O Sertão Virou Marte

 

 

 

 

(Salvador – BA)

E o sol começava a arder. Ao longe, bem distante, nas sombras dos mandacarus surgiam as miragens. Horas antes as corujas do sertão já tinham retornados aos seus esconderijos. Era talvez sete horas da manhã. Era verão de 1950. A noite tinha sido uma agonia e também cheia de muita expectativa. Dona Maria sentia o momento do nascimento se aproximando. Mesmo sem nunca ter lido nada sobre aquilo. Nunca aprendeu a ler ou escrever. Agora com trinta anos e sete barrigas já paridas, a experiência lhe ensinara. Ela tinha a certeza que sua oitava criação iria nascer. Não sabia sobre o sexo do seu novo rebento. Mas sabia que a dona do corpo já desaguara, e isto era um sinal. As rezadeiras tinham arriscado um palpite: seria menino. Ela preferia não acreditar. Depois de sete filhas não teria a sorte ter um menino.

– Já fui a Salgadália pra arrumar um transporte pra te levar pra Serrinha. Me prometeram. Aquele xereta de merda do prefeito. Nada até agora. Malditos! – Se revoltava Zé da Tapioca, ao ver sua mulher naquela situação.

– Se acalme omi! Sei que tudo vai dar certo. Dona Madalena com o poder das suas rezas já disse que tudo vai correr bem. Daqui a pouquim chega Jurema e vai empurrar tua cria pra fora – Falava Dona Maria com a voz entrecortada pelas contrações que aumentavam hora após hora.

Parecia que seria naquela manhã mesmo. O cozido já estava indo para o fogão a lenha. Na gamela o sangue de cinco galinhas de cria já coalhava e as garrafas de meladinhas estavam prontas sobre a mesa da sala esperando os visitantes. As cunhadas tinham arrumado tudo. Bacias limpas, todas ariadas. Panos novos, brancos, alvinhos. Tesoura fervida, garrafa de álcool e vasilha pra receber a placenta e o cordão umbilical. As orações, as rezas e a coragem daquela gente completavam o cenário daquela casa de dois quartos, chão batido e paredes de barro grudado nas varas de juremas que sustentavam as paredes.

Aquela imagem, aqueles diálogos pareciam ter sido ontem. Dona Maria, agora treze anos mais velha sentada na porta da sua mesma casa, iluminada pelo reflexo do candeeiro que vinha de dentro, observava seu filho Crispiniano deitado no terreiro sobre uma esteira a observar o firmamento. Sentia que aquilo tinha sido um presente de Deus. Mais uns braços fortes para a lavoura e o corte do sisal. Mas aquela mania de ficar cismado olhando o céu começava a lhe preocupar.

– Menino! O que é que tu tanto olha pro céu? Tá ficando doido é? – Gritou Dona Maria assustando seu filho que deu um pulo e caiu sentado.

– Oxente Mainha! Tô olhando as estrelas. Vendo o clarão da via láctea. Tentando enxergar os planetas, eu sei que eles estão lá. Eu li no livro de ciências – Tentava se explicar Crispiniano depois de ter sido surpreendido pela sua Mãe.

– Deixe disso menino. Não queira se meter com as coisas de Deus. Com as estrelas, com esse negócio de via, via, sei lá o quê. – Replicou Dona Maria ainda mais assustada com as coisas que seu filho falava.

– Sabe Mainha, cada dentro de mim, tá brotando uma certeza. Existe gente lá também. Eles se chamam ET. – Aquelas palavras vindo de um adolescente deixava sua mãe ainda mais confusa. Ela não entendia nada. Mas desconfiava que a loucura rondasse aquela mente.

Crispiniano cada vez mais lia sobre astronomia. Tudo que falava sobre vida extraterrestre e a conquista do espaço lhe aguçava a curiosidade. As tarefas do dia a dia começam a não lhe interessar mais. Mas Zé da Tapioca cobrava a ajuda que era esperada do único filho homem. Então, Crispiniano se desdobrava. Durante o dia trabalhava duro com seu pai e à noite estudava até altas horas e às vezes varando a madrugada.

– Um dia o Sertão vira Marte! – Pensava Crispiniano nas noites claras de lua cheia no Sertão.

 

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