O Último Recurso

 

(Itabi – SE)

Deixou-me, é o que se lê nos meus olhos e o que se escuta dentro da minha cabeça com a forma de gritos ocos e doloridos. Fui deixada pela voz doce e pouco aguda do homem que pensava me amar, fui largada ao degradar lento e constante da vida rejeita pelos braços que abstiveram-se da força necessária para me segurar, jogada estou num chão de aparência tão obscura quanto a cor da minha alma. Estou te deixando, ele me disse.

Disse-me essas palavras e projetou-se no caminho de volta como se minha matéria tampouco importasse para a dimensão divina da sua, foi-se como se fosse indiferente ao tremor que me causa. Foi-se. Num clarão de racionalidade enxergo a certeza que por muito tempo habitou escondida sob as camadas líquidas de lágrimas que escorriam dos meus olhos e acumulavam-se no profundo do meu peito aberto: estou só.

As cores se abrem diante dos meus olhos e cegam-me friamente, o vento que vai e volta e faz remexer o corpo esguio das folhas companheiras ao extenso dos galhos das árvores que enfeitam o quintal vizinho se escurece e explode num grito que lança, sem ritmo nem melodia gostosa, palavras que sangram e estigmatizam meu coração jovem: solidão, abandono, amores alheios, felicidade (que, certamente, não a tenho), rejeição, desespero. Eu as escuto, as sinto e desejo gritar de volta, gritar palavras que sarem o meu sangue de mulher deixada, ser mais alta que o som do abandono e sanar o desespero que faz o meu coração acelerar e a voz emudecer.

Minha boca se abre num gesto desesperador: calaram-me! Estou muda, embutida um corpo moldado pela dor e presa dentro da carcaça putrefata do que um dia veio a me ser. As palavras que ansiavam em sair boca afora ficam presas na extensão da minha garganta, não vão a lugar algum e, por consequência, voltam mais fundo no meu interior: faz ferver o meu sangue, queimar as minhas pálpebras e arder o meu corpo que apoia-se no frio do chão.

Deixei de amar você, ele gritou. E doeu. O excesso do tom dos seus olhos me disse, exatamente, essas palavras; ele gritou com a vermelhidão colérica dos seus olhos que não me queria mais e que dos seus sentimentos nada queria dar para mim, ele disse e me fez, naquele instante, uma mulher solitária, especializada no sentimento de inutilidade e pena.

Deixei de ser amada e passei a receber dele o olhar que demonstrava a pena sob sua forma mais cruel e enjoativa: fui olhada com desgosto, com a suavidade de quem não sabe como definir-me; subi no palco do teatro da vida e fui a protagonista da minha própria tragédia, percursora do meu enredo, responsável pelo clímax e, agora, já morta e aos pedaços pela minha própria solidão, encontro-me à mercê da ação do tempo, sem ninguém para me colocar num repouso digno de sete palmos abaixo do chão que pisam os pés cobertos de couro do homem que determinou, friamente, a minha sentença: deixo você, pois desisto de nós.

Fui deixada hoje, quando acordei numa realidade em que eu existia por mim mesma; fui deixada ontem, quando o sono tardou e as memórias de uma paixão que aparentava ser minha possuíram tudo aquilo que eu chamo de realidade. Deixaram-me há um, dois, três meses.   Estou há tanto tempo só que sequer consigo datar com precisão a data da minha devolução sem destinatário, não recordo de mais nada que acontecera antes deste fato e a única coisa que repete na minha cabeça adoecida é: estou só. A cada dia que nasce e acaba, tenho a sensação ambígua de não existir e contemplo uma série de dúvidas que discorrem desde quem eu sou até por quais razões fui deixada. Eu nada sou. Nunca fui, afirmo. Estive caminhando pelo mundo em busca de certezas que arrematassem minhas incertezas, de vozes que falassem o meu tom e de corações que batessem no ritmo inexistente do meu.

Eu sou o vazio, o oco, o raso; talvez tenha sido deixada por não existir, por não amar. Ou, ainda, por amar demais e desfigurar a face desse amor. Talvez, eu tenha ansiado descobrir-me, ser tudo e, no fim das contas, nada fui, nada criei, nada amei ou senti. Talvez… As possibilidades para essa situação me corroem a alma, machucam o meu peito e ferem o rosto inundado em lágrimas salobras. Talvez, porque, quais, quantos… medidas, razões, questionamentos, hipóteses, teorias. Me pergunto quando me deixarão também, pois, a única verdade é que sirvo somente como um alerta, um aviso: vá. Ele me deixou há quase um ano, mas nunca desalojei-o do centro da minha vida. Ele me feriu há pouco menos de doze meses e o meu peito ainda não fechou. Ele me matou e eu ainda não morri.

As palavras se enfiaram na minha carne, cortando, camada por camada, e injetando no vermelho-sangue a piedade e devoção aos traços dele. Ele me deixou. E ainda estou aqui, trocando de posição quando o corpo dói, no mesmo chão, respirando o mesmo ar, chorando a mesma dor, esperando que ele venha me buscar. Minha memória falha cada dia um pouco mais: ora esqueço-me de comer, de beber, de tomar banho ou, simplesmente, esqueço como escrever. Nos raros momentos de sintonia com as lembranças, escrevo sobre ele, pois, é quem está incrustado na minha pele e em cada célula do meu organismo podre. Sinto um pouco dele até na gota do suor que desce na testa com a demora, rapidez e força do meu trabalho quando debruço-me sobre sua alma. Sinto-o saindo e percebo como estou cheia: ele nunca deixa espaço, me tem toda e inteira.

Escrevo, até a voz desconhecida pela alegria dos meus dias falar: você está só. Eu olho em volta, encaro a mancha de café no lençol de cama, a luz que não acende, o rádio que toca inutilmente e digo, baixinho, para mim mesma várias vezes: estou só. Admitindo-me só, num relapso memorial, grito e faço o meu corpo ceder à loucura, pois recordo que fui deixada. Repouso, mais tarde, no silêncio da noite. A caneta ainda é sufocada pelas minhas mãos, mas agora eu regressei ao meu novo estado natural e nada sinto ou ouço. As vozes se calaram, os ruídos lá fora inexistem e meu corpo parece não mover-se nem na simplicidade do respirar.

Tardiamente, submergida no oco dos traços do ladrão, avanço na condição de orar: falo com Deus, falo com aquele que sempre me assustou… me apresento, digo não estar certa do meu nome, mas que sei com firmeza da dor que sinto. Deus, falo-o, estou só. Eu não quero estar só. Eu só quero deixar-me, pois, no fim das contas, não me suporto, não suporto o que me tornei, o que ele me fez… e numa ironia, possivelmente predestinada, digo a mim mesma: deixo-te agora.

6 comentários em “O Último Recurso

  1. Quando se escreve deste jeito a sensação que tenho é que afinal a nossa língua não tem tantas diferenças assim. Sotaque sim, mas o português é o mesmo quando escrito por quem sabe. Parabéns!

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