O Tiro

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(Fortaleza – CE)

Um tiro. Apenatiros um tiro. Um feixe de aço penetrara em seus músculos não tão gastos. A prestação do carro, o financiamento da casa outrora sonhada, as contas domésticas, o curso de línguas do Gustavo, o primogênito, o beijo adiado na esposa… Tudo ficara entre a carne esburacada e a bala. Apenas uma. Indefinida. Letal e silenciosa.

“não vais tomar café? Vai esfriar”

O nó da gravata desequilibrava o traje a caráter de todas as manhãs. Clara arrumava o marido antes da labuta diária. Dele e dela. Ultimamente, as atribuições do cotidiano a matava. Acordava, ininterruptamente, às 05h30min da matina. E daí, passar o café, acordar os filhos para escola, colocar ração e água para o cachorro, ir ao trabalho… Ainda tinha como função matrimonial arrumar a gravata do esposo. Estou cheia, pensava constantemente nos últimos dias.  Realmente, o café de todas as manhãs não mais ficaria tão amargo como naquela manhã. Na ida ao trabalho, dentro de seu casulo de aço, de rodas e de volante, o marido tornou-se taxativo. Era um olhar dentro de si.  Perturbação constante. Inevitável. O trajeto fora concluído na mesma porcentagem de tempo de todos os dias, no entanto, seu subconsciente inquietante não o deixava apaziguar os instintos. Aprendera desde criança a anatomia do sexo oposto. As múltiplas diferenças e diminutas semelhanças. Era o terceiro filho de cinco. Apesar da família de classe média, sempre estudara nas melhores escolas de sua cidade. O pai era supervisor de supermercado, já a genitora labutava em uma loja de roupas. Organizar e engomar as vestimentas que as dita “madames” não compravam era a primordial atribulação cotidiana. Entretanto, batalharam para que os filhos tivessem uma boa educação.

Formou-se em engenharia elétrica. Era o orgulho da família ou ao menos se confortava com tal constatação. Fora tempos felizes na academia. Estudara as disciplinas de cálculos com esmero de Dante em Divina Comédia, aprendera a conviver e escutar a opinião dos outros, além é claro, vivenciara as noites de boêmia nas famosas calouradas. Em uma dessas, conhecera Clara, futura esposa e mãe de seus três filhos: Sara, 7 anos, Luis Gustavo, e Pedro , o caçula. Clarinha, como era chamada pelo marido nos tempos em que facilmente transformavam fel em mel, era estudante de nutrição quando se conheceram.

Dos primórdios olhares até o casamento foram anos de tranquilidade e comunhão. O namoro transcorrera com afeto, empatia, companheirismo e amor. Clara, amantíssima esposa, cuidava da casa e do lar. A limpeza e organização tanto do espaço físico quanto do psicológico era de sua responsabilidade. Obviamente, sua labuta não se resumia as atividades domésticas. Atuava como uma das nutricionistas de um restaurante universitário. Como fora ótima aluna na graduação, facilmente colocava em prática o que aprendera na universidade.

“como podemos ver nos slides, a base de uma alimentação equilibrada e nutritiva tem de ser com relação à conhecida pirâmide alimentar: os carboidratos devem ser o topo, em seguida as proteínas…”

Sim. De fato, Clara apreendera solidamente o verbo EQUILIBRAR. Equilibrava o trabalho, os filhos, as finanças, o casamento, e por que não as angústias. Sim. Equilibraria também as angústias. No entanto, nos derradeiros dias, as coisas ficaram descoloridas. Acinzentadas. Os beijos de boa noite no marido ficaram cada vez mais escassos. As saídas ao cinema ou à praia um deserto de materialização. Sozinha, na escuridão do quarto e de sua alma, acolchoava-se com o travesseiro de pelúcia, presente do último dia dos namorados.

 O corpo atirou-se no chão, inerte. O sangue jorrava da carne agonizante. A bala entrara um pouco acima do tórax e estilhaçou tal qual uma metástase. Não teve dó do outro ainda vivo morrendo. Sentira um prazer irremediável. Esperava o ser de convivência matrimonial sem vida há tempos. Há sim caríssimo leitor, ato dos quais nunca poderá retornar. Esse foi um.

“ achas que um mocinha é melhor que uma mulher madura?”

“ não quis dizer…”

“ Então?”

“Clara chega. Chega amor.”

Clara saíra da cozinha sem ao menos ouvir o amor de seu amor. Essas garotinhas estão cada vez mais ousadas, crescem muito rápido. A alimentação deve ser a causa, falara certa vez à esposa ao assistir uma reportagem sobre a precocidade das garotas e seu rápido crescimento hormonal, e, por conseguinte, sexual.  O comentário despertara o desentendimento naquela noite. A desconfiança imperava agora naquela casa. Telefonemas secretos, saídas constantes, atraso no fim do dia, roupas novas, perfumes… e todos aqueles ingredientes  que temperam o ciúme e o desamor entre um casal, mesmo que nada exista de concretude infidelidade entre os cônjuges. Anos de convivência e cumplicidade para no fim um tiro. Ato impensável? Ou metricamente cronometrado? Dia e hora calculado? Ou mero acaso da sorte do algoz e azar da vítima?. As circunstâncias mudam de acordo com nossa ótica e interesse leitor meu.

O choro e o lamento um fato.  Os órfãos sentiam aquela bala real perfura-lhes os sonhos irreais. A dor apertava-lhes o peito tal qual apertara o peito do corpo agora sem vida. O outro que agora teria a total responsabilidade de cuidar do penar dos filhos, de educá-los, de protegê-los e de amá-los, sofria um pesar surdo-mudo. Incomunicável e indecifrável. Uma tempestade misteriosa de satisfação e perda. Uma excelente expressão da antítese. Nunca aprendera nos bancos escolares a utilização efetiva dessa poderosa figura de linguagem. Não havia utilizado na prática até então.

A perícia chegou às 6:15. O início da noite metaforicamente pincelava ares de melancolia. A notícia ao cônjuge vivo chegara por ondas telefônicas. No bolso do casaco dele um número anotado no pedaço de guardanapo amaçado. Nos lábios de Clara empestava sutilmente um aroma do beijo daquela manhã nunca mais dado. Os dois corpos estavam estendidos. Na mesa, ainda constava a frialdade do café na relação entre os dois. Para polícia, assalto seguido de morte. Tudo arquivado.

6 comentários em “O Tiro

  1. Gostei, Helder.
    Desde o início, a apresentação do agarramento e submersão na preocupação diária em superficialidades do trabalho, das prestações, financiamentos e contas, como essa rotina vai lhe afastando de viver, e de dar o “beijo adiado na esposa”(e eu assumi que ele quem foi baleado devido à esta frase), beijos que ficam cada vez mais escassos.
    E esse nó da gravata apenas lhe enforca.

    A esposa tinha realmente o dom de equilibrar, e equilibrara também o texto. Apesar de sofrer com o marido, também ela(e quem não?) tem sua rotina semirrobótica diária. O relacionamento se desgasta cada vez mais, a pressão aumenta, de tal forma que em certo ponto do texto cheguei a pensar que ela teria efetuado o disparo.
    Apesar de tudo, ela queria mesmo era viver: “Sozinha, na escuridão do quarto e de sua alma, acolchoava-se com o travesseiro de pelúcia, presente do último dia dos namorados.”
    O simbolismo deste trecho é imenso.

    “Os órfãos sentiam aquela bala real perfura-lhes os sonhos irreais.” Sonhos de viver mais com o pai, ou sonhos de formação educacional? Afinal agora ficaria difícil frequentarem as mesmas escolas. Em vida, o pai assumira que os últimos eram mais importantes, ou sequer cogitou os primeiros.
    Apesar de tudo, ele fazia mesmo isso por se preocupar com a família, por querer dar uma ‘boa’ educação aos filhos, ‘boa’ casa a família. Talvez em sua formação, ou por pressão social, aprendera que isso era ‘viver bem’. Algo que sempre discuto com as pessoas e, pessoalmente, chamo de ‘sobreviver bem’, e brinco: “Viver é outra coisa”.

    Também gostei da troca de cenários passando da vivência em casa para o momento do tiro.
    A leitura do texto é aprazível.

    Gostei mesmo do jogo de sentidos com o café…
    “não vais tomar café? Vai esfriar” (não vais viver a vida? Vai morrer). Obs.: O pleonasmo foi voluntário.
    Gastes esses “seus músculos não tão gastos”, não adie os beijos. Carpe Diem.
    …mas o café esfriou, porém já estava tão amargo que provocou ao outro um certo alívio.

    Bom, pelo menos assim interpretei.
    Parabéns pelo texto!

    1. Ótima interpretação. Lisonjeado pela reflexão sobre as múltiplas significações textuais. Fizeste uma análise considerável, inclusive, tirando trechos do próprio conto. Obrigado pela leitura e por tecer comentários sobre o conto. Espero que Leia outros. Abraços.

  2. Beleza, Helder. Como falei, uma das hipóteses de minha confusão seria não ter captado as sutilezas contextuais. Precisamente a que restou verdadeira.

    De seu leitor,
    Tião

  3. Caro, Hélder,
    Dez para a temática psicológica de seu texto. A inquietude mental/sexual que invade os conjugues é assunto antigo, entretanto sempre atual. O que nos leva ao princípio de que nada tem importância, exceto ao que importância atribuímos. Ou seja, a mente é capaz de tudo, Daí que não podemos dar importância a todos os fatos sob pena de virarmos neuróticos. Tampouco podemos viver desligado, pois corremos o risco do deslumbramento.
    Igualmente dez por ter dado a ocupação de nutricionista à Clarinha. Isso contextualizou o ciúme dela (essas garotinhas estão cada vez mais ousadas, crescem muito rápido. A alimentação deve ser a causa).
    Mas – o mas é terrível, Hélder – senti-me meio perdido em relação à composição textual. Até relutei em escrever este comentário. E já lhe antecipo o pedido de desculpa se, por acaso, você se sentir desconfortável. Comento porque acho que o bom leitor é como o bom amigo. Elogia, mas também puxa a orelha se necessário julgar. Então vamos lá.
    1- De início, você fala do curso de língua do Gustava, o primogênito. Lá na frente, contudo, você escreve assim: “futura esposa e mãe de seus três filhos: Sara, 7 anos, Luis Gustavo, e Pedro , o caçula”. Essa sequência dá a entender que a Sara é quem puxa a fila. Besteira, mas esses detalhes ficam na mente do leitor, pode acreditar.
    2 – Como deu nome à Clarinha, talvez fosse o caso de também nominar o marido dela. Outra besteira, mas…
    3 – No primeiro parágrafo, você diz que o marido levou o tiro. No fim, escreve: “A notícia ao cônjuge vivo chegara por ondas telefônicas. No bolso do casaco dele um número anotado no pedaço de guardanapo amaçado (amassado)”. A redação diz que o marido está vivo, não? Já que o casado é dele…
    4 – No último parágrafo, você informa: “os dois corpos estavam estendidos”. Aqui eu me perdi completamente. Então morreram os dois?

    Das duas, uma. Ou não consegui captar a sutileza contextual, ou você caiu na distração. Mais uma vez lhe peço desculpa pelo atrevimento, Hélder. Estou querendo apenas ser um bom leitor.
    Abraços literários,
    Tião

    1. Olá, Tião. Tudo bem?. Primeiro, obrigado por ter lido o texto e, também, ter comentado a partir de tua visão leitora. Não gosto muito de falar dos textos. Não por vaidade nem nada. Mas, por cautela. Gosto de saber o que o leitor viu. Isto é, conhecer sua visão sobre o texto e, consequentemente, ver esse leitor construir os sentidos. Todavia, devo uma resposta dado aos comentários que fizeste.
      1. Sobre a sequência dos filhos, tentei deixar o leitor abstrair as idades. Porém, deu pistas. Se Sara tem 7. Subentende que Gustavo possui mais de 7. 8 ou 9, por exemplo. Só não pus de forma linear.
      2. Nomear o nome dele?. Não vi necessidade. Creio que a história em si é o grande problema a ser desvendado. Escolha estilística, apenas. Poderia ter omitido o de Clara, por exemplo.
      3. Este me intrigou. No primeiro parágrafo não disse que ele teria levado o tiro. Tão pouco neguei. “Músculos…” pode ser tanto feminino quanto masculino. Quanto ao casaco, o texto não diz que ele está ou não morto. E, sim, que fora encontrado um papel. Creio que aqui, houve uma breve distração. Mas, não minha. Embora, não esteja imune a isso.
      4. Corpos estendidos. Um pode ter morrido, enquanto o outro deitao corpo sobre o outro sem vida. Talvez, cinismo?. Dissimulação? .
      No mais, obrigado mesmo pelas reflexões. Ótimo ter retorno. Espero que leias mais textos meus se desejares. Será um prazer tê-lo como leitor. Abraços.

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