Os discursos

 

 

 

(São Paulo – SP)

 

Na primeira fez que Vicente foi para uma UTI teve como causa de internação uma pneumonia. Ele chegou a aconselhar esposa, filhos, sobrinhos:

– Após a minha morte, não quero briga por herança. Gostaria da família unida. A união é tudo.

Vicente, porém, sobrevive.

Na segunda vez de UTI, dois anos depois, Vicente entrou por causa de outra pneumonia. Já não tinha a esposa Belmira que falecera, mas chamou filhos e sobrinhos e disse novamente:

– Não quero briga por herança. Estou perto de morrer. Gostaria da família unida.

Vicente novamente sobrevive.

Na terceira vez de UTI, três anos depois, Vicente entrou porque sofrera uma queda e batera a cabeça. Ele tinha setenta e sete anos. Chamou outra vez os filhos, os sobrinhos para a despedida, mas antes pensou: “Qual o conselho agora? Ser redundante na morte é ridículo”. De súbito, porém, teve a certeza do discurso:

– Eu sou seu tio Vicente. Eu quase morri há cinco anos, fui regenerado duas vezes, mas não devemos pensar no absoluto. Deus não foi questionado porque estamos aqui. Não é? Quero apenas lembrá-los daquela parte da Bíblia, no Evangelho de Mateus: “Qual é mais fácil dizer, os teus pecados te são perdoados; ou dizer : Levanta-te e anda?”.

Vicente mais uma vez sobrevive.

Na quarta passagem pela UTI dois anos depois, Vicente chamou, do mesmo modo, a família para o adeus. Estava mais pensativo:

– Os antigos mortos têm uma existência diferenciada. Não sentem o tempo… voltam para dormir, como em um sono. Nós chamamos apagamento tridimensional… Eu estou em um apagamento tridimensional.

Vicente além disso sobrevive.

Na quinta entrada em uma UTI, três anos depois, os filhos homens haviam morrido. Vicente chamou a única filha e os sobrinhos para contar-lhe sobre uma revelação:

– A grandeza do ser humano foi detectar o fator que permitiu sua regeneração… tudo foi possível graças a existência do cabelo intacto de Napoleão.

Vicente sai da internação sorrindo.

Na sexta vez em uma UTI, cinco meses depois, Vicente solicitou a presença de sua esposa Belmira, seus filhos homens, sua filha, todos os sobrinhos e disse que seu corpo rejuvenescera, pois ele percebeu a leveza dos quinze anos de idade. Disse ter superado suas limitações e… falavam tão mal dos cigarros. Pediu um maço de cigarros Malboro. Dali em diante fumaria durante a adolescência. Não se intrometessem, pois o patrimônio orgânico era seu.

Vicente outra vez se recupera, mas retornou a UTI seis meses depois. Chamou a família pela sétima vez:

– Senhores, eu não sou burro. Fumar corrói a saúde, com o agravante que o vício é mais esperto do que as defesas do seu corpo.

Quarta-feira dia 20, Vicente morreu por causa de uma úlcera provocada pelo excesso de fumo. Tinha noventa e oito anos. Deixa uma filha. Foi enterrado no cemitério da Consolação onde já estava grande parte da família.

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