O Bonachão Felinto

 engraxates

Tião Carneiro

(Natal – RN)

“Sabe, gente boa, a mulher não tem culpa de nada. Não é ela a perdição do homem. A gente é quem se perde com elas. Raros são os homens que entendem as mulheres, compreendeu? Por isso ficamos plantando desavenças. A verdade verdadeira, gente boa, é que sempre fomos impiedosos com as mulheres”, reconhecia a estupidez masculina o experiente, ricaço e bonachão Felinto, trocando de pé na cadeirona de engraxate, mas com os olhos se estocando no rosto do vizinho de cadeira.

Esse reconhecimento se dá por volta dos anos oitenta, na Pracinha do Diário, em Recife.  Gente boa é como o bonachão Felinto chama o engraxate Diel. O vizinho de cadeira é conhecido por galego, mas é desconhecido ali, posto ser aquela a primeira vez que ali engraxava os sapatos. O engraxate dele é o Rui. (mais…)

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Confissões de um Curiboca

caipira

Marcos Antônio Lima

(Santa Brígida – BA)

Seu padre eu vim aqui pro mode me confessar. Tem noite que não drumo de tanto penar, com a cuca doída eu não agüento mais ficar. Pro mode isso vim pedir pro Senhor me escutá. Penso noite e dia no má que fiz pra mãe natureza, ao desmatar. Precisava os meus fios dá de comer, e só vendendo lenha pra mode a feira arranjar. Sei que cometi esse tá de crime ambientar, mas seu padre num fale pros zome, pro mode eles não me levar.

A mata era muita, imensa capoeira sem fim que dava até pra esconder uma cabroeira inteira, certo qui hoje tá pouca. Os bichos foi embora, não se acha mais tatu nem preá. Muito menos codorna, nambu, curduniz e nem mêrmo imbú cajá. As veis seu pade, eu me ponho a pensar, oxênte home, tu não foi o único a mata derrubar, mais bem que tu podias evitar. (mais…)

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Correnteza de Ouro

correnteza de ouro

Lira Vargas 

(Niterói – RJ)

A guerra na Coreia do norte e sul ainda devastava aquela nação.

Sean jeito de viver em  silêncio era atribuído a tensão que a guerra causava a todos. Via todos os dias centenas de pessoas morrerem, famílias se perderem na tentativa de fugir dos bombardeios. Ele se refugiava nos arrozal. Ele não entendia, mas sentia que na imensidão do céu tinha uma força que ele aprendeu que era Deus, e na linguagem sem muita explicação, pedia que acabasse com aquela guerra.

Na manhã os bombardeios foram intensos. Ele se abrigou. Seus pais ficaram em casa, e pediu a Deus que o tempo parasse, ou passasse rápido, ele tinha medo do que poderia acontecer a sua família. Todas as vezes que tinha bombardeios era uma incerteza, quem sobreviveria, era questão de sorte.

Depois que o bombardeio cessou, ele retornou a procurar seus pais e irmãos. Deparou com a cena que que jamais esqueceria. Sean sentou no chão e chorou. Envolveu os joelhos e escondeu o rosto, era uma tentativa de findar aquela dor. (mais…)

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Estilhaços

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 estilhaços

Breno S. Amorim

(Petrolina – PE)

A narrativa escorre de mão claudicante. A dúvida ante a necessidade de exarar determinado fragmento me consome. À noite, sou perseguido por esta insônia de já não sei quantos dias. Por que deitar no papel estes estilhaços que me povoam? A imagem dos meus chamejando na memória – que não me permite sequer um mínimo olvido, nunca.

Ao olhar-me, a superfície do ser, não há quem possa apontar uma ferida. E, no entanto, quantas não vão acesas? São muitas, em tão curto tempo. Apenas 28 anos, digo e já não sei se isso é uma afirmação. O espelho parece me indagar. O que vejo refletido? Não absorvo estes traços faciais, para mim, sempre os mesmos, conclusos, estáticos. (mais…)

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Vestida de Passarinhos

passarinhos

Misa Ferreira

(Itajubá – MG)

Ela estava encantada com o vestido de passarinhos. É verdade que mais parecia um vestido de menina, e talvez fosse exatamente por isso que ela se sentiu tão atraída pela roupa. Era um vestido vermelho pintado de passarinhos azuis e verdes, assim, dois a dois em cima de um galho e eram milhares de passarinhos. Como não se usa mais ir comprando assim de tudo o que se vê, ela segurou o impulso, afinal não precisava mais de nenhum vestido, ainda mais um vestido grande demais para seu tamanho. Mas ela gostou tanto dele que chegou a sonhar já vestida de passarinhos. Aí se decidiu e depois de decidido, foi acometida por uma sofreguidão intensa, uma urgência descabida, era preciso adquirir logo antes que alguém o comprasse. Foi desabalada para a loja, debaixo de um sol escaldante como se fosse salvar o planeta de uma terrível catástrofe. Finalmente ele estava em seus braços e ela o abraçou forte como se abraça um tesouro perdido e finalmente reencontrado. Agora a costureira espetava os alfinetes aqui e ali para apertar o vestido, e também tecia elogios para a estampa singela e original. (mais…)

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O Porta-retrato Azul

porta-retrato azul

Helder Felix

(Fortaleza – CE)

Todos os dias e, quase sempre no mesmo horário, Tania colocava a água para ferver. Sabia que o filho adorava tomar café quando chegava da universidade. Distração boa depois das obrigações diurnas. Recém-ingresso em economia, ainda não se habituara por completo a nova rotina. Diariamente, ele acordava às 09h30min da manhã. Daí, as ações eram metricamente calculadas a fim de evitar atrasos quanto à condução da tarde que cotidianamente tomava para chegar ao curso. Orgulhosa, Tania acordava antes do filho e preparava-lhe o desjejum.

“a benção, mãe”.

“Deus te acompanhe meu filho”

E, assim, despediam-se momentaneamente. (mais…)

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Esther, Um Novo Recomeço

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Marcelo Almeyda

(São Paulo – SP)

Era madrugada, do lado de fora das janelas o silêncio da cidade invadia as residências que a cercavam. Num quarto de hotel, mergulhada em sentimentos controversos de saudade, melancolia e solidão, Esther depois de chorar pela enésima vez, analisa todas as linhas da carta recebida de seu ex-amante Antônio.

Em cada palavra escrita, um momento vivaz se fazia em sua mente, a alegria das risadas sem esforço, os beijos ardentes e a lembrança dos corpos nus embaraçando-se aos lençóis de sua cama. Ao momento mais quente de seus delírios quando sua face chega a ruborar, a realidade fria do quarto vazio lhe faz derramar outra lágrima. Seguir em frente torna-se difícil para um coração acostumado aos carinhos de um só rapaz. (mais…)

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Lençóis ao Vento

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Lira Vargas

(Niterói – RJ)

O sol ainda secava as últimas gotas de orvalho de uma noite fria de outono. As folhas da mangueira forravam o chão do quintal, avisando que novos frutos estavam por vir. Era bonita aquela estação, o vento desfolhava com carinho as árvores, dando lugar a vida prometida. Quando uma mulher tinha seu ventre apertando as roupas simples, eu olhava para os frutos apetitosos das amendoeiras, e pensava que ali o fruto de algumas noites de amor também era obra do outono.

Não sabia explicar, mas aquela estação fazia bem aos meus pensamentos. Minha mãe levantava cantarolando uma canção popular, na cama eu e meus irmãos ainda sonolentos, ouvíamos sua voz como um aviso de  que era hora de levantar. Eu fingia ainda dormir, porque a preguiça e a cama quentinha era um convite para ficar encolhida sob os lençóis com emendas, restos que ela ganhava de suas freguesas. E aquela sensação de conforto não permitia despertar. (mais…)

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Só Nos Resta Viver

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Aristóteles da Silva

(Mogi das Cruzes – SP)

Olhava vagamente para a paisagem pela janela do ônibus. O trânsito estava carregado, mais do que de costume. Ia demorar uns trinta minutos para chegar no seu ponto. Tudo bem. Tinha que dar é graças a Deus por morar tão perto do serviço. O de amanhã levava duas horas, tanto para ir quanto para voltar. Mas trabalhava bem menos. Ao pensar nisso aproveitou que não tinha ninguém sentado ao lado dela e se espreguiçou. Não tinha parado um minuto hoje. Era sempre assim nesse serviço. Eram vários lugares para limpar e com uma encarregada chata, implicante. Bem, a verdade é que só reclamava enquanto trabalhava. No outro, quantas vezes ficava um tempão sem ter que fazer nada. E sempre tinha mais buchicho com as colegas. É, esse era bem melhor. Vinha, cansava o corpo e o tempo passava rapidinho. Mas como chegava cedo eram os dias que tinha aproveitar para fazer o serviço de casa. O apartamento era pequeno, sua filha ajudava, mas era bastante coisa que sobrava. É, este é para trabalhar, o outro para descansar. O importante era que os dois pagavam. (mais…)

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O Amor de Berenice

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 Vanderlei Antônio de Araujo

(Goiânia – GO)

Berenice era uma moça bonita, sonhadora, porém, tão tímida que aos vinte e cinco anos não tinha namorado. Do amor só ouvia falar. Sua timidez não a deixava mostrar seus sentimentos nem se entregar a um amor. Morava com os pais numa casa simples, porém, aconchegante. Certo dia, seu tio chegou da capital do estado em companhia de um rapaz. Falou que tinha um assunto importante para tratar com ela. Seu coração quase parou quando ele lhe disse que o rapaz viera para conhecê-la. Se gostassem um do outro poderiam se casar. Sobressaltou-se.

Embora o moço fosse diferente do que ela imaginou um dia, como marido, gostou dele. Sorrindo ele foi apresentado a ela, cumprimentando-a. logo, eles se acomodaram na sala. Agenor era o nome do rapaz. Berenice tentava recuperar-se da sensação perturbadora que lhe causou aquele encontro não marcado. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. (mais…)

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