Os Olhos

 

 

 

 

 

Até mesmo os homens mais cruéis conseguem chorar. Poucos são aqueles com os tais “olhos secos”. Onde já não há mais brilho. O olhar assustaria até o mais valente dos demônios.

Meus olhos secaram quando eu ainda não sabia soletrar. Foi de repente. O mundo girou muito mais lentamente e pude ver todas as cores se tornando cinzas. Meus pais chorar por eu não chorar. “Estou bem” repito muitas vezes, mas até os médicos duvidam.

“Ela tem olhos mortos”. Disseram que olhar fixamente para as minhas pupilas faria as pálpebras derreterem. O ruim sempre vai acontecer.

Já previram que meu olho iria quebrar e o primeiro a testemunhar isso teria anos de azar.

Quantas vezes é preciso desviar o olhar com medo do que não é compreendido? A vizinha, uma bruxa mesmo, vive amaldiçoando mas não consegue me ver sem óculos escuros.

“Não olhem crianças, é a morte que caminha entre vocês”. O reverendo Williams acredita de verdade que a pior coisa da vida usa calça jeans e camiseta caqui.

Então fecho os olhos. E dentro de mim sinto uma ardência muito forte. “O que está acontecendo?” Eu penso. Tudo está queimando. Tento enxergar novamente, os olhos não abrem. “Socorro!” “Socorro!” Grito mais alto. “Meus olhos morreram.”

Sinto um toque no ombro. Começo a ser guiada para algum lugar. “Onde estou?”. A mão me empurrou e senti meu chão mais gelado. “Está frio”. Meu corpo já não queimava mais. Então senti dedos tocando meus olhos. Puxando-os com força para cima.

O mundo voltou. As cores voltaram. Vi uma mulher parada. Me olhando. “Cuidado! Eles matam!”. Ela negou com a cabeça e disse sorrindo: nunca mais.

3 thoughts to “Os Olhos”

  1. A arte de escrever um conto, está num conjunto, não só na história, mas nas palavras escolhidas para compor as frase, as conexões entre elas e a ideia, as descrições do ambiente, das ações, do perfil dos personagens e nos diálogos, além de narração, o enredo e estrutura do texto, ou seja, como o autor faz os parágrafos e, ou, coloca partes da história, pode ser em divisão de períodos temporais, ou não. Tenho um conto que começa pelo fim, um recurso que Quentin Tarantino usa em seus filmes.
    Assim como a pintura que começou lá na Idade da Pedra, quando o Homem Primitivo pintou animais e pessoas na rocha, também a marca da sua mão, como sendo uma assinatura, talvez, ou simplesmente dizer “Eu (identidade, nome) estive aqui”, também a arte de escrever evoluiu através dos tempos. Esse conto, certamente algumas pessoas não vão entender o que a autora quis dizer, pois algumas palavras que compõe algumas frases tem outro sentido e não faz conexão com a ideia. Então, assim como uma metáfora, ou analogias, palavras de duplo sentido, faz o leitor ter a necessidade de interpreta-las. Não que isso seja algo ruim, um defeito, A arte de escrever também está em fazer o leitor pensar, descobrir.
    Quem é, ou o que é a protagonista? Uma pessoa? Quando fala que os olhos podem quebrar é porque são de vidros, acho eu. Então, pode ser uma boneca amaldiçoada, criada por uma bruxa que nem ela pode encarar, como a Medusa que transformava em pedra a todos que a olhavam nos olhos.
    No fim e por fim, ela foi destruída e não pode mais fazer mal algum. Nunca mais. Seria aquela boneca do filme de terror, a Annabelle? Acho que sim.

    1. O texto é na verdade o meu modo de ver o mundo com depressão.
      “O mundo voltou. As cores voltaram. Vi uma mulher parada. Me olhando. “Cuidado! Eles matam!”. Ela negou com a cabeça e disse sorrindo: nunca mais.”
      Essa frase é justamente a saída desse mundo da depressão. Onde a personagem, que pode ser qualquer um, finalmente vê tudo voltando ao normal.
      Os olhos secos são nada mais que olhos vazios. Que você olha e na verdade não enxerga. Quem está de fora sofre por ter ver não sentir nada.
      “Meus pais choram por eu não chorar. “Estou bem” repito muitas vezes, mas até os médicos duvidam.”
      Essa frase retrata justamente a negação do problema. A personagem está mal, os pais percebem que tem algo estranho, os médicos também mas ela/ele custa a aceitar.
      “Sinto um toque no ombro. Começo a ser guiada para algum lugar. “Onde estou?”. A mão me empurrou e senti meu chão mais gelado. “Está frio”. Meu corpo já não queimava mais. Então senti dedos tocando meus olhos. Puxando-os com força para cima.”
      Esse trecho seria justamente a ajuda. A personagem estava tão acostumada com a mesma coisa que quando houve uma mudança naquela vida ela estranhou: “onde estou?” “está frio”. Ela está saindo do seu conforto.
      Agradeço pelo comentário e pela interpretação dada 🙂

      1. Obrigado pela resposta certa. A depressão é o “mal do século”, como já disse alguém, muitas vezes não a identificamos numa pessoa. Ou quando notamos algo de diferente em suas ações ou palavras imaginamos coisas completamente diferentes, como minha tentativa de compreender o significado desse texto. Você escreve bem. Parabéns Annie!

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