Os Azares do Sr. Zacarias

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

O Sr. Zacarias Pintadinho foi sempre um homem sério, cumpridor e fiel à sua palavra. Sempre pronto a ajudar o próximo, bastava que um vizinho ou parente afastado que estivesse em dificuldades falasse no seu nome e logo umas portas fechadas até aí se abrissem de par em par.

Não era rico nem abastado mas vivia feliz com o seu trabalho, nunca lhe faltando dinheiro para curtir as suas necessidades. Até que um dia a má sorte lhe bateu à porta.

Quando regressava do trabalho, uma criança que corria atrás dum cão ou dum gato – nunca se soube ao certo – atravessou-se no seu caminho. O choque foi inevitável e a criança que não teria mais que cinco anos morreu ali, antes que alguém tivesse tido tempo de lhe poder prestar qualquer socorro, enquanto ele foi levado para o hospital onde lhe foi diagnosticado uma dupla fractura de tíbia e perónio. Só mais tarde e após mais exames, os médicos chegaram à conclusão que também o ortelho direito e a bacia do lado contrário apresentavam as suas razões de queixa.

Passou quase um ano sem caminhar e, quando voltou a sair à rua, foi para ir responder em tribunal, acusado da autoria de cinco crimes, cada um pior que o outro: Falta de respeito para com os peões, excesso de velocidade, ser um perigo para a segurança pública, um outro num português que não compreendeu e por fim, pela morte duma criança.

Seguro da sua inocência, o Sr. Zacarias Pintadinho partiu para o tribunal sem advogado, confiante numa absolvição. O caso era tão claro e os advogados são todos uns ladrões – assim diz o povo e o povo tem sempre razão. Ia defender-se a si próprio, assim pensou, desconhecendo talvez o provérbio que diz que todo aquele que em tribunal se defende a si próprio, tem um louco por cliente. Nada tinha exigido à família da vítima, pois a morte daquela criança foi uma tragédia para a família e ele não queria avivar a sua dor, com exigências ou reivindicações.

Fez mal! No dia do julgamento, a família da criança apareceu em tribunal com testemunhas que nada viram, mas a troco sabe Deus de quê, juraram o necessário para sair dali condenado a pagar aos pais da vítima uma indeminização de cento e cinquenta mil euros. Incapaz de compreender a injustiça da sentença, bem tentou explicar ao tribunal as suas razões, mas o juiz impediu-o que se justificasse. Só um advogado podia falar por ele. Como não tinha advogado, não tinha o direito de falar.

Foi nesse dia que os seus verdadeiros problemas vieram à superfície, mas como era uma pessoa séria, nada ficaria a dever. Juntou todas as economias duma vida de trabalho, vendeu umas leiritas de terra que eram tudo o que tinha, mas os valores estavam muito aquém da importância que dizia respeito à sua condenação.

Recorreu aos amigos que amiúde o visitavam durante aquele primeiro ano em que não pode trabalhar, sempre com aquela oferta que muito o sensibilizava.

– Ó Zacarias, se precisares de dinheiro, lembra-te que os amigos, são para as ocasiões!

E o Sr. Zacarias começou a aceitar, seguro de que havia de poder pagar. Mas aquela maldita perna continuava a impor a sua lei. Se a forçava um pouco, inchava até ao calcanhar e já nem os banhos quentes da água do mar com umas gotas de vinagre, surtiam qualquer efeito. As dívidas iam crescendo e só com novos empréstimos ia pagando os empréstimos anteriores.

Acordava pela madrugada, pensando nas voltas que teria que dar à sua vida para poder pagar a quem nele confiou emprestando-lhe o seu dinheiro, até que o sol aparecia brilhando na vidraça do seu quarto, antes que tivesse encontrado uma solução. Até que um dia, reconheceu com amargura, que jamais ia conseguir saldar as suas dívidas que não deixavam de crescer.

Ele que toda a vida foi um homem sério, tinha caído em desgraça, sem uma luz ao fundo do túnel, para onde a má sorte o atirou e por mais que pensasse, apenas a porta do suicídio se encontrava aberta para o deixar entrar. Tinha encontrado a chave para todos os seus males: O suicídio seria a solução para todos os seus problemas. Ia pagar com a vida todas as suas dívidas, já que não consegui faze-lo doutra forma.

Antes a morte que faltar à palavra dada aos amigos que confiaram nele. E no começo da tarde dum dia de Verão, o Sr. Zacarias Pintadinho dirigiu-se para aquela lagoa escondida nos pinhais, decidido a pôr termo à vida.

– Antes a morte, antes a morte. – Ia murmurando o pobre homem, enquanto se dirigia para a lagoa, e só as cigarras cantando no cimo dos pinheiros eram testemunhas do seu desespero.

I I

O Sr. Miguel era bombeiro há mais de quarenta anos. Herdou do pai a nobre missão de servir o seu semelhante que já a herdara do avô, e sentia-se sempre muito importante, no dia em que era preciso vestir aquela farda cheia de condecorações, que eram o seu orgulho. Ao longo da sua carreira de bombeiro, tinha feito de tudo, desde apagar incêndios, procurar pessoas desaparecidas, socorrer acidentados, e recolher cadáveres que de vez em quando as ondas do nosso mar devolviam ao areal.

Mais que uma vez, ajudou no nascimento dum bebé apressado que entendeu que o melhor seria não esperar que a mãe chegasse a tempo à maternidade. Sentia-se orgulhoso da sua folha de serviços onde só faltava o salvamento duma pessoa, no momento em que a morte quisesse lançar-lhe as garras.

Levantou-se mais cedo que o costume, preparou canas e anzóis pois à sexta-feira é dia de ir à pesca, e salvo motivos de força maior, será na lagoa da Salgueira que irá passar aquela manhã.

Protegido pelos galhos dos arvoredos e indiferente ao passar das horas, o Sr. Miguel ia retirando da lagoa uns pequenos peixes que tencionava lanchar com uns amigos na tarde do outro dia. Contou-os! A pescaria daquela manhã não fora abundante e seriam precisos mais uns poucos para poderem ser partilhados em partes iguais e só então ia regressar a casa. Colocou nova isca no anzol, e num gesto calculado lançou-o á água.

I I I

O Sr. Zacarias chegou à lagoa e parou por uns momentos. Olhou à sua volta, mas por ali não se via viva alma. Indiferentes à sua dor, apenas se ouviam ao longe o grasnar dum corvo que segundo a crença popular quase sempre adivinha mortes, e as cigarras que continuavam a cantar sem pensarem que o Inverno um dia vai chegar. Era hora da sesta e aquele calor que se fazia sentir, certamente que encorajou as pessoas a regressar mais cedo ao lar e ai esperar pela brisa da tarde para recomeçar as tarefas do dia – a – dia.

A lagoa era muito funda e o pobre homem sabia que depois de saltar para a água, jamais ia poder sair de lá com vida. Mais uma vez, recordou os seus credores, tudo gente amiga a quem jamais poderia reembolsar. Levou a mão ao bolso da camisa e retirou de lá aquele bilhetinho dobrado em quatro que escreveu às escondidas da mulher, naquela manhã quando os galos não cantavam:

“Aos meus amigos”.

“Só vos posso pagar com a minha vida! Antes a morte que a vergonha de não vos poder pagar”.

Procurou uma pedrinha que pousou sobre o bilhete para que a brisa da tarde não o empurrasse para a lagoa, fez o sinal da cruz, em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, não do banco com esse nome que não se esquecia de lhe enviar contas para pagar, mas sim do outro Espirito Santo que a mãezinha que Deus tem e mais tarde o padre lhe ensinaram a respeitar. Saltou para a lagoa, onde a morte estava á sua espera!

Antes a morte que a desonra! Infelizmente nos dias de hoje, pouca gente pensa como o Zacarias pensou na hora de entregar a sua alma ao Criador.

I V

Mais um peixe mordeu o isco e com aquela alegria que só os pescadores têm a capacidade de sentir, o bombeiro Miguel a fazer girar o carreto daquela cana de carbono que lhe custara um dinheirão. Foi quando viu que ali bem perto, alguém lutava com a morte.

Pousou a cana que ficou flutuando na água e correu para lá. O náufrago já tinha vindo uma vez à superfície, viria uma outra, e o homem tinha aprendido nos bombeiros, que à terceira o afogado não voltava. Ia ficar no fundo da lagoa por uns dias, antes de voltar à superfície.

Sem esperar um segundo, mergulhou. Naquele ponto, a lagoa era mais profundas do que prévia, mas não lhe foi difícil encontrar aquele corpo que viu baixar nas águas. Pegou-o por um braço, nadou para a superfície e arrastou-o para a margem que estava logo ali. Deitou-o na relva, não de bruços, mas sim de lado como lhe fora ensinado e com toda a calma foi ajudando o homem a regressar à vida.

Quando viu que este normalizara a respiração e ia poder falar, ajudou a que se sentasse, e deu-lhe umas palmadinhas nas costas enquanto lhe dizia:

– Você deve-me a vida!

– Ó homem, – gritou o Sr. Zacarias – era a única dívida que me faltava!

 

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