo

Roberto J. Fraga Moreira

(Rio de Janeiro – RJ)

A tarde estava chegando aopesadelo fim e a luz do dia cedia lugar às sombras do entardecer, conferindo ao ambiente uma tonalidade cinza que passava para o negro à medida que o sol desaparecia no horizonte. As pessoas saiam apressadas do trabalho e se dirigiam aos automóveis, ônibus e metrô num frenesi próprio dos que anseiam chegar rapidamente às suas residências.

Raul, da janela do seu escritório, situado no 30° andar de um luxuoso prédio comercial, desfrutava de uma visão privilegiada da cidade. De lá observava o burburinho do final de tarde e achava divertido toda aquela correria, como se todos estivessem fugindo de um perigo imaginário.

Sonolento com essa movimentação, não percebeu quando a secretária entrou na sala, e somente deu conta de sua presença quando ela disse:

– Passei para desejar boa-noite e indagar se o senhor pretende fazer alterações na agenda de amanhã?

Movimentando a cadeira, Raul deu com ela um giro de 180 graus, colocando-se de frente para ela, e respondeu:

– Nenhuma! Pode manter todos os compromissos. (mais…)

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A Morte Pede Carona

 Vanderlei Antônio de Araujo

(Goiânia – GO) 

Em histórias de caçacacador1dor só acredita quem quer. Geralmente, ninguém acredita, mas, gosta de ouvir. Quando o assunto é contar mentira, nunca falta alguém para contar uma de caçada ou pescaria. Meu cunhado me disse isso ao me contar esta história, que segundo ele aconteceu com um seu compadre, homem honesto e trabalhador e de muita confiança. Por isso, se aconteceu com ele eu acredito que seja verdadeiro, disse. E usando as palavras do seu compadre, ele me contou esta história:

Dia desse compadre, eu fui caçar. Peguei minha espingarda, carreguei com chumbo grosso, apanhei uma rede para nos casos de ter que dormir no mato, e fui lá para as bandas do rio. A noite chegou, e eu ainda não tinha encontrado nada. Decidi então, esperar em cima de uma árvore. Subi e armei a rede num lugar bem alto, de onde eu pudesse ver quando algum animal chegasse. Queria uma caça de carne boa, uma paca, um mateiro. Eu não mato bicho à toa. Se for só para matar o pobre animal, eu não mato. (mais…)

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A Morte dos Anões

Paulo Fontenelle de Araujo

(São Paulo – SP)

a-morte-dos-anooes-2Sempre aos sábados, Paulo, cinco anos de idade, seguia a mãe por aquela feira livre no bairro de Moema.  Feira comprida, cheia de cacarecos, meio circense, percorria muitos quarteirões, virava em uma rua sem nome e beirava os trilhos do bonde de Santo Amaro.

A mãe de Paulo escolhia ali suas dúzias e experimentava nacos de frutas, oferecidos pelos feirantes na prova da garantia do produto.

O menino observava o comércio e mal chegava ao nível das prateleiras. Sabia, no entanto, a organização do lugar: na entrada gelavam os peixes, depois rolavam as laranjas e bem no meio espalhavam as outras frutas. (Aliás, para os olhos de Paulo, bananas e peixes assemelhavam-se pela enorme variedade. A banana-maçã estava para a sardinha e a banana-prata poderia ser a corvina). (mais…)

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A Andorinha

 Irá Rodrigues

(Santo Estevão – BA)

Pendurada em galandorinha3hos escritos em folhas com tintas extraídas do arco-íris que cedia baldinhos das mais lindas e florescentes cores: o amarelo derramava pingos de sol, o verde se camuflava com as folhas, o azul como pedacinhos de céu e gotinhas de chuva o branco da cor das nuvens em dia de verão.

Os passarinhos numa euforia total molhavam os bicos e escreviam seus versos encantando a natureza que lia e se declarava apaixonada pelos passarinhos poéticos.

Em meio aquela preparação animada chega um aviso trazido pelo gavião que chegava apressado com o bico aberto de tão cansado. Era uma ordem do chefe da floresta e ai de quem o desobedecesse. O aviso dizia assim:

“Ninguém deverá sair pela floresta, pois corre um boato de galho em galho de que uma ave de rapina muito misteriosa que voava pelas sombras atacando passarinhos indefesos e outros animaizinhos pequenos.” (mais…)

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