O Voto

 


 (Santos – SP)

O doutor Rodrigo estava fascinado pelo brinde que ganhara de um laboratório que fabricava vitaminas para crianças.

Tratava-se de um pôster enorme, que ocupava quase toda a parede livre do consultório. Posavam para uma foto, em plena floresta, uma dezena de bichos lindamente desenhados.

Desde o primeiro dia em que colocou a bicharada na parede, as criancinhas ficavam olhando encantadas, rindo e fazendo os comentários mais interessantes.

Rodrigo começou a fazer uma enquête entre os seus pequenos pacientes:

— Diga lá, de que bicho você gosta mais?

A coisa virou mania, tanto que o doutor tinha em sua gaveta uma planilha onde anotava a preferência da garotada. Observou que os menorzinhos e tímidos escolhiam o coelho e a coruja; os falantes e estabanados escolhiam a arara ou o macaco. Os que escolhiam o canguru ou a girafa pareciam ser os mais criativos. Já o tigre e o leão deixavam o doutor confuso: ele não decidira ainda se as crianças que escolhiam as feras eram líderes natos, ou crianças que queriam o poder para livrar-se de perseguições ou se eram agressivas, manifesta ou veladamente. O fato curioso é que ninguém, nem uma só criança votara no hipopótamo.

Quando Rodrigo era menino, em sua cidade havia uma fábrica de biscoitos que adotara o hipopótamo como seu símbolo e distribuía para a molecada bonequinhos, figurinhas e outros brindes com a aparência de um hipopótamo rosado e risonho, uma verdadeira gracinha. As crianças da cidade grande, porém, não sentiam nenhuma simpatia pela bocarra escancarada com imensos dentes.

Certa tarde, entrou no consultório pela primeira vez um garotinho aí de uns quatro anos, e Rodrigo, como de costume, sugeriu:

 — Vota aí, escolhe um bicho.

O menino, contudo, cruzou os braços e ficou muito quieto, com uma carinha zangada.

— Vota, filho, o doutor tá mandando – insistiu a mãe.

Mandando? O doutor sentiu-se desconfortável com o verbo:

— Não, não, não estou mandando nada. É uma brincadeira. Eu vou juntando os votos da criançada para saber qual é o bicho preferido. Então, que bicho você escolhe?

E o menino, decidido:

— Nenhum.

A mãe estava chateada:

— Escolhe um, filho. O doutor quer saber.

— Pois então ele já sabe. Eu não escolho nenhum e pronto.

O doutor achou engraçada a preocupação da mãe em agradar o médico e a determinação do menino de não arredar pé de sua opinião. Quis chegar ao fundo do mistério:

— Certo, você não escolhe nenhum. Posso saber por quê?

— É porque o meu bicho preferido é a tartaruga e aí não tem tartaruga.

Ali estava um garoto que sabia o que queria, que, na sua inocência, não se deixava influenciar pela opinião alheia, e que, sem dúvida, iria se tornar um adulto que não abriria mão de seus princípios.

Qualquer que fosse o fascínio especial da tartaruga, que qualidades esse bichinho cascudo e vagaroso possuía para encantar o menininho, o fato é que o doutor ficou a pensar que ali estava uma das maiores lições de civismo que recebera em sua vida. E falou em voz alta:

— Menino, você tem razão. Nas próximas eleições, também vou votar na tartaruga.

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