O Viajante

 

 

 (São Paulo – SP)

Após o almoço, a mãe de Carlos gostava de fumar cigarros sem filtro e ler fotonovelas na cama, encostada em três travesseiros.

Carlos bem reparava o comportamento. Ela fumava um maço durante a leitura. Sempre lia a Revista “Grande Hotel”. A mãe lia e repetia histórias antigas e, quando parava, contava moedas para mais cigarros.

Todo mundo fumava. O menino não entendia mesmo eram as fotonovelas.

Na verdade, ele nunca apreciou o gênero. Tentou ler um caso: “A traição de Jéssica”. Não passou da segunda página. Irritou-se com a quadradura de tudo, o preto e branco das fotografias, a paralisia dos atores. Duros, duros como bonecos.

O pai encaixotou a coleção. As fotonovelas foram lembranças que não doeram.

A mãe morreu de câncer, em agosto de 1970. O pai, após a viuvez, deixou o filho sob a proteção da sogra e viajou pelo país.

“Uma viagem, após se vivenciar a morte de ente querido, ajuda a diminuir a saudade, meu filho.” Essa foi a justificativa do pai. E Carlos compreendeu que ele precisava desenrolar os miolos da cabeça e por isso viajou para muito, muito longe. E quando chegou ali, quando viu uma sucuri digerindo a capivara, resolveu voltar para casa.

O pai esteve no Pantanal de Mato Grosso. E mostrou para o filho a fotografia da Sucuri. A digestão da cobra era a maior elevação do local, quase uma montanha.

As outras fotos do pai não ajudaram. O homem nem criara outra boa história. As fotos dos macacos mostravam somente macacos.

O pai apenas chegou em casa, resgatou o órfão, contratou uma empregada doméstica para cozinhar e arrumar a casa, voltou a trabalhar, falar com os amigos. Decidiu continuar a vida.

No entanto, o problema da morte da mãe sobrou na mente de Carlos como uma fotonovela inacabada. Havia muitos quartos e quadrados vazios para preencher.

O órfão não dormiu após o almoço. A Prefeitura de São Paulo podava a seringueira da calçada. Soltava a serra elétrica. O aço raspava o que aparecia. O menino foi olhar. Galhos caíam, caíam e, quando o corte terminou, ele examinou o talo. Não imaginava que a seringueira fosse tão magra.

A árvore, agora sem folhas, era um tronco anêmico. E o menino deduziu que a mãe também fora uma árvore anêmica. Ele não via a doença, porque a presença materna cobria tudo. Igual à sombra da seringueira antes da poda. Pegava a rua.

E, quando ele chegava da escola, a mãe abria as janelas e esperava o realejo passar. Gostavam da música.

Um dia a mãe cansou-se e chamou o filho para achar o homem do realejo. Encontraram um homenzinho. O sujeito assobiou, estalou os dedos e um periquito saiu da gaiola para puxar o papelzinho da sorte. O periquito era amigo do homem pequeno. A mãe parecia amiga do filho e, de repente, ela esqueceu o tamanho do companheiro.

O filho abriu o portão. Atravessou a rua para buscar a mãe, parou, voltou. Hoje é quarta-feira. As lembranças passeiam aos domingos.

A poda findou-se na limpeza. Os dois homens jogaram os galhos no caminhão.

Carlos sentou-se no meio-fio e examinou a flora da vizinhança. Na rua, cresciam as três figueiras imensas. Elas produziam figos ásperos, de aspecto tão antigo como fezes de mamutes. Diziam ser venenosos.

Mais à esquerda, no jardim da vizinha alemã, havia uma árvore torta de chegar ao chão. A árvore sustentava em seus galhos dezenas de penduricalhos. Pareciam bolas de natal atrofiadas. Há pouco tempo, apenas relacionara os tais enfeites à existência de borboletas na região. Sentiu nojo no dia. Hoje, gostaria de entender aquela metamorfose. Gostaria de compreender pelo menos os insetos.

O cupim… a natureza o preparou para inúmeros riscos. Jamais considerou a sua inutilidade de roedor no meio da madeira. Nem deforma o que come. No armário da lavanderia, por exemplo, vivia uma enorme família de cupins, mas o móvel ainda tinha forma de armário.

Carlos procurou outras árvores. Viu em cima das casas, longe dali, um conjunto de imponentes eucaliptos. Imaginou a floresta. Saiu de casa para conferir. Talvez encontrar a mãe, escondida exatamente ali, na mata.

Atravessou a rua. Dobrou à esquerda na Barão de Jaceguai. Caminhou duas quadras e passou pela casa do louco. O louco tinha quinze anos. Usava calças verdes com suspensórios. Da esquina, era possível vê-lo em seu quintal. A grade de lanças rodeava o muro baixo. Ele parecia viver em uma jaula. O garoto tornara-se atração turística. Diziam maluco, coitado é doente.

A casa também soltava no quintal dois cachorros vira-latas. E o comportamento do biruta tinha a mesma fúria de suas mascotes. Os três rosnavam com as patas sobre o muro. O louco, mais versátil, também inventava caretas, catava as fezes dos amigos e jogava nos turistas.

Carlos correu, atravessou a rua Rui Barbosa. Alguém latiu. Todos latiram.

Na hora, o órfão intuiu que o menino poderia não ser tão doido. Afinal, usava suspensórios para não lhe caírem as calças. Deixar cair as calças seria perder totalmente a cabeça.

O mendigo do bairro, o Fritz, segurava as calças. E olha que ele era muito louco. Todo mundo sabia. Um louco da guerra mundial. Soldado alemão louco. Não esmolava. Não pedia comida.

Andou mais quatro quadras. “Ela se tornou esgoto”, disse em voz baixa quando viu a canalização do córrego para a nova avenida.

Nos últimos dias da defunta, abriram um encanamento em seu corpo. Ele vira por acaso. A mãe deitada e o orifício no pescoço, por onde entrava o tubo. Devia haver muito sangue ruim lá dentro.

Ela estava tão magra, escavada, oca. Buracos não gritam: “Carlinhos”!

O bairro mudara muito nos últimos anos. Ali em cima, ano retrasado, Carlos presenciara a construção de outra avenida, e o bonde sumira. Mesmo a igreja do bairro desaparecera. Houve o incêndio e sobraram apenas a torre escura e o sino.

Três quadras após o córrego, o garoto chegou à floresta que vislumbrara de casa. Apenas um quarteirão de grandes árvores. Carlos se decepcionou quando concluiu não saber o motivo do seu passeio. Queria desvendar o mal que se escondera dentro da mãe; enfrentar a escuridão da mata; atear fogo em folhas secas.

Um avião sobrevoou a região. O órfão olhou para o céu e ali estava o aeroporto de Congonhas. O aeroporto sempre fora sinal de boas mudanças. Viagens aéreas trazem ao lar todos os perdidos no mundo. Trazem até cachorros sem dono.

Seguiu o fluxo dos pousos, e aeronaves baixavam em São Paulo. Chegou enfim à margem da avenida Rubem Berta. Não atravessou. Beirou a via e por ali, no meio fio poeirento, quis catar pacotes vazios de cigarros estrangeiros.

Encontrou uma caixinha branca, marca “King”. Cigarros Rei. As aulas de inglês resolviam. Havia muito tempo conhecia os cigarros King. Guardou o maço no bolso para um dia mostrá-lo à mãe.

O Boeing da Varig passou sobre uma parede quadriculada. Aquilo marcava o início da pista de pouso.

O menino prosseguiu e surpreendeu-se quando viu o hangar da Vasp. Dali, à noite, piscavam as luzes de um para-raios. Do seu quarto, a muitas quadras, Carlinhos podia enxergá-las. Flashes fotográficos. Pequenos estalos, vermelhos, verdes, azuis. O conjunto de cores deixara-o confiante durante a internação da mãe. Se para-raios interrompem raios, iriam interromper o câncer da mãe.

Ele desejou assim, a mãe retornaria, por causa das luzes do hangar da Vasp.

Carlos finalmente chegou ao início de sua rua. Circulara pelo bairro e agora caminharia em direção à casa sem dona. Esperaria o pai viúvo. O pai comeria macarrão da Dona Maria. Perguntaria a ele sobre a escola e fumaria jogando as cinzas sobre os restos do jantar. Mamãe não gostava do hábito.

Voltaria para uma casa, onde algo aconteceria. Ao sair sentia-se broca… agora regressava pensando em luzes.

Cantou o “jingle” do comercial da Martini. A canção afastava as lembranças ruins. “Hoje é dia de viver, o tempo ficou para trás, o que importa é sabor, só Martini traz…”. E vinha o refrão: “Qualquer hora, em qualquer lugar…”.

Sete dias depois, a Ligth instalou luzes artificiais sobre os postes da rua. Foi incrível. As luminárias irradiavam uma claridade diferente. Deixava o rosto meio azulado, meio roxo, como um sutil hematoma.

Carlos se impressionou nos primeiros dias e depois de tanto roxo, tanto azul, concluiu: no futuro, o câncer de pele tornaria fosforescente a epiderme dos homens. Não haveria mortes.

(A mãe não presenciou a mudança. Pobre mulher sem luz noturna.)

Pensou em outras possibilidades. Surgirão abcessos ativados, corpos acessos sem curtos-circuitos. A luz se espalharia.

O doente de câncer carregaria tumores luminosos. Talvez fosse algo ainda mais evoluído.

No futuro, todas as pessoas seriam faróis.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *