Os Mistérios do Número Trinta e Três

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(São Paulo – SP)

Trinta e tr33ês, era o número que Rebeca insistia em pensar enquanto aguardava na plataforma do metrô a próxima composição. Enquanto repassava a agenda do dia, tentava acompanhar o vai e vem frenético dos transeuntes no horário de pico. Seus olhos castanhos, vivazes e espertos, iam da direita para a esquerda, cima a baixo acompanhando a mobilidade das pessoas que iam para a escola, trabalho e outros compromissos. O número trinta e três voltou a lhe martelar os pensamentos enquanto embarcava para mais um dia de trabalho.

Eram dez e trinta e três quando Anderson atendeu a chamada da campainha. A encomenda que tanto sonhara tinha acabado de chegar. Não contendo a emoção foi abrindo o embrulho, deixando os resquícios da embalagem casa afora. O objeto, uma pistola automática calibre 45, reluzia em suas mãos enquanto tentava manuseá-la em gestos ainda bruscos. Caminhou até o móvel antigo que era de sua avó no quarto de ferramentas e abrindo a segunda gaveta enferrujada encontrou o pacote de projéteis que buscava. Seu plano de vingança ia finalmente se completar.

Rebeca era uma mulher diferente das demais para sua idade. Aos trinta e dois anos pensava em finalizar a faculdade de ciências contábeis que começara por ser prodigiosa e já projetava a continuação dos estudos para tornar-se uma grande economista. Ajudava os pais sempre que podia e não deixava amigos e parentes sem que pudesse prestar algum socorro. Não tinha uma beleza natural por assim dizer, mas o sorriso de dentes brancos e irradiantes era capaz de derreter gélidos corações assim como aconteceu com Anderson um de seus últimos relacionamentos. Perdia-se em compromissos e na fome que sentia quando ao meio dia e trinta e três recebeu uma ligação que deixara sua tarde tenebrosa. Assim como seu humor, o céu começou a esconder o sol prenunciando o que viria a seguir.

Anderson era quieto e sempre buscava fugir dos holofotes. Sua infância foi enclausurada em um apartamento no centro da cidade e raramente tinha contato com outras crianças. Na adolescência por conta da quantidade de espinhas e do cabelo sempre desarrumado era motivo de chacota pelos colegas de ensino médio. Conheceu Rebeca em uma festa onde os dois eram os únicos deslocados e por um acaso do destino ganharam uma afinidade instantânea que logo se transformou em romance. Com o passar do tempo e a quietude de Anderson, Rebeca cansou-se e colocou fim a breve relação começando logo após uma aproximação com um de seus vizinhos, mais descolado e com quem tinha as ideias mais afinadas. Caindo em profunda depressão, afastou-se das poucas coisas que gostava e ali começou a arquitetar uma vingança regida pelo sentimento de ódio que ali nasceu quando foi abandonado. A chegada da arma foi a peça que faltava para que seu quebra cabeça se completasse. Foi assim que ligou para Rebeca desesperado dizendo que desejava encontrá-la. O restante do plano seria movido por suas ambições e pelo vil sentimento que tomava conta de si.

Os minutos pareciam torturar Rebeca e seu âmago se retorcia enquanto o relógio marcava dezessete horas e trinta e três minutos. Começou a compreender o significado do número trinta e três quando se dera conta de que este era o tempo em que havia terminado seu namorico com Anderson. Trinta e três também era o intervalo de dias até seu próximo aniversário e o número de tarefas que tinha até o final da semana. Caminhou até o banheiro e um pouco zonza lavou o rosto em água corrente. Ao olhar novamente no espelho, se deu conta que tudo aquilo era bobagem, que deveria ignorar o convite de Anderson já que ela tinha outro e decidiu seguir sua rotina sem maiores restrições. Caminhou de volta a sua mesa, arrumou os documentos em que trabalhava meticulosamente e pegou o guarda-chuva que sempre esquecia no escritório partindo as dezenove horas e trinta e três minutos rumo ao happy hour da empresa que ficara a algumas quadras dali. Uma fina garoa e o tempo fechado indicavam que a noite seria nebulosa, porém afastando todas as preocupações lá se foi Rebeca com seu guarda-chuva de bolinhas vermelhas e fundo branco aproveitar sua noite.

Em algum extremo da cidade, Anderson deitado em sua cama aguardava o relógio marcar o horário exato para cumprir seu plano mirabolante. Trajava roupas simples sua camiseta preferida da banda Nirvana e um jeans já puído de tão velho. Nos pés, tênis preto para combinar com a camiseta e a tira colo a pistola 45. Ouvia música muito alta, os acordes de guitarras e baixos ecoavam vizinhança afora que desconfiavam do que acontecia ali dentro. Exatamente às vinte duas e trinta e três tudo silenciou, Anderson saltou de sua cama e calmamente apagou as luzes da casa cômodo a cômodo. Parecia que não mais voltaria ao velho endereço. Trancou todas a portas e janelas e saiu rua afora com o semblante sério e sombrio em meio a chuva que apertara com o passar das horas. Era chegado o momento, naquela noite ele mataria Rebeca.

O Happy Hour mais uma vez havia sido um sucesso. Motivados por uma máquina de karaokê, Rebeca e seus amigos cantaram as principais canções de toda uma geração, além de consumirem caipirinhas e cervejas, porções e salgadinhos, tudo o que a empresa podia oferecer para comodidade de seus funcionários. Felizes, ela e um grupo de amigos deram-se conta de que estavam atrasados quando um deles viu que o relógio marcava vinte e três horas e trinta e três minutos. Deveriam se apressar pois o metrô fecharia em pouco tempo. Saíram rua à fora ainda cantarolando mais algumas paródias até chegarem a estação. Depois de muitas despedidas e saudações de bom final semana, Rebeca fora a única remanescente do grupo já que morava na periferia da cidade. Desceu da composição à meia noite e cinquenta e dois e começou a caminhar já que havia perdido o último ônibus que a deixaria bem próxima de casa.  Caminhando pelas ruas desertas e escuras, ainda se lembrava da noite agradável que tivera e da saudade que sentia de seu novo amor. O fim de semana seria perfeito pois iriam a uma cantina italiana do gosto de ambos. Depois de trabalhar, comer era a atividade preferida de Rebeca. Sua excitação era tanta que não percebera que atrás de si, escondendo-se atrás de muros e postes Anderson a perseguia. Eram uma e trinta e três da madrugada quando a chuva apertou novamente. Parando para apanhar o guarda-chuva na bolsa, Rebeca percebeu a movimentação e acelerou o passo quase correndo. Anderson percebendo que fora visto fez a volta pela rua de trás para ganhar tempo e em uma encruzilhada muito próximo onde Rebeca morava conseguiu alcança-la. A rua escura e chuvosa dificultava a visão da garota que foi surpreendida e não pode gritar para se defender.

A intensidade da chuva aumentara consideravelmente, transformando-se em tempestade. O vento frio cortava o terreno abandonado para onde Anderson levara Rebeca para findar com sua vida. Aterrorizada e sem forças para gritar, apenas perguntava o porquê de tamanha atrocidade. Sem responder suas perguntas, Anderson sacou a pistola 45 e apontando em sua direção pedia apenas para a jovem de sorriso radiante caminhasse rumo ao fundo do terreno. Trovões anunciavam que a chuva não cessaria em pouco tempo, isso daria folga para que Anderson pudesse executar seu plano conforme havia confabulado. Pediu que Rebeca jogasse suas coisas no chão e continuasse caminhando, revelou toda amargura e sofrimento que alimentara desde o fim do relacionamento entre ambos e de toda a preparação para que aquele momento chegasse. O celular de Rebeca tocava revelando que havia alguém a procurando pela demora ao chegar em casa. Percebendo que poderia ser importunado pela chamada, ordenou que ela desligasse o aparelho e continuou conjurando a vida da ex amada. Caminharam por mais alguns metros chegando a linha final. Suplicando misericórdia, Rebeca fora calada por um tapa de Anderson que lhe acertou o rosto e a jogou no chão. Aquele era o ato final de sua crueldade, e de sua insanidade que consumia pouco a pouco seu desatinado juízo.

Exatamente as três e trinta e três da manhã o primeiro disparo foi realizado. Com a torrencial chuva que rasgava os céus, pouco se pode ouvir. Ferida na região do abdômen, Rebeca ainda juntou forças para caminhar até a direção de Anderson e tentar uma luta. Sem dificuldade foi jogada ao chão onde recebeu mais quatro disparos. Ao perceber que sua vingança havia sido realizada, Anderson fugiu deixando o corpo para trás misturando terra, sangue e a água da chuva. Horas depois, ao amanhecer, um grupo de trabalhadores que chegava para seu turno encontrou Rebeca já desfalecida e através dos documentos na bolsa avisaram às autoridades competentes. Três dias depois, às quinze horas e trinta e três minutos, trinta e três pessoas acompanhavam o sepultamento de Rebeca no Cemitério Paz e Sossego. Em sua lápide entre outras informações, estava escrito que em pouco tempo completaria trinta e três anos. Até o sol, que estava tímido por conta da chuva, deu o ar de sua graça para receber a menina de sorriso verdadeiro e feliz, que descongelava corações.

O sol brilhava de forma escaldante quando Anderson desembarcou em uma cidade distante no interior do Brasil. Em trinta e três dias, aquela era sua trigésima terceira parada. Sempre que a polícia em suas investigações chegava próximo a seu paradeiro ele buscava fuga das formas mais inusitadas: pegou carona, andou de avião e ônibus e até um cavalo utilizou para não ser pego. Escolheu aquele como seu último esconderijo por ser distante de qualquer civilização e ali não o reconheceriam. Enquanto abria as janelas do quarto de hotel barato onde se instalou, lembrava de todo mal que fizera a Rebeca e um malicioso sorriso lhe invadia a boca. Como fazia muito calor, resolveu tirar um cochilo para conhecer a cidade durante a noite. Acordou sobressaltado como se um vulto caminhasse em seu quarto e chamasse seu nome. Lembrou de Rebeca, mas logo afastou a lembrança ruim por achar que estava longe e que ninguém o conhecia. Colocou uma roupa confortável e saiu para conhecer a cidade. Aquela sensação ruim o atormentava quando entrou em um bar que estava cheio e pediu uma cerveja. Caminhou pelo salão pisoteando as pessoas que lá estavam e não se desculpou. Continuou rumo ao fundo do bar quando um dos homens em quem esbarrou foi lhe tirar satisfações. Começou uma briga e aproveitando a confusão escapou pelos fundos, porém não foi muito longe. Como não conhecia a cidade, ficou perdido pelas vielas mal iluminadas e foi encontrado pelo homem com quem havia brigado. Este que não estava sozinho levou Anderson para as ruas adjacentes que eram pouco iluminadas e com trinta e três golpes de faca às vinte e três horas e trinta e três minutos tiraram sua vida. Encostada em uma das esquinas, Rebeca assistia a cena calada. Quando tudo havia findado, seu semblante antes carregado agora estava suave. Sorriu de forma radiante, de forma com que toda a viela se iluminasse e por um momento e saiu caminhando sem olhar para trás. Ali estava o seu alento, e de coração vazio e aberto agora poderia descansar em paz.

2 thoughts to “Os Mistérios do Número Trinta e Três”

  1. Caro Marcelo. O seu conto tem a qualidade literária que o habilita a ser divulgado dentro do quadro amadorístico exigido pelo Portal. A dissertação é boa, bem estruturada e não está livre da opinião de algum leitor mais crítico. O gênero da obra (mistério) tem muitos admiradores e foi bem desenvolvida. O texto está bem escrito e tem o potencial de atrair muitos leitores. Parabéns!

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